O aprendizado dos sons
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 05 de junho de 2003
Rosângela Vale<BR>Reportagem Local 
Crianças com dificuldades de fala nem sempre despertam a atenção devida dos pais. Muitos acham que se trata de uma fase passageira, comum a todos os pequeninos, e acabam relegando o problema a segundo plano, na crença de que se resolverá por si mesmo. Até que os filhos começam a apresentar dificuldades na escola, com atraso no aprendizado. Geralmente, é o sinal vermelho para que procurem um especialista. Mas o problema pode ser resolvido bem antes e, dessa forma, ser menos traumático para pais e filhos. Na entrevista a seguir, a fonoaudióloga Solange Francisconi explica as causas, os sintomas e as soluções para os distúrbios da fala.
A partir de que idade os pais devem começar a se preocupar com a dificuldade de fala do filho?
Solange A gente tem que levar em consideração que nós temos um quadro médio de desenvolvimento de aprendizagem. Então, os pais não podem comparar o seu filho ao filho da vizinha, que fala mais palavras. Quem tem que avaliar é o profissional. Normalmente, com um ano, a criança já fala algumas palavras. Com três anos, ela tem que ter um repertório de 300 palavras, em média. Mas quando os pais percebem que a criança está demorando demais para falar, é bom procurar rapidamente um profissional. Às vezes, só com uma orientação, o caso se resolve. A gente dá um prazo de um mês e marca a reavaliação. Se não melhorou, entramos com terapia. Em média, o padrão é: com seis meses a criança está balbuciando; com um ano, está falando algumas palavras, com dois anos, formando frases. Mas temos que estabelecer que cada criança tem o seu ritmo de desenvolvimento.
Quais sintomas podem indicar que a criança está com atraso na fala?
Solange A criança pode ter um atraso de fala ou um distúrbio articulatório: começa a trocar letra numa fase que não deveria estar trocando. Até os quatro anos, quatro anos e meio, ela tem condições de estar falando corretamente todos os sons. É normal uma criança de dois anos não estar falando com um encontro consonantal. Ela faz algumas trocas, tem dificuldades nos sons que são parecidos, não consegue o ponto articulatório correto.
Quais as causas desses problemas?
Solange Ambientais (falta de estimulação), psicológico (pais que brigam muito, por exemplo), bilinguismo na família. Às vezes, é um problema orgânico, ela tem a língua presa e não consegue alcançar o ponto articulatório. A gente tem que fazer uma avaliação para ver se não há alguma disfunção, além de outros fatores: em alguns casos, a criança tem até uma leve disfunção auditiva e os pais não percebem. Tem que observar: se a criança fala muito alto ela pode não estar ouvindo bem. E se ela não está ouvindo bem, não vai falar bem. Mas tem criança que não fala porque os pais fazem tudo para ela. Não há necessidade de falar. Ela fica sem estímulo, basta apontar o que quer e os pais já dão. Isso é um erro.
Na sua experiência clínica, qual o fator mais comum no retardo da fala?
Solange Falta de estimulação. A criança fica com a babá ou em creches, com pessoas ocupadas. A linguagem, primeiro, é trabalhada internamente. A pessoa forma imagens mentais para depois expressar. Tem que estar conversando, contando histórias, nominando coisas para a criança formar as imagens mentais. É normal gaguejar até cinco anos porque ela já tem todo aquele conteúdo na cabecinha dela, mas não tem vocabulário para expressar. Ela quer contar uma coisa e não consegue achar a palavra. Dependendo da maneira que os pais lidam com isso, o filho vai passar por essa fase tranquilamente.
O que os pais devem fazer para estimular a fala da criança?
Solange Contar histórias, mostrar figuras. Na hora do banho, comentar: ''olha, a água tá quente, tá fria, que sabonete perfumado, vamos lavar o pé, a mão''. Estar sempre nomeando as coisas. Quando vai fazer um passeio, comentar sobre o passeio. Estimular a criança a pedir. No começo, quando ela é pequena, ao dar as coisas, você sempre deve nomeá-las para que ela aprenda o que é aquilo. Os pais não podem se mostrar muito ansiosos para a criança, comentando na frente dela a preocupação com a fala. Pode dar um bloqueio. Melhor procurar um profissional.
O aleitamento materno tem influência sobre a fala?
Solange No aleitamento materno temos a ordenha; na mamadeira, a sucção. A ordenha trabalha os músculos que depois vão ser usados na mastigação e na fala. O uso da mamadeira e da chupeta atrapalha demais a fala da criança. Porque a sucção usa outros músculos que depois não vão ficar adequados. Por isso, se os pais querem prevenir problemas de fala, têm que procurar não usar mamadeira e chupeta. Outra coisa que atrapalha muito é que, além de não usarem um bico adequado na mamadeira, as mães, às vezes, aumentam o furo do bico. A criança não tem trabalho muscular nenhum para sugar o leite. A maneira que você vai introduzir o alimento, passar do líquido para o pastoso, também interfere muito na fala. As mães, muitas vezes, batem no liquidificador, colocam na mamadeira e aumentam o furo. Não pode. A criança tem que aprender a mastigar para trabalhar a musculatura. Tudo isso já está trabalhando a fala. É preciso ter uma musculatura adequada porque não temos um aparelho para a fala. A gente usa estruturas do aparelho digestivo e do respiratório.
Como é feito o tratamento? É demorado? Exige uma equipe multidisciplinar?
Solange A gente faz uma avaliação para ver se tem alguma alteração de estrutura, se a criança tem alguma dificuldade auditiva. Encaminhamos para os profissionais para chegar a um diagnóstico. Depende muito também do apoio que a família vai dar ao tratamento. Algumas atividades devem ser feitas em casa, então, os pais têm que colaborar bastante com a gente. Peço para tirar a chupeta, a mamadeira, esse tipo de coisa tem que ter colaboração. Por isso, não dá para dar um prognóstico. Se não tiver nenhum problema neurológico e tiver uma boa estimulação em casa... Já tive casos de crianças pouco estimuladas, que tiveram a colaboração dos pais no tratamento, e que em um mês já estavam falando bastante coisa. Outras, em três meses aumentaram muito o vocabulário.
Quais profissionais normalmente estão envolvidos no tratamento?
Solange Otorrinos, dentistas, fisioterapeutas, psicológos, psicopedagogos. Tem aquela questão da respiração bucal e de hábitos inadequados, como roer unhas, morder caneta, que dão alterações dentárias e de musculatura da boca, prejudicando a fala. Problemas de arcada dentária interferem também na fala da criança. A gente tem que avaliar tudo isso. Às vezes, a criança não consegue fazer alguns sons porque tem mordida aberta, em outros casos, mordida presa.
Respiradores bucais também podem ter problemas de fala?
Solange Essa é uma questão muito séria. Primeiro, o nariz foi feito para limpar e umidificar o ar. No momento que a criança está respirando pela boca, está respirando um ar sujo, seco. Então, já vai ter maiores probabilidades de adquirir uma amidalite. Segundo, o problema altera toda a estrutura da boca. É aquela criança que fica com a boca aberta, os lábios caídos, com bastante olheira, olhar triste. Como respira pela boca, tem uma diminuição da oxigenação do cérebro. Então, ela é mais desatenta na escola, mais lenta, pode ter alteração de equilíbrio, pois joga a cabeça para frente para conseguir um ângulo para respirar. Ela geralmente tropeça e cai muito, tem também alteração de postura. Os lábios hipotônicos e a língua baixa aumentam a probabilidade de problemas de fala. Mas é uma questão que envolve outros problemas, até alimentares, porque a criança que está com obstrução nasal tem duas opções: ou vai comer correndo, sem mastigar, e nesse caso vai comer muito, ou ela não vai comer. A gente encaminha para o otorrino para ver se realmente há uma obstrução, porque pode ser só má postura. Depois ela volta para a fono que vai reeducá-la.
Qual a faixa etária das crianças que você mais tem atendido com dificuldades de fala?
Solange O que tem me preocupado muito é que, nessa época, estão chegando com frequência no consultório crianças de primeiro ano, que estavam com problemas de fala e começaram a ser alfabetizadas. Elas se sentem atrasadas em relação aos outros, têm mais dificuldades no aprendizado. E aí a gente tem que correr com o tratamento. Quando vai ser alfabetizada, a criança tem que estar falando todos os sons da língua corretamente. Se ela foi para o primeiro ano trocando letras, provavelmente vai passar isso para a escrita. Então, quando a criança começa a ficar para trás, com dificuldades, os pais ficam desesperados e procuram a gente. Acho que os profissionais da saúde devem orientar os pais a procurarem um fonoaudiólogo quando notarem essas alterações. Algumas escolas têm essa abertura para a gente. Vamos lá e orientamos os professores, que são as pessoas que passam a maior parte do tempo com as crianças. Assim, a gente pode fazer um trabalho preventivo. Isso é essencial.n


