O aprendizado das diferenças
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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2002
Rosângela Vale 
Levante a mão quem já não engasgou ao ser questionado sobre sexo pelos filhos. A atitude é mais do que normal, afinal, a sexualidade ainda é tabu e um assunto mal resolvido para muitos adultos (veja entrevista na página 10). Imagine, então, dar conta de explicar aos pequeninos que o modelo papai e mamãe não é o único possível.
Para quem ainda não passou pela saia justa, é bom estar preparado. Com tantas informações pipocando por todos os lados, a pergunta não vai tardar a surgir. Cada vez mais, a temática homossexual é trazida à tona pelas novelas globais como na atual Desejos de Mulher, onde José Wilker e Otávio Muller interpretam um casal gay. Saindo da ficção para as páginas dos jornais, o assunto foi destaque, nos últimos meses, com a morte de Cássia Eller e a questão judicial da guarda de seu filho, Chicão, que acabou ficando com a companheira da cantora.
As mudanças na estrutura da família tradicional são evidentes. E a possibilidade de seu filho ter um amiguinho cujos pais têm uma opção sexual diferente é cada vez maior. Já começam a surgir sinais dos novos tempos. A escola carioca Espaço Educação, por exemplo, chegou a modificar o calendário. Saem as festinhas de Dias das Mães e dos Pais e entra o Dia da Família, uma alternativa para que filhos de casais homossexuais, de mães solteiras e órfãos não fiquem constrangidos na hora da festa.
Uma atitude louvável que vai de encontro à necessidade tão urgente nesses tempos de guerra por causa da intolerância de valorizar o respeito à diversidade. Ensinar, desde a infância, a aceitar as diferenças começando pelas diferenças sexuais é uma forma de construir um mundo melhor. A responsabilidade está nas mãos dos pais.
O meu filho mais velho, de 5 anos, já chegou a perguntar o que é ser gay. Eu repondi: é um homem que gosta de outro homem. Tentei passar de uma forma mais natural. É mais saudável para a criança. Não acho difícil falar sobre isso. Não vejo a homossexualidade como um problema, mas como uma opção sexual. Talvez pelo fato de ser jornalista e ter contato com tudo, tento ter uma cabeça mais aberta. As coisas estão mais expostas e cada vez estarão mais. Isso é irreversível. Não adianta censurar a TV. É preciso trabalhar a cabeça da criança. Ana Maio, jornalista
Minha opinião é: sou contra. Não gostaria que meus filhos fossem homossexuais. É contra a natureza. Não aprovo mas também não discrimino. Meus filhos são pequenos e ainda nem sabem que existe isso. Quando perguntarem vou explicar que papai do céu fez o homem e a mulher, e que esse é o casal certo. E dizer que alguns têm preferência pelo mesmo sexo, mas não é o que papai do céu quer. Quero ensiná-los a não discriminar, porque cada um escolhe seu caminho. Gisele Noguchi, do lar
Tenho dois filhos adolescentes e quando aparece esse assunto, eles acham um horror. Não tenho nada contra, cada um faz o que quer da sua vida. A gente comenta porque está vendo na TV, e sempre acaba tirando sarro. Pensamos nos filhos dos outros, achamos que nunca vai acontecer com a gente, mas não tem como a pessoa escolher. Quando é, não tem jeito. Benedito Faria, representante comercial
Tenho um primo que desde pequeno tinha trejeitos, só brincava com as meninas. Meus tios levaram no psicólogo, mas nunca ficou comprovado nada até que ele foi para o exterior e se casou com um homem. Minha tia ficou em estado de choque durante uma semana, mas agora já aceita numa boa. Algumas pessoas na família não aprovam, mas a gente que tem filhos nunca sabe o dia de amanhã. Tenho uma filha de um ano e não tenho a mínima idéia de como vou explicar o assunto para ela. Fernanda Silveira dos Reis, comerciante
Sempre conversei jovialmente com meus filhos sobre todos os problemas da juventude. Se a casa tem harmonia, os assuntos são discutidos de forma tranquila, com a seriedade que cada um merece. Procurei fazê-los entender que a homossexualidade é um problema psicológico que acomete pessoas suscetíveis. Existem pessoas que externam essa sensibilidade e outras não. Como a gente não pode julgar a sensibilidade de cada um, deve encarar com naturalidade e tratar com respeito. Sem julgar, discriminar ou tripudiar em cima, apenas se afastar dos que externam isso para garantir a preservação individual. Cláudio Nunes, engenheiro químico


