O amor que exige respeito
Angela Raizer Barbosa
O psicanalista Sigmund Freud costumava dizer que amor e trabalho são questões centrais da vida humana. Essa idéia pode ser aplicada ao trabalho desenvolvido pelo grupo de voluntários que participam de um movimento humanitário e pouco divulgado em Londrina. Sem apoio oficial dedicam boa parte de seus dias e noites para abrir corações e mentes, ajudando a quem está numa situação de infelicidade que eles também viveram um dia. É o grupo do Amor Exigente (AE), uma proposta comportamental destinada a orientar pais e filhos com problemas em família, na escola e na comunidade.
Criado nos Estados Unidos nos anos 70, como programa de prevenção às drogas e recuperação de dependentes químicos, o Amor Exigente foi introduzido no Brasil em 1987 e hoje está implantado em mais de 500 cidades brasileiras, 62 delas no Paraná. Baseado em 12 princípios dirigidos aos pais, o AE prega, além do princípio básico do amor, a imposição de limites para vencer a rebeldia dos filhos e as crises familiares. É o amor que exige respeito e disciplina sem ser autoritário.
Drogas O Amor Exigente começa por você e nada muda se você não mudar, diz uma frase dirigida aos pais e estampada num dos cartazes pendurados na sala de uma modesta casa de fundos, onde funciona a sede do grupo londrinense. A coordenadora regional do movimento Neide Furtado, diz que o AE chegou em Londrina com o objetivo de trabalhar junto a famílias com dependentes químicos e para promover a reestruturação familiar. Hoje, com dois grupos formados, um deles com mais de 70 pais, o Amor Exigente não se restringe apenas a problemas relacionados com drogas, mas a outros tipos de comportamento que incomodam e causam sofrimento. Apesar de não ter conotação religiosa, os grupos de pais se reúnem uma vez por semana, à noite, no espaço cedido pelas paróquias dos Sagrados Corações e Nossa Senhora do Rocio. Os atendimentos individuais são feitos diariamente na sede do movimento.
Não fazemos atendimento com profissionais; todas as pessoas que trabalham com o AE são voluntárias, explica Neide Furtado, acrescentando que se houver necessidade é feito o encaminhamento a profissionais especializados. A maioria das 19 pessoas que colabora com o movimento já teve problemas em casa, conseguiu solucioná-los através do AE e agora retribui ajudando as famílias de todas as classes sociais que nos procuram. Sem recursos oficiais, o AE paga as despesas de aluguel, luz, água e telefone com a venda de livros sobre o assunto, doações espontâneas e venda de salgadinhos. Entre os planos do movimento está a criação de cursos permanentes de prevenção às drogas e de formação para professores.
Milagre não existe Segundo Neide Furtado, de cada dez pais que procuram ajuda, de dois a quatro permanecem. Existem aqueles que chegam aqui esperando encontrar uma solução milagrosa e vão embora quando vêem que não é tão fácil assim, outros não admitem que têm culpa e que precisam mudar seu relacionamento com o filho, outros aceitam e ficam até resolver o problema e têm aqueles que mesmo depois de resolver a situação que os afligia continuam no AE como voluntários. Entre estes últimos estão duas mães, que preferem não se identificar ao dar seu depoimento.
A primeira, funcionária pública aposentada, separada do marido, revela que a filha, hoje com 19 anos, usava drogas (cocaína, anfetaminas, maconha) desde os 14. Há cinco anos, após várias tentativas em clínicas para recuperar a filha, ela procurou o grupo de apoio. No início, como eu estava desesperada e queria um milagre, tive a impressão que o AE não iria resolver nada, mas acabei encarando como um desafio. Participando das reuniões e ao mesmo tempo mudando seu comportamento em relação à filha, ela conseguiu convencê-la a se internar numa fazenda de recuperação de drogados. Um ano depois, a garota retornou para casa e já está há dois anos sem se drogar. Voltou a ser uma pessoa normal estuda e mantém um relacionamento agradável comigo e com o irmão, confessa a mãe.
Limites A outra mãe, dona de casa, afirma que o Amor Exigente a deixou mais fortalecida e lhe deu segurança para enfrentar o drama familiar, que começou ao descobrir que o filho já estava fumando crack depois de usar outras drogas durante anos. Quando descobrimos ficamos tentando achar explicações. Afinal, éramos uma família feliz e bem estruturada, com um casal de filhos sem problemas. Ela conta que o filho foi internado e saiu recuperado mas, três anos depois, teve uma recaída e voltou à clínica. Foi então que eu procurei o AE e comecei a pôr em prática os princípios apregoados pela movimento. Descobri que os filhos querem que a gente tome atitudes, imponha limites. Hoje ele está recuperado, casado e trabalhando; eu continuo no grupo ajudando outras famílias que estão passando por esse drama, diz ela.
Identificação Segundo a psicóloga Carla Pagnossim, que colabora com o Amor Exigente, a partir do uso de drogas pode-se saber um pouco do que a pessoa está fazendo com sua vida. Uns passam por experiências eventuais com drogas, outros ficam presos nisto, cada um com suas significações particulares e nenhum sem consequências por seus atos, por isso eu digo que se trata de um sintoma. Ela diz que é um problema aparente e perturbador que diz alguma coisa daquele usa e também daquele que se queixa. É neste momento que entram os pais, que chegam reclamando do filho, das drogas. Então, se estão afetados, uma implicação têm com o que dizem ao se queixarem. Carla Pagnossim observa que não se pode afirmar que os pais são causadores do problema, mas tornam-se responsáveis por fazer parte da história, já que se trata de um filho ao qual estão ligados. E principalmente porque a posição deste filho frente à droga está causando sofrimento a estes pais. É preciso escutá-los e (re)descobrir o que pedem.
Carla explica que o trabalho do Amor Exigente não envolve medicamentos, terapias e outros tratamentos psicológicos. Essas especialidades a gente indica. O que o AE faz é receber esses pais que vivem problemas parecidos. Assim, eles descobrem que não estão sós, se identificam com o grupo, acabam encontrando caminhos possíveis e, através deles, a solução para o drama que estão vivendo, diz a psicóloga.
Serviço:
Amor Exigente: Rua Piauí, 861, fundos, fone (43) 321-6040.Grupo de apoio a pais e filhos com problemas ajuda-os a encontrar novos caminhos através do Amor Exigente
Paulo WolfgangA psicóloga Carla Pagnossim observa que não se pode afirmar que os pais são causadores do problema, mas tornam-se responsáveis por fazer parte da história do filhoPaulo WolfgangNão fazemos atendimento com profissionais; todas as pessoas que trabalham com o Amor Exigente são voluntárias, explica a coordenadora Neide Furtado





