Uma coisa curiosa aconteceu nesta edição da São Paulo Fashion Week. Com exceção do último dia, que mostrou as coleções de moda praia, poucos momentos deixaram claro que se tratava de uma temporada de lançamentos de verão. Algo diferente estava no ar.
Alguns fatores contribuíram para essa impressão generalizada entre os profissionais e habitués do evento. O preto, opção da maioria dos estilistas, tornou austera a passarela que se espera sempre colorida, já que altas temperaturas e cores parecem ser quase sinônimos no Brasil. Mangas compridas e casacos também apareceram com frequência, acentuando a ‘‘seriedade’’ dos looks.
Outro sinal de que os ventos da moda mudaram era o corpo das modelos, bem mais magras que na última temporada de verão, quando as brasileiras eram a bola da vez nas passarelas mundiais. A onda belga chegou para valer, desbancando a exuberância tupiniquim e trazendo, em alguns desfiles, legítimas representantes da espécie, como Ann Katherine Lacroix, que fez Reinaldo Lourenço, Forum e Triton.
A ordem, então, foi se adequar aos novos tempos e dar adeus às curvas. Mariana Weickert e Isabeli Fontana seguiram a orientação à risca, embora muitas modelos não admitam – sabe-se lá porque – os quilos perdidos. De acordo com a londrinense Michele Alves (1.79m e 53 quilos), que veio de Nova Yorque especialmente para o desfile da Cia Marítima, não há uma determinação das agências nesse sentido. ‘‘Depende da consciência de cada menina’’, diz, afirmando que no Brasil a preocupação com o corpo é mais forte. ‘‘Lá fora, eles não ficam olhando celulite e nem exigem quadril 90’’, argumenta.
Para Isabela Fiorentino, o mercado realmente está buscando meninas mais magras e as modelos mais novas têm mais chances de atingir as medidas atuais. Um bom exemplo foi o desfile da Ellus, cujo casting era composto, em grande parte, por garotas com menos de 15 anos.
Sintomática também foi a escassez de celebridades nas primeiras filas dos desfiles, o que também contribuiu para tornar o dia-a-dia do prédio da Bienal um tanto quanto morno. Aos olhos de quem já estava habituado ao burburinho em torno dos famosos, causando tumulto na entrada das salas e atrasando os desfiles, o evento pode ter perdido um pouco o brilho. Mas para os que estavam ali para trabalhar, isso representou uma evolução e tanto (apesar de os atrasos continuarem acontecendo). O fato é que depois de cinco anos e onze temporadas consecutivas, o evento cresceu em profissionalismo. E a moda só tem a ganhar com isso.
* Confira na próxima edição a cobertura completa dos desfiles femininos.
** A jornalista Rosângela Vale viajou a convite da organização do São Paulo Fashion Week.

mockup