Novo procedimento pode estabilizar a esclerose
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quinta-feira, 01 de maio de 2003
Célia Guerra<br> Reportagem Local 
Uma pessoa enxergando dupla imagem ou que às vezes se sente cambaleando pela rua, não necessariamente está bêbada. Ela pode ser portadora de uma grave e incurável doença neurológica que, apesar de não matar, tira a capacidade produtiva de pessoas adultas. É a Esclerose Múltipla (EM), uma doença auto-imune do sistema nervoso central (cérebro e medula espinhal) em que a incapacidade progride lentamente, mas de forma imprevisível.
A doença, segundo os neurologistas Damácio Ramon Kaimen Maciel, coordenador do Serviço de Ambulatório de Doenças Desmielinizantes e Esclerose Múltipla do Hospital Universitário Regional do Norte do Paraná, que é centro de referência da enfermidade, e Doralina Brum, do serviço de neurologia da Faculdade de medicina de Ribeirão Preto (SP) e coordenadora do setor de neuroimunologia e de transplantes de células-tronco, é inflamatória e provoca a destruição da bainha de mielina, camada protetora que recobre e isola as fibras nervosas do cérebro, medula espinhal e nervo ótico. Essa bainha é responsável pela rapidez no envio de informações do cérebro para outras partes do organismo. Com o comprometimento da mielina, esses sinais são recebidos com atraso ou completamente bloqueados.
Além de alterações no equilíbrio e na coordenação motora, a esclerose, de acordo com os médicos, provoca vários outros problemas como fadiga intensa, perda da força muscular nos braços e pernas, visão borrada ou dupla, dificuldades no controle da urina e fezes. As causas da EM ainda são desconhecidas, mas acredita-se que a doença seja consequência de uma combinação de fatores, desde uma predisposição hereditária até influências ambientais.
Ela atinge mais mulheres do que homens, numa proporção de 3 por 1, e ocorre com frequências diferentes nas várias regiões do mundo. No Brasil, o índice é considerado baixo, cerca de 10 a 20 casos para cada 100 mil habitantes. A idade média do início da doença é 30 anos.
Ramon e Doralina explicam que, apesar da complicação ser neurológica, são as células T ou linfócitos T, produzidas pelo sistema sanguíneo para a defesa do organismo que, por razões ainda desconhecidas, começam a atacar seus próprios neurônios, num processo denominado auto-imune. A inflamação se percebe através dos sintomas em períodos determinados por ''surtos''. A neurologista diz ainda que a intensidade da inflamação é individual e os surtos podem durar várias semanas. ''A pessoa está sempre à espera do próximo surto'', observa a médica.
Doralina acrescenta que existem três principais formas clínicas da doença ou de manifestação dos surtos: a remitente-recorrente quando os sintomas vão e voltam, com reações inflamatórias em locais diferentes; a secundariamente progressiva começa também com surtos que evoluem para perdas graduais das funções físicas ao longo do tempo; e a primariamente progressiva não apresenta surtos e sim piora progressiva desde o início dos sintomas.
A identificação da doença, segundo Ramon, é feita através de uma rotina de exames neurológicos, ressonância magnética, análise do líquido da medula espinhal (cefalorraquidiano), e potencial evocado exame que mede a resposta do sistema nervoso central. ''A tecnologia ajuda muito, mas o exame mais importante é o clínico'' resume ele. ''A doença não tem cura'', sentencia Doralina. Atualmente, segundo a médica, há medicamentos os imunosupressores e interferons que diminuem a intensidade e a duração dos surtos e a perda da capacidade funcional.
Para os casos mais graves da doença, onde o paciente não apresenta respostas satisfatórias à medicação, ''há uma vela no fim do túnel'', observa a neurologista, referindo-se ao transplante de células-tronco (medula óssea). O procedimento já é utilizado há vários anos para os casos de leucemia, mas é novidade para doenças auto-imunes, tendo iniciado em 1997. Doralina explica que o transplante não representa a cura, mas estabiliza a progressão da doença. As células são retiradas da medula da própria pessoa. O tratamento dura cerca de 45 dias. Neste período, a pessoa corre sérios riscos de infecções e sangramentos, pois o corpo está sem as células de defesa e outros órgãos, como o rim, podem ficar sobrecarregados. Apesar dos riscos, Doralina diz que as chances de recuperação são grandes.
No Brasil foram realizados até agora quatro transplantes e estão sendo preparados outros pacientes. Os transplantados apresentaram índice de estabilização da doença de 70%. ''Não há melhora das sequelas. A proposta é impedir a evolução dos danos ao organismo'', observa Doralina. n


