Com a moda brasileira se ampliando além das fronteiras verde-amarelas, um calendário de lançamentos já estruturado e com perspectivas de crescimento (o que implica na necessidade de mais estilistas), faculdades de moda despejando todos os anos novos profissionais no mercado e consumidores ávidos por novidades no guarda-roupa, fica fácil entender a importância de um evento como o Amni Hot Spot, cuja segunda edição aconteceu semana passada, na Casa Rhodia, em São Paulo, para poucos convidados e no maior clima de maison.
O idealizador Paulo Borges faz questão de explicar que, mais do que um projeto, trata-se de um processo de estruturação da carreira dos nove estilistas selecionados. ‘‘Fazer desfile e falir na terceira coleção é muito fácil’’, diz, esclarecendo que o Hot Spot dá toda a assistência técnica e financeira necessária, desde o desenvolvimento da matéria-prima até a comercialização da coleção, durante três anos.
Ao contrário do que aconteceu na primeira edição, quando as coleções foram vendidas no Mercado Mundo Mix, dessa vez quem está responsável pela comercialização é a representante Preta Nascimento, que atende lojistas de todo o País em seu show-room. Convidados pelo evento, alguns desses lojistas estavam nas primeiras filas dos desfiles, ou seja, as peças vistas nas passarelas estarão em breve nas vitrines.
Trocando em miúdos, sem outras preocupações que não sejam relacionadas à coleção, os estilistas puderam dar asas à criatividade, devidamente assessorados por profissionais renomados, como Alexandre Herchcovitch, consultor de estilo da turma, e Celso Kamura, consultor de beleza. Com essa estrutura, a evolução no trabalho de cada um deles já é notável.
Da sofisticação de Wilson Ranieri e Walério Araújo ao estilo cibernético de Marcelo Bohrer, passando pela modernidade pautada pelo conforto de Fábia Bercsek e Emilene Galende, pela alfaiataria primorosa de Jefferson de Assis e pela poesia em forma de drapeados de Deoclys Bezerra, tem-se um panorama animador do que o futuro reserva à moda brasileira. Sem falar no orientalismo moderno da paranaense Érika Ikezili e na fúria criativa de Samuel Cirnansck, uma das principais apostas de Paulo Borges. ‘‘A roupa do Samuel vai nascer daqui a dois anos. Como aconteceu com o Alexandre Herchcovitch, com a Viviene Westwook e com o Gaultier’’, profetiza. Mais informações sobre o trabalho dos estilistas no site www.projetohotspot.com.br

A jornalista Rosângela Vale viajou a convite da organização do evento
‘‘O Amni Hot Spot quer despertar o desejo sobre o novo’’
Paulo Borges
‘‘Idéias de cabeças novas, que não estão viciadas em paradigmas e estereótipos’’
Alexandre Herchcovitch

Fábia Bercsek O desejo de feminilidade levou Fábia Bercsek a Shakespeare e à sua doce Julieta que, no inverno da estilista, passeia por mundos fantásticos da Idade Média. Batizada de ‘‘Voodoo Juliet’’, a coleção traz pinturas de castelos sombrios e ilustrações de rostos de mulher feitas pela própria Fábia. As silhuetas são arredondadas, com saias em A e franzidos formando pequenos volumes nas mangas e nos tornozelos. As calças vêm mais sequinhas. O veludo cotelê surge em detalhes ou na peça inteira, dividindo a cena com moletom, sarja, jérsei e com o tricô manual. Destaque também para os bordados em couro metalizado, com a utilização de aviamentos. Berinjela, azul e violeta são os principais tons. Mimos: as bolsinhas de veludo cotelê bordadas e com alças douradas cruzadas no corpo.Marcelo Bohrer Uma viagem submarina foi o que prometeu o gaúcho Marcelo Bohrer. No escuro, a primeira entrada dos modelos evidenciou os detalhes fosforescentes nas roupas – apliques plásticos, bolhas de gel e reflexivos – códigos de adornos noturnos futurísticos, segundo o estilista. Inspirado em seres inimagináveis batizados de criaturas abissais, o outono-inverno de Bohrer traz à tribo cibernética formas próximas ao corpo e marcadas por recortes em curva. Destaque para o trabalho no tricô, que ganha efeito escama. Lilás e preto são as maiores apostas.Deoclys Bezerra Com um tempero folk – extraído dos povos gregos, africanos, indianos e caucasianos – o cearense Deoclys Bezerra encheu de branco a passarela do Hot Spot. Em um ótimo exercício de modelagem, vê-se a influência do mestre Walter Rodrigues, de quem é assistente. Deocyls drapeou blusas e vestidos que vieram acompanhados de legging curta e amarrada nas laterais das pernas. Poesia pura. Cordas formam decotes arredondados e caem pela silhueta em alguns looks. Botas rasteiras de camurça bege ajudam a traduzir a leveza da coleção.Jefferson de Assis Celso Kamura utilizou um elemento inusitado para compor a imagem do outono-inverno de Jefferson de Assis: água escorrendo pelos cabelos, rosto e roupa das modelos, num ótimo efeito de passarela. Criando um jogo de proporções e volumes, o estilista desdobra a alfaiataria em interessantes invenções, como a gola fatiada em várias camadas e as gravatas utilizadas em sequência compondo quase um boá sobre a camisa branca. Hastes finas de metal diferenciam barras e golas. Feito de lascas de madeira entrelaçadas, o sapato lembra um trabalho de marcenaria.Érika Ikezili Representante do Paraná na turma do Hot Spot, Érika Ikezili nasceu em Cornélio Procópio e hoje vive em São Paulo. Formou-se em moda pela Santa Marcelina, foi assistente de Alexandre Herchcovitch e depois de sua primeira coleção, apresentada ano passado, abriu loja na badalada galeria Ouro Fino. Para o outono-inverno, a inspiração veio dos robôs transformers da ficção científica japonesa. As formas são justas e assimétricas, com destaque para os godês geométricos e bicudos. As camisetas ganham sobreposição de mangas de matelassê e os botões pontuam toda a coleção. Malhas, moletom e jeans são os principais materiais. Como acessório, escaravelhos de acrílico translúcido.Emilene Galende Meninas com glitter e laçarotes de plástico nos cabelos encarnaram a Chapeuzinho Vermelho de Emilene Galende. A interpretação da capa com capuz da personagem foi o ponto de partida para o outono-inverno da estilista, cuja especialidade é o trabalho com tricô, construído dessa vez com fios plásticos. As formas do agasalho se desdobram e a legging ganha brilho tipo lurex e efeito estonado na versão sarja. Destaque para a delicada estampa de cílios que surge no tecido plano e para a brincadeira com os punhos das mangas, que se transformam em bolsos. Multiplicado na saia de tricô, o efeito é inusitado e bem interessante.Wilson Ranieri Impecável o trabalho de moulage de Wilson Ranieri, que aposta no comprimento mídi (na altura do tornozelo) e numa cartela de cores delicada e suave, com tons de rosa, marfim, cinza e bordô. Despretensiosamente chique. As formas cortadas em jabô, com godês assimétricos, marcam a coleção. Destaque para a amarração lateral no redingote e na calça, num efeito pra lá de sofisticado, para as blusas com tranças e para a camisa-pelerine.Walério Araújo Utilizando o universo sacro das igrejas para criar as estampas – arabescos verdes em fundo marrom, coração de Jesus, vitrais salpicados de cristais – e as formas de seu outono-inverno – pelerines bispais com ares de sobretudo – o estilista autodidata Walério Araújo revela uma ótima alfaiataria e um bom faro para fazer roupas femininas sofisticadas. Imagens típicas da nobreza povoam toda a coleção: patchworks em losangos remetem ao estilo pierrô, e a saia tem bolsos com rosto do bobo da corte. Botões dourados surgem nas botas de cano alto e a legging ganha detalhes vazados trançados. Linda a saia longa em matelassê de tule.

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