O brasileiro está se casando menos, separando-se mais e, com o aumento dessa tendência, surge um novo tipo de família, na qual as mulheres comandam sozinhas seus lares, profissões e a educação dos filhos. Nessa nova estrutura familiar, são justamente elas e as crianças que mais sofrem.
O novo perfil da família brasileira traz uma situação preocupante. O pai afasta-se tanto de seu antigo lar que, além de ex-marido, torna-se ex-pai. A professora do Instituto Paulista de Psiquiatria e Psicoterapia da Infância e do Adolescente, Marluce de Souza Pedro, chama esse novo tipo de organização familiar de lar pós-moderno.
Tudo começou no final dos anos 70, quando a aprovação da Lei do Divórcio possibilitou a separação judicial. Para a psiquiatra, isso bastou para que a família fosse fragilizada. ‘‘A sociedade deu a autorização para que as pessoas se separassem. Nossos avós não tiveram essa opção’’, lembra. Hoje, os pais passaram a deixar seus antigos lares, constituírem novas famílias, terem outros filhos e acabaram abandonando as crianças do primeiro casamento. Começaram a surgir os ex-pais.
‘‘Também é comum as crianças do primeiro casamento ficarem com um monte de meio-irmãos. E estes acabam sendo mais importantes para os pais, que permanecem presentes apenas na vida dos novos filhos. Isso cria uma grande confusão na cabeça das crianças, que acabam desenvolvendo um sentimento de rejeição’’, explica Marluce.
O ensaísta e autor do livro ‘‘Idéia do Brasil – A Arquitetura Imperfeita’’, Gilberto de Mello Kujawski, sustenta que a fragilização dos lares decorre da exarcebação do individualismo. Porém, o crescimento das separações que vivemos atualmente surge do esgotamento do modelo patriarcal.
‘‘O pai sempre deteve todo o poder dentro da família’’, explica Kujawski. ‘‘Esse modelo nada mais tem a ver com o nosso tempo. Hoje, tanto a criança quanto a mulher detêm o mesmo poder que o homem dentro do lar’’. Para ele, enquanto um novo modelo não surge, a família viverá em um hiato, que origina o crescimento das separações.
Outro fator destacado por Kujawski como desagregador das famílias é o crescimento do espaço da mulher no mercado de trabalho. Mas não pela possibilidade de novos relacionamentos que a saída dos lares proporcionou às mulheres. ‘‘O machismo brasileiro ainda não permite que uma mulher ocupe um espaço semelhante ou maior que o seu dentro da sociedade. Isso provoca o conflito e, como consequência, a separação’’, afirma Kujawski.
Ficha Técnica
Foto: Paulo Wolfgang
Produção: Rosângela Vale
Modelos: Elisângela Durães, Robison Ranieri e Isabela Martins Rodrigues
Cabelo: Dorilde/Maristela e Moçambique Cabeleireiros
Agradecimento: Stúdio Carmen Kley e Studio CDI
Separação afeta
mais as crianças
Enquanto os pais brigam e acabam por se separar, são as crianças que vivem o lado mais traumático da dissolução de um lar. ‘‘Após a separação, a criança vive a sensação de abandono. Passa-se a ter hora marcada para se ver o pai, que, antes, estava o tempo todo presente’’, diz a psiquiatra Marluce. Esse período pode, no entanto, ser passageiro. ‘‘Trata-se apenas de uma fase de adaptação se a criança receber afeto. Mas, sem isso, ela acaba sofrendo danos à sua auto-estima, que podem se manifestar em distúrbios na escolaridade’’.
Os traumas decorrentes do abandono na infância podem levar a criança a ter dificuldades de relacionamento pelo restante da vida. ‘‘Em família, aprende-se a sentir emoções e a se comunicar. É daí que se partirá para uma rede social mais ampla’’. Gilberto Kujawski também defende que uma família desagregada gera sentimentos anti-sociais na criança, o que pode transformá-la em uma pessoa violenta. (M.P)
Queda no poder
aquisitivo
gera traumas
A dissolução dos lares pode trazer muitas consequências particularmente traumatizantes na infância, como a mudança de classe social. ‘‘A criança sempre fica com a mãe que, geralmente, ganha menos que o pai. Um lar que vivia de duas rendas, passa, muitas vezes, a sobreviver com meia. É uma fase terrível’’, diz Marluce.
Porém, ao mesmo tempo em que são vítimas dos problemas financeiros decorrentes da separação, as crianças, por meio das pensões alimentícias, passam a ser, em muitos casos, responsáveis pelas mães. Principalmente quando as mulheres as usam para forçar os maridos a pôr dinheiro em seus antigos lares. Isso, segundo Marluce, leva a criança a uma resistência a crescer.
‘‘A criança sente-se responsável pela mãe. Ela fica intermediando a entrada de dinheiro em casa. E como essas pensões acabam quando a criança completa 21 anos, elas criam uma recusa em crescer’’, diz a psiquiatra. Segundo Marluce, esse comportamento leva a criança, de fato, a um retardo do crescimento e a um quadro depressivo. (M.P)
A mulher sofre mais que o homem
Nas separações, as mulheres quase sempre sofrem mais do que os homens. Marluce conta que, para a mulher, é sempre mais difícil iniciar um novo relacionamento após o fim do matrimônio. Em parte, isso pode ser atribuído às crianças, que geralmente ficam com as mães. ‘‘As crianças dificilmente aceitam os novos namorados dos pais. E a mulher, por conviver com elas, é quem mais sente essa resistência’’, observa a psiquiatra.
Ganhando menos, arcando com a criação dos filhos, a manutenção do lar e cuidando da vida profissional, muitas mulheres acabam por não suportar o aumento de responsabilidades que a separação acarreta. Marluce atribui a isso o crescimento dos casos de stress, problemas cardíacos e doenças psicossomáticas como a gastrite, entre as mulheres.
‘‘É uma sobrecarga muito grande, que compromete tanto a saúde física quanto a mental’’. Com dificuldades para iniciar um novo relacionamento após o fim do matrimônio, as mulheres acabam sendo vitimadas pela carência afetiva que, segundo Marluce, pode levá-las ao álcool e às drogas. (M.P)
Homens têm dificuldades
de formar novas relações
A psiquiatra Marluce atribui o afastamento das novas gerações de ex-maridos à dificuldade em se formar novos laços sem afrouxar os antigos. Porém, nem sempre esses novos laços são satisfatórios e duradouros. ‘‘Muitos homens acabam passando por uma grande solidão após os relacionamentos. Isso pode acarretar problemas psiquiátricos sérios, como o medo de morrer durante a noite’’, diz.
A separação também pode levar o homem à busca do que não viveu durante o matrimônio. Seria a chamada ‘‘idade do lobo’’. ‘‘O homem procura ter várias companheiras ao mesmo tempo. Ou uma só que seja mais jovem do que ele’’, define Marluce. Porém, segundo ela, essas fases duram pouco. Cai-se na solidão. ‘‘Os homens separados têm uma sobrevida muito menor que os casados’’, afirma. (M.P)
Cresce número de divórcios
Em dezembro passado, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgou uma pesquisa mostrando que, entre 1991 e 1998, houve um crescimento de 32,5% no número de divórcios. No mesmo período, o número de casamentos caiu de 5,1% para 4,3%. Em 1994, ocorreram 763 mil casamentos. Quatro anos depois, esse número caiu para 699 mil.
Ao mesmo tempo, segundo o Censo 2000, o número de famílias chefiadas por mulheres chegou a 11,2 milhões – de um total de 44,7 milhões. Entre 1991 e o ano passado, o porcentual de responsáveis pelo domicílio do sexo feminino passou de 18,1% para 24,9%. (M.P)

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