Nosso porto seguro
Celso Mattos
Uma mulher recém-divorciada e mãe de dois filhos vê seu mundo desmoronar quando descobre que está sendo consumida por um câncer. Sua grande preocupação é quem vai educar seus filhos para a vida. É então que ela vê na atual namorada do ex-marido a única pessoa capaz de dar continuidade à família que seus filhos tanto precisam. Ela aproveita seus últimos meses de vida e, como toda mãe, abre mão de seus ressentimentos para aproximar os filhos da futura madastra, criando assim um novo núcleo familiar. Essa é a história do filme Lado a Lado, com Susan Sarandon e Julia Roberts.
Dirigido por Chris Columbus, Lado a Lado não é apenas um filme sobre separação de casais, mas sobre a importância da preservação da família. Essa família que foi tão combatida nos anos 60 e 70, volta a ser apontada como a única instituição afetiva que o planeta conhece. Para o psicoterapeuta Ivan Capelatto, a família é o porto seguro que nos dá asas e raízes, o lugar onde crescemos e para onde sempre podemos voltar. É a nossa referência no mundo, afirma. Apesar de viver em Campinas, Capelatto dá aulas em várias universidades, é autor de livros e artigos, além de proferir palestras por todo o Brasil.
Recentemente, ele esteve em Londrina a convite da ONG Vir a Ser e da Associação Brasileira de Psicopedagogia-Seção Paraná para falar sobre A Família na Sociedade Atual. Para ilustrar o perigo que a ausência afetiva da família causa em seus membros, Capelatto lembra que no Brasil ocorrem cerca de 30 suicídios por dia de jovens entre 16 e 17 anos. Os motivos são os mais banais possíveis, como uma briguinha com o namorado. É uma demonstração de que nossos jovens não sabem lidar com a frustração porque não foram preparados para isso, afirma.
Sociedade anestesiada Um país que tem uma Febem, é um país que não sabe ouvir seus adolescentes. Vivemos em uma sociedade anestesiada na qual a agressão não é maldade, mas um pedido de socorro. Não existe adolescente maldoso, existe adolescente angustiado, diz o psicoterapeuta. Ele critica afirmando que, atualmente, as instituições sociais não têm tido mais a função de acolher a angústia de seus membros, o que faz com que essa angústia se volte contra o sujeito, tornando-o agressivo e sem condições de gratidão e solidariedade para com o próximo. Tudo isso gera doenças psicossociais graves, como o abuso sexual, a inveja, o uso narcísico do poder e do dinheiro e muitas outras psicopatias, exemplifica.
Estamos vivendo em uma sociedade adulterada de amor e afetividade, que são sentimentos que nos diferenciam dos animais. Capelatto defende que a família é o único caminho para reverter esse quadro desastroso. Afetividade não vem da natureza, ela precisa ser transmitida de pai para filho. Uma sociedade sem afeto estimula a perda gradativa da identidade. Por isso, vemos jovens queimando índio, tentando suicídio e buscando na bebida e nas drogas uma resposta para a falta de amor.
Para Ivan Capelatto, a família é o lugar onde temos nossas maiores sensações de alegria, felicidade, prazer e amor. É também o lugar onde experimentamos tristezas, brigas e ódios. É na família que aprendemos a complicada linguagem da vida. A família é o lugar de brigar e o lugar de aprender a reconhecer o erro. O lugar de falar e o lugar de aprender a ouvir. O lugar de estar e aprender a voar. Onde existe afetividade, existe conflito; onde não existe conflito reina a indiferença. Sendo a única instituição afetiva que existe, e vivendo sem regras claras, a família sempre corre o risco de trazer para dentro de casa a mais rica e gostosa das relações, assim como pode trazer a relação mais triste e agressiva, pois é uma instituição puramente afetiva, define o psicoterapeuta.
Conflito é amor Para ilustrar sua visão de família, Capelatto diz que quando o filho chega tarde da noite em casa e os pais ficam bravos, ele reage dizendo que os pais são chatos, que ficam pegando no pé dele. Mas no fundo, esse jovem sabe que os pais estão agindo assim porque o amam. Esse conflito significa amor e isso é fundamental para o jovem. Agora, imaginem uma situação inversa. Os pais nem percebem a que horas o filho chegou em casa. A isso eu chamo de indiferença, a pior de todas as reações. Amar significa brigar, impor limites, afirma.
O psicoterapeuta cita uma frase de Gabriel Garcia Marques: Os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães dão à luz, mas sim quando a vida os obriga outra vez e muitas outras vezes a parirem por si mesmos. Para Capelatto é papel da família preparar seus filhos para renascer após cada queda, cada frustração. Sempre que posso faço questão de lembrar aos pais que um filho é para a vida do toda, o que equivale dizer que sempre precisamos estar a postos para escutar um pedido, uma angústia, ou mesmo para colocar limites.
A família é o nosso lugar. Ela é responsável por todos os nossos sucessos e fracassos. A família pode ser de extrema importância e suficiência para uma pessoa se realizar da forma mais profunda, como pode também ser um foco destrutivo e mórbido para a vida. É no seio da relação com os pais que uma criança nasce, cresce, vê o mundo e aprende a ser ela mesma. Por isso, eu digo e repito uma frase bastante conhecida, mas pouco lembrada: a família é a base da sociedade, afirma Ivan Capelatto.O psicoterapeuta Ivan Capelatto defende que a família é o único caminho para uma sociedade mais afetiva e humana
ReproduçãoUma sociedade sem afeto estimula a perda gradativa da identidadeArquivo FolhaA afetividade não vem da natureza, ela precisa ser transmitida de pai para filho, afirma o psicoterapeuta Ivan Capelatto





