No meio do caminho...
Até bem pouco tempo atrás, a garotada de 9, 10 anos só pensava nos brinquedos e nas brincadeiras típicas de criança. Era boneca de um lado, comidinhas de fantasia de outro. Mas as coisas mudaram, e como. Bastam alguns minutos de conversa com a turminha para descobrir que o clima está diferente. As Barbies foram deixadas de lado e com elas também as brincadeiras de casinha.
A coordenadora de 1ª a 4ª série do Colégio Delta, Rita Azevedo, tem experiência de oito anos com esta faixa etária e sabe bem como é. A 4ª série é uma fase de transição, um ritual de passagem, explica Rita. Nesta fase, eles são os donos do pedaço porque são os maiores. Quando chegam à 5ª série percebem que são os menores.
Para as amigas Cíntia Spagnolo Gomes, 10 anos, Isabela Mayumi Nakanishi, 9, Fernanda Lopes Garcia Maldonado, 10, a lucidez em relação ao momento que vivem é quase adulta. A gente não é mais criança, mas também não é adolescente, dizem as três, que completam: Estamos no meio do caminho.
A fase, chamada de pré-adolescência, é encarada pelas amigas naturalmente. Quando você é mais nova é mais bobinha, mas vai aprendendo com a vida, filosofa Isabela, que assim como as amigas não vê a hora de passar para a 5ª série. O que vai ser diferente é que vamos ter novas matérias e mais responsabilidades, explicam as garotas, que se dizem prontas para a nova fase. Até agora, se a gente não fizesse uma tarefa, o professor entendia, mas no ano que vem não vai ser assim, prevê Isabela.
Para as garotas, a grande conquista é poder saírem sozinhas, geralmente ao shopping. Para Cintia, a descoberta do gostinho de liberdade aconteceu no final da 3ª série, quando passeou pelo Catuaí sem os pais por perto. Um adulto leva a gente e vai buscar, mas lá ficamos sozinhas, lembra Fernanda, que diz ficar mais à vontade para falar com as amigas. A gente não pede mais brinquedos, prefere CDs e roupas.
Em geral, as garotas não fazem compras sozinhas. Levamos R$ 10,00 para o lanche e o cinema, contam. Mas para comprar roupas, a gente escolhe antes e depois pede para os pais, explicam as amigas, que reclamam que em algumas lojas ainda são tratadas como crianças. Também não existem lojas para a nossa idade, enfatiza Isabela, que assim como as amigas tem dificuldades em encontrar roupas adequadas.
Mas no quesito fashion, as meninas estão em dia com as tendências. A calça corsário, por exemplo, é a campeã do guarda-roupa e até se transformou em uniforme. Elas até vieram me pedir para trocar o figurino de uma apresentação, que seria com calça comprida, para a corsário, lembra a coordenadora Rita Azevedo, que atendeu ao pedido. Além da calça mais curta, acompanhada de sandálias, Fernanda conta que o que está na moda para elas é a roupa com cara de praia, bem verão, diz.
De sombra prata nos olhos e presilhas coloridas no cabelo, Fernanda explica que puxou a avó, que vai ao cabeleireiro todos os dias. Já Cintia e Isabela ainda não são adeptas da maquiagem, mas se dizem vaidosas. A gente gosta de usar tiara, presilha e vai ser vaidosa pra sempre, garantem as amigas.
Às portas de uma nova fase, as garotas já fazem planos para o futuro profissional. Isabela quer ser dentista, Fernanda se imagina como cantora e modelo e Cintia, que quando era menor pensava em ser professora e ter uma mansão, hoje fala em ser arquiteta. Como se o vestibular estivesse aí. A gente tem muitos sonhos porque tem muitas coisas para construir, dispara Isabela.
Enquanto isso, elas vão ouvindo Backstreet Boys, All Saints, Banda Eva, É o Tchan, grupos musicais, segundo elas, mais adequados. A gente já não ouve mais Xuxa e Eliana, garante Cintia, que faz a divisão das coisas para criança. Mas se o gosto musical é igual ao das adolescentes, o trio sabe que ainda não está perto da adolescência. Isso vai acontecer quando tivermos ainda mais responsabilidade, diz Isabela. Já para Fernanda, a adolescência vai chegar quando estiver namorando, que ela garante que está longe de acontecer. Mas talvez esse seja um dos assuntos secretos que elas adoram cochichar nos ouvidos.César AugustoAs amigas Isabela, Cintia e Fernanda: passeios pelo shopping e conquista de liberdade e responsabilidadeKarla Matida





