No compasso da dança de salão
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sexta-feira, 24 de novembro de 2006
Karla Matida<br>Reportagem Local 
Assim como a Holanda exportou para o mundo inteiro o programa de reality show Big Brother, há algum tempo foi a vez da Itália ganhar o planeta com a idéia de colocar celebridades para dançar. No Brasil, o Domingão do Faustão adotou a idéia que logo se transformou em sucesso de público. ''Dança dos Famosos'' repetiu a boa audiência da criação italiana. Nos Estados Unidos de Lost, Grey's Anatomy e CSI, onde a briga pelo telespectador é algo sério, ''Dançando com as Estrelas'' é o programa mais visto nas últimas semanas.
Além dos famosos, passos coreografados e muito bem ensaiados, figurino impecável e o glamour de outrora são os principais chamarizes da atração televisiva. E tanta audiência acabou chamando a atenção para a dança de salão em si. ''É bom e é ruim'', explica o professor Rodrigo Rocha, do SR Studio de Dança. ''O modismo é bom porque as pessoas passam a conhecer a dança de salão, mas quem só vem pelo modismo não é interessante'', explica Rocha. ''Para ele, são necessários ''pelo menos seis meses para a dança infiltrar no corpo'', avisa.
Discípulo do método Jaime Arôxa, Rocha conta que não adianta ser uma máquina de fazer passos. ''Primeiro a pessoa sente a música e depois vai buscar seu par'', ensina. O professor, que tem uma média de 250 alunos em sua escola, costuma se referir aos pares da dança como as damas e o cavalheiros. Inspirado pelo clima retrô da dança de salão, Rocha acredita no poder da dança para aumentar o respeito entre as pessoas. Para ele, as aulas costumam transformar os alunos. ''Chega uma pessoa e surge outra depois'', conta o professor, para quem a dança ajuda a afastar a timidez.
Há 27 anos dançando, Luiz Carlos ''Mumu'' é uma das referências da cidade com sua escola Espaço Latino. Ex-alunos seus se tornaram professores e hoje estão espalhados em oito países. Aos 11 anos aprendeu com o pai os primeiros passos e nunca mais parou. Até por isso, ele não se assusta com a pouca idade de muitos de seus alunos. Apesar de ainda se associar a dança de salão com pessoas mais velhas, os jovens têm aumentado os pares nas salas de aula.
''De uns três anos pra cá, aumentou muito a participação dos jovens. Hoje eles já são 50%'', garante o professor carioca Paulo Soares. Da escola do coreógrafo e dançarino Jaime Arôxa, Soares esteve esta semana na cidade como professor convidado. O Rio de Janeiro ainda é referência nacional na dança de salão, que o professor chama de ''a arte de dançar a dois''.
Para o professor Mumu, o grande diferencial de Londrina é o surgimento de um ritmo próprio, o Bugio Pé-Vermelho. ''É uma mistura do jeito quadrado paulista com o rasqueado do Mato Grosso e dos CTGs (Centros de Tradição Gaúcha) da região. ''É uma adaptação que aconteceu nos últimos 20 anos'', conta.
De acordo com estimativas do próprio professor, Londrina tem hoje cerca de 10 mil adeptos. O número é resultado de uma soma de público das casas noturnas da cidade. Para os jovens, o sertanejo e o forró são as maiores atrações. Segundo os professores de dança e mesmo os alunos, são os ritmos mais fáceis de se aprender. ''Em um mês já dá para aprender'', garante Mumu.
Para Rodrigo Rocha, o curso de dança de salão - que além do forró, tem samba, soltinho e bolero - dura cerca de um ano. ''São quatro níveis: iniciante (1, 2 e 3), intermediário (1, 2 e 3), avançado e superavançado'', conta. ''Mas existem muitas outras opções'', explica o professor, que veste uma camiseta exaltando o zouk, um ritmo animado que ganha cada vez mais adeptos na cidade.
''O zouk é a lambada com nova roupagem'', explica Mumu. Aliás, segundo o professor, foi a lambada que aproximou o jovem da dança lá pelo final dos anos 1980, no auge do ritmo. Outra onda pode trazer os jovens ainda mais perto dos salões. ''Em 2008, a dança de salão estará nas Olimpíadas de Pequim'', lembra o professor.
Para ele, se as medalhas fossem distribuídas hoje, o Japão certamente teria a de ouro, depois os ingleses, seguidos dos alemães. ''Nas competições, não podem acontecer improvisações como é comum na América Latina'', explica. O professor também avisa que na terra do sol nascente e na Europa, a preparação dos competidores começa muito cedo. ''Existem muitos campeonatos para jovens de 14 a 22 anos'', conta.
Mesmo sem estar entre os melhores - por enquanto, segundo Mumu -, o Brasil tem criatividade e sensualidade únicas no mundo. Uma olhada no público dos bailes e já dá para perceber que a dança de salão tem muito futuro por conta dos jovens pares. ''Muitos alunos mais novos costumam fazer as próprias festinhas para dançar'', explica Mumu.


