A proposta é tentadora para as mulheres que se atormentam com aquelas gordurinhas indesejáveis. Nada de lipoaspiração nem cirurgia plástica. Uma simples injeção e pronto: adeus pneus e culotes. Com essa fama de eficaz, o Lipostabil (marca do laboratório italiano Rhone-Poulenc Aven), feito a partir de um fosfolipídio extraído da soja (a fosfatidilcolina), vem conquistando uma legião de adeptas desde que começou a ser utilizado para fins estéticos, há cerca de três anos.
Desenvolvido na década de 50 para tratar doenças cardiovasculares causadas pelo acúmulo de placas de gordura nas artérias, o medicamento é uma verdadeira febre nos consultórios médicos nos meses que antecedem a temporada na praia. ''Metade das pacientes que atendo nessa época faz aplicações de Lipostabil. O resultado é tão bom que cada uma traz mais três'', observa a dermatologista Rosa Calland. De acordo com ela, se a pessoa mantiver uma rotina de atividade física, a queima de gordura se acelera e o resultado é ainda melhor.
A empresária Denise Balaroti, 41 anos, é uma das que resolveram se submeter ao tratamento depois de ver as mudanças no corpo de uma colega de academia que fez as aplicações. ''Ficou todo modelado'', lembra. Denise conversou ainda com alguns médicos, que só elogiaram o produto. ''Apesar de fazer um controle alimentar e malhar todos os dias, algumas gorduras não saem, são mais resistentes'', argumenta.
A empresária fez três aplicações do medicamento na cintura, para eliminar os insistentes pneuzinhos, com intervalos de 15 dias entre as sessões. Com mais uma sessão, deve terminar o tratamento. ''Minhas roupas estão mais largas'', observa ela, que sentiu uma dor suportável na primeira semana, teve pouco inchaço e alguns edemas, sofrimento mínimo diante da extrema felicidade de fazer as pazes com o espelho. ''Ficou fantástico'', comemora.
Polêmica O uso em larga escala do Lipostabil, entretanto, vem causando polêmica entre os médicos. Os que são contra a sua indicação têm um bom argumento: o produto ainda não foi aprovado pelo FDA (Food and Drugs Administration), órgão de controle de medicamentos nos Estados Unidos. Além disso, não existem pesquisas que descrevam os efeitos das injeções a médio e longo prazo. ''É uma novidade para o uso cosmético e, portanto, não há estudo científico controlado sobre suas possíveis contra-indicações. Isso significa acompanhar, por alguns anos, um grupo de pessoas submetidas ao tratamento para verificar os resultados. Na estética, acontece o inverso. O produto é lançado, ganha destaque na mídia, vira uma febre e, depois de um tempo é que vai se constatar os resultados'', critica o dermatologista Airton dos Santos Gon.
Ele baseia sua opinião no parecer do último Congresso de Dermatologia, realizado em Porto Alegre, no qual a comissão científica concluiu que ''o uso da fosfatidilcolina em dermatologia estética é recente e carece de fundamentação científica que permita referendar oficialmente a sua indicação''. Airton alerta ainda que o uso do produto para retirar bolsas de gordura nas pálpebras é perigoso. ''Pode afetar toda a vascularização e há o risco de causar cegueira'', afirma.
Outra questão ainda não respondida cientificamente diz respeito à via de eliminação da gordura dissolvida pelo Lipostabil. A teoria mais difundida é a de que ela sairia do organismo por meio da urina e das fezes. Mas há estudos em andamento sobre os riscos de o medicamento causar, a médio e a longo prazo, problemas renais, hepáticos e cardiovasculares. A Folha da Sexta consultou médicos especialistas nessas áreas, mas nenhum deles quis falar sobre o assunto, alegando falta de conhecimento.
A dermatologista Rosa Calland defende o uso do produto citando vários estudos publicados em revistas médicas, sobre a eficácia do Lipostabil na melhora da arteriosclerose, na diminuição dos níveis de colesterol e na diminuição dos riscos de fibrose e cirrose hepática. ''Antes de ser usado subcutaneamente, era aplicado na veia. É, portanto, um medicamento inócuo'', acredita.
As complicações, segundo ela, podem acontecer em decorrência da técnica utilizada, já que existe um uso indiscriminado da droga por profissionais fora da área médica, fazendo apologia a uma nova medicação para emagrecer. Pura propaganda enganosa, já que a substância tem uma indicação bem específica: gordura localizada na cintura, barriga, queixo, culotes, axilas e pálpebras. ''Seleciono os pacientes; não faço em quem quer perder peso'', informa Rosa, que também controla a quantidade. ''Não uso mais de duas ampolas de cada vez''.
O número de aplicações depende da análise de cada caso. Geralmente, são feitas de duas a três sessões para eliminar pneus. Já nos culotes o tratamento é mais demorado. ''Nunca faço uma concentração muito grande; aplico de forma mais espalhada para que o resultado fique mais suave e uniforme'', diz Rosa. A média, nesse caso, é de cinco a seis aplicações. Em Londrina, cada sessão (uma ampola) custa de R$ 50,00 a R$ 60,00.
Lipo light De acordo com o cirurgião vascular e angiologista João Augusto Bille, o Lipostabil é eficaz porque aumenta a atividade das enzimas, fazendo com que a gordura saia da periferia e vá para o fígado, onde é metabolizada. Ele explica que, se a pessoa tiver um balanço negativo de gordura no organismo, não há o risco de acúmulo no sangue e, por consequuência, de doenças cardiovasculares. ''Por isso, o medicamento não é indicado para pessoas obesas e, sim, para as que têm uma dieta equilibrada e uma rotina de atividade física'', ressalta.
O médico garante que o medicamento reduz bastante as medidas em gorduras localizadas de até 10 centímetros. ''Esse é o parâmetro preconizado pela Sociedade Brasileira de Medicina Estética, que também orienta a aplicar o produto dentro da gordura, ao contrário da mesoterapia, cujas aplicações são mais superficiais'', esclarece.
Sobre a não aprovação pelo FDA, Bille argumenta: ''É órgão de controle máximo dos medicamentos nos Estados Unidos, mas não no resto do mundo. Muita droga usada na Europa não é aprovada pelo FDA, como o Restylane, amplamente utilizado para preenchimentos'', aponta. Segundo o angiologista, trabalhos científicos sobre o produto já estão em andamento na Faculdade de Medicina Souza Marques e devem ser apresentados no próximo Congresso de Medicina Estética.
Mesmo com toda a eficácia da droga, os médicos alertam para o erro de considerá-lo uma ''lipo light''. ''O Lipostabil jamais veio para substituir a lipoaspiração, mas para tratar pequenos volumes de gordura localizada'', frisa Bille. Além disso, os resultados estéticos dos dois procedimentos são bem diferentes. ''A lipo faz a pele se acomodar na região aspirada, porque, para cicatrizar, há a produção de colágeno. Com o Lipostabil, se existe flacidez, ela vai continuar. Na lipoaspiração, são retiradas células gordurosas, portanto, as chances de a gordura voltar são menores'', pondera Rosa Calland. n

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