Os cangurus, mamíferos marsupiais australianos que mantém o filhote protegido na bolsa mesmo um ano após o nascimento, emprestam seu nome às pesquisas e reflexões psicológicas acerca de famílias que mantém o "ninho cheio" com o passar dos anos. São clãs cujos filhos adultos, mesmo independentes financeiramente, permanecem na "bolsa", residindo com os pais.
Segundo a psicóloga Mariana Figueiredo, autora do livro "Geração Canguru", ao contrário dos jovens de outros tempos, que eram muito cobrados para saírem de casa cedo para morar sozinhos ou constituir família, os filhos dessa geração estão sendo mais protegidos e cuidados pelos pais. Diferentemente do que poderia pensar o senso comum, para os progenitores, no geral, os filhos adultos que ainda moram em casa recebem apoio e são vistos com admiração.
Conforme a psicóloga, que escreveu o livro com base na própria experiência de "filha canguru", a grande maioria das pessoas que tardam a sair de casa se encontra na faixa dos 25 aos 35 anos. Mas também há uma parcela de 15% da população com quase 40 anos que ainda permanece residindo com os pais. Após a pesquisa, Mariana concluiu que "esses filhos cangurus são em grande parte adultos solteiros, pertencentes principalmente às camadas médias e altas da população, em fase de transição ou consolidação para a vida adulta". Ela acrescenta que a maioria possui educação formal concluída, até mesmo com pós-graduação, mestrados ou outros títulos.
Apesar de trabalharem, a psicóloga ressalta que a "independência financeira" desses filhos só pode ser considerada até "certo nível". "Isso tendo em vista que os orçamentos deles parecem estar mais comprometidos com seus gastos pessoais, voltados para o consumo, viagens, cursos, restaurantes, lazer e até poupanças. Esse alto padrão de vida, possibilitado pelo conforto usufruído no lar parental, onde possuem casa, comida e roupa lavada, acaba influenciando a permanência dos cangurus no ninho", explica.
Os pais dessa geração, no entanto, não parecem estar angustiados ou preocupados. "Em nenhuma das famílias pesquisadas apareceu qualquer indício de um relacionamento problemático e nem foi classificado como ruim por nenhum dos pais ou mães o fato do filho, mesmo adulto e com condições para sair, ainda permanecer residindo em casa."
Um dos motivos seria a rotina dos filhos adultos, muito atarefada e diferente do restante da família, o que diminui o contato diário com os pais e pode reduzir conflitos. "Além disso, não apareceu nas famílias pesquisadas uma preocupação significativa dos pais com o tempo da saída de casa dos filhos. De forma geral, parecem encarar como uma realidade que deve acontecer naturalmente, mesmo que, em comparação com as gerações passadas, esteja ocorrendo tardiamente", diz.
É como se o filho fosse quase tratado como um troféu. "É uma vitória da família, dada a valorização da vida profissional dos filhos. Sendo assim, ele não representa um peso. Pelo contrário, os pais parecem encarar a estadia do filho como uma ‘fase’, até eles decidirem que é o momento certo de sair, e sentem-se felizes em poder ajudar de alguma forma", afirma Mariana.
A psicóloga alerta, porém, que os pais devem tomar cuidado para não continuarem tratando os filhos como adolescentes, pois isso "dificulta o amadurecimento da relação pais e filhos", além de causar uma falta de autonomia emocional.

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