Ninguém segura essas mulheres
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quinta-feira, 04 de março de 2004
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
O século 20 foi marcado por grandes mudanças no sistema de trabalho e nos direitos civis, principalmente para as mulheres. Já nos primeiros anos, devido ao surgimento da indústria e da produção em série, elas invadiram as fábricas e substituíram os homens, ocupados com revoluções e guerras que marcaram as décadas de 10, 20 e 30. Logo depois, veio o direito ao voto e a participação nas decisões políticas.
De lá para cá, elas não pararam mais. Se tornaram presença constante e necessária na indústria, comércio e até para as revoluções e guerras elas vão. Mas algumas áreas de atuação pareciam ainda inatingíveis até 20 anos atrás. Foi quando as mulheres resolveram se preparar para competir em todas as áreas. Nas universidades, por exemplo, o número de mulheres nas salas de aula já é bem maior do que o de homens. Do total de alunos da Universidade Estadual de Londrina (UEL), 6.498 são homens e 7.163 são mulheres. Na Universidade do Norte do Paraná (Unopar), existem 5.841 mulheres inscritas nos cursos de graduação para 5.174 homens. No Centro Universitário Filadélfia (Unifil), a diferença é ainda maior: 63% dos alunos são mulheres.
Destaque E não é só nos cursos superiores que elas aparecem mais. Estudos mostram que meninas que terminam o ensino fundamental saem das escolas com mais cursos extras no currículo do que os rapazes, além de apresentarem um índice mais baixo de reprovações. Até em áreas reconhecidamente masculinas, como o direito e a medicina, as mulheres estão se aprimorando e conquistando espaço. Na Escola de Magistratura de Londrina, frequentada basicamente por homens há alguns anos, atualmente existem 41 mulheres para 36 homens. E o número de juízas, promotoras e advogadas vêm aumentando a cada ano. Na justiça do trabalho, do total de nove juízes, seis são mulheres.
De acordo com o coordenador do curso de direito da Unopar e da Escola da Magistratura, Ariovaldo Stroppa Garcia, na época de sua formatura, em 1970, já havia mulheres no curso, mas em número reduzido. ''Esse aumento é resultado da independência da mulher. Ela está buscando seu espaço e se esforçando para ser reconhecida'', argumenta. O resultado da dedicação feminina pode ser visto também no desempenho dos homens. Garcia acredita que os alunos, geralmente mais relapsos com relação às tarefas e atenção às aulas, se dedicam mais graças à presença das mulheres em sala. ''Elas são mais organizadas, anotam tudo no caderno e são menos rebeldes. Tanto na escola quanto no trabalho, acho que a concorrência é salutar porque faz os homens se empenharem mais'', diz.
Vantagem Para a promotora Solange Novaes da Silva Vicentin, a grande vantagem das mulheres na carreira jurídica é o senso de justiça. ''Mesmo em casa, com os filhos, quem dá o castigo e julga os erros são as mães. Acho que as mulheres são mais exigentes por causa disso. Quando acuso uma pessoa, procuro tratá-la de forma respeitosa e acredito que a pena seja como um castigo: algo que faça a pessoa ver que errou e tentar melhorar'', afirma. Ela diz que, algumas vezes, essa dureza acaba por preocupar os homens, que são mais maleáveis. ''Antes havia um certo preconceito em relação às mulheres porque os homens achavam que a gente dava muito trabalho e era muito briguenta. Hoje isso acabou porque o número de mulheres na profissão é bastante grande'', garante.
E esse comportamento das mulheres, tão correto e dedicado, acontece, segundo a professora de direito e advogada Cíntia Laia dos Reis e Silva, devido à história feminina. ''Para participar do mercado, a mulher teve que mostrar trabalho e se destacar dos homens. Isso acabou ficando como parte da personalidade da maioria das mulheres, que é mais rigorosa no seu trabalho'', revela. Mas, pelo menos na área de direito, a época em que as mulheres eram vistas de forma diferente já passou. A afirmação é da própria Cíntia, que garante nunca ter sido discriminada na profissão. ''Eu já vi um homem ser tratado diferente por uma juíza, mas eu nunca sofri preconceito nem por parte dos colegas nem das pessoas comuns''.
Medicina Já para aquelas que decidem se dedicar à carreira médica, as agruras são maiores. O médico residente em cardiologia e presidente dos residentes no Hospital Universitário, Fuad Salle Neto, garante que o preconceito existe tanto por parte dos colegas de trabalho quanto dos pacientes. ''Alguns pacientes cantam as médicas e fazem brincadeiras de mau gosto. Já muitos médicos acham que as mulheres são inseguras e sem iniciativa'', observa. Na residência médica, elas ainda perdem para eles, apenas 57 mulheres para 170 homens, mas as alunas no curso de medicina já são maioria há alguns anos. Dentre os aprovados no último concurso vestibular realizado pela UEL estão 42 homens e 54 mulheres.
Segundo Fuad, o número chega a preocupar alguns médicos, que têm medo de perder mercado. ''As mulheres têm mais paciência, percepção e senso de compromisso, além de tratar melhor as pessoas. Além disso, tem a questão da classe médica não ser unida. Mesmo entre homens existe um certo distanciamento e competição'', comenta. Para ele, a concorrência, seja de homens ou mulheres, é sempre boa. ''Quanto maior a diversidade de pessoas, melhor a qualidade do serviço oferecido'', diz. O surgimento de áreas mais femininas talvez seja o responsável pelo aumento de alunas nos cursos de medicina. ''As mulheres acabam optando por áreas do interesse delas, como dermatologia. Muitas evitam áreas que geram uma tomada de tempo maior, como cardiologia e cirurgia'', acrescenta.
Mas existem as exceções. Juliana Braun é a única aluna do primeiro ano de residência em ortopedia e diz que escolheu essa especialização porque sempre gostou da área de cirurgia. Para ela, o preconceito por parte dos colegas não existe. ''Percebo que eles até ajudam mais por eu ser mulher. Quem acha estranho são os pacientes, que ficam surpresos quando vêem uma médica chegando para atender'', diz. A idéia que se tinha de que mulheres não seriam boas ortopedistas, devido à força necessária para a profissão, não é verdadeira, segundo Juliana. ''Isso hoje é uma lenda. Tudo ficou mais fácil com a tecnologia. Às vezes é preciso fazer força, mas nada que uma mulher não consiga'', garante.
Dificuldade Com relação à dificuldade de ser médica e se dedicar à família, Juliana, que é solteira, acha que é possível conciliar as duas coisas. ''Pretendo casar, ter filhos e continuar trabalhando. Meu namorado também faz medicina e entende a falta de tempo. Acredito que não terei problemas com isso'', diz. Driblar a falta de tempo e conciliar atividades já fazem parte da rotina da futura ortopedista. ''Nas semanas em que estou de plantão trabalho das sete da manhã às sete da noite. Aí não dá tempo para nada. Coisas como cabeleireiro, depilação e passeios ficam para as semanas em que estou na enfermaria, que é mais tranquila. Dá tempo para fazer tudo'', admite.
Muito mais do que competir com os homens e mostrar capacidade, as mulheres que buscam postos em áreas masculinas, ou em qualquer outra, querem a satisfação pessoal. ''Faço o que gosto e estou muito feliz com a carreira que escolhi'', diz Juliana. ''Sempre tive vontade de ajudar os outros e, como promotora, sinto que estou fazendo isso. Posso trazer dignidade às pessoas que sofrem alguma injustiça e isso me realiza. Mas ainda acho que há muita coisa a fazer. E por mais difícil que seja o caminho, temos que acreditar em nós e seguir em frente'', completa Solange Vicentin.n


