A diferença de idade, e as diversas visões de mundo acarretadas por ela, costuma ser apontada como uma das causas do famoso conflito de gerações, motivo determinante dos desentendimentos entre pai e filho, sobretudo na adolescência. Ao contrário do que se pode deduzir, entretanto, a diminuição dessa diferença não acarreta, necessariamente, a diminuição dos conflitos. Até porque a competição, comum nessa relação, acaba ficando ainda mais acirrada.
  O supervisor comercial Rolando José Piazzalunga, 44 anos, foi pai aos 23 e acha que a relação com o filho Guilherme, 21, é mais parecida com a de irmãos. ‘‘Jogamos squash juntos e muita gente acha que somos amigos, e não pai e filho. Temos também os mesmos gostos musicais e algumas de nossas brigas são por causa dos meus discos, camisas e tênis que ele pega emprestado’’, conta Rolando.
  Mas as idades relativamente próximas acabam acarretando outros conflitos. ‘‘Ele é um ótimo jogador de squash, melhor que eu até por causa da parte física, mas joga de forma diferente comigo, não bate bola, quer matar todas e sempre ganhar’’, conta o pai. Administrar a divergência de idéias também é complicado. ‘‘Acho que, pelo fato de termos idades bem próximas, um fica querendo mudar o comportamento do outro. A gente quer que os filhos sejam iguais à gente justamente por não sermos tão mais velhos e vivermos a mesma realidade’’, observa Rolando, que considera a filha, Mariana, 19 anos, mais parecida com ele. ‘‘É mais fácil chegar a um consenso com ela do que com o Guilherme’’, diz.
  Para Guilherme, por mais que as idades sejam próximas, o conflito acontece porque os papéis são diferentes. ‘‘Ele pensa como pai e eu, como filho. Isso não tem a ver com idade. Pai é pai’’, afirma. Mas, na sua vez de desempenhar esse papel, ele garante que mudará a natureza das coisas. ‘‘Vou entender que meu filho é diferente de mim’’, promete.
Aborrescência A convivência diária, diriam alguns, é um agravante da situação. Mas não é bem assim. O relacionamento, em muitos momentos, não é fácil nem mesmo para pais e filhos que não dividem o mesmo teto.
  O produtor teatral e empresário Ben-Hur Prado, 42 anos, não foi pai tão cedo, mas várias circunstâncias contribuíram para que os conflitos se instalassem. Na época com 28 anos, ele era solteiro, não tinha namorada e viajava pelo Brasil com uma peça de sucesso. ‘‘Conheci uma moça em Porto Alegre, foi um caso de uma noite só’’, lembra. O filho Luciano, hoje com 14 anos, ficou morando com a mãe no sul e o relacionamento pai e filho, embora esporádico, era bom. Até que ela morreu e iniciou-se uma batalha judicial pela guarda do garoto, então com 7 anos, que queria permanecer com os avós maternos e a justiça assim decidiu. ‘‘Isso causou um abalo na nossa relação’’, conta.
  Quando as coisas pareciam melhorar entre eles, veio, como define Ben-Hur, a ‘‘tragédia dois’’, a avó morreu. ‘‘E, para complicar, entra a questão da adolescência (ou aborrescência), que dificulta as coisas. A gente está atravessando uma crise em função de fatos sérios da vida’’, analisa, observando que a semelhança entre os dois, tanto física como de personalidade, tem um lado divertido, embora não facilite a relação. ‘‘Somos tão parecidos que é como se eu me relacionasse comigo mais novo’’.
  Hoje, casado e com dois filhos – Bruno, 7 anos, e a recém-nascida Camila – Ben-Hur tem uma visão mais clara da paternidade. ‘‘Me sinto mais competente e sereno nessa função. O grau de responsabilidade, aos 28 anos, era de: ‘tenho um filho’. Agora, aos 42, é: ‘tenho uma família’’’. O maior desafio, para ele, é evitar cometer os mesmos erros que os seus pais cometeram. ‘‘Quero fazer que meus filhos sejam pessoas melhores do que eu. Criá-los para o mundo’’, define.
  A diferença de idade é seu maior receio com relação à filha Camila. ‘‘Quando ela tiver 20 anos, terei 62, já estarei na terceira idade. Isso me assusta, mas sei que as limitações serão apenas físicas. Todo mundo diz que agora conhecerei as delícias de ser pai de uma menina, que é mais carinhosa, mas o afeto sempre esteve presente nas relações com meu pai e meus filhos homens’’, diz, observando que outras formas de demonstrar afeto também são importantes. ‘‘O adolescente, por exemplo, precisa de um pai amigo’’, afirma.
Reaproximação O gerente comercial Rodrigo Machado Marques, 43 anos, está vivendo um momento especial como pai: a reaproximação do filho Eric, 17 anos, de quem ficou afastado por três anos por causa do final do casamento. ‘‘Me tornei pai sem ter condições financeiras e psicológicas. Tinha 23 anos, estudava e me vi diante de duas opções: seguir o meu caminho ou assumir a paternidade. Escolhi a última pensando principalmente no meu filho’’, conta.
  Rodrigo lembra que o relacionamento deles, na época, foi complicado porque misturou aquele compromisso declarado de agir como pai e a formação de sua vida profissional e social que, muitas vezes, acabava pesando mais. ‘‘A relação com Eric ficava para as poucas horas em que eu estava em casa e eram divididas ainda com o restante da família. Então, num universo de 100%, nosso contato acabou restrito a 30%’’, contabiliza.

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