Nem brucutu nem metrossexual
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quinta-feira, 10 de agosto de 2006
Fernanda Aranda<br> Folhapress 
Se mesmo após intermináveis horas no cabeleireiro, um banho de loja e aquela maquiagem divina, nada é capaz de provocar um único comentário do seu namorado ou marido, calma. Que tal pensar pelo lado positivo? Provavelmente, este mesmo ''desatento'' te dá a maior força na carreira profissional e até topa lavar a louça depois do almoço de domingo, certo? Então, há esperança. Devagar, o sexo masculino está conseguindo entender um pouco mais sobre o universo cor-de-rosa.
Este avanço foi constatado pela pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas, a 100 quilômetros de São Paulo, Flailda Brito Garboggini. ''Na última década, as mulheres lutaram e conseguiram espaço no mercado de trabalho, na vida pessoal e na política. Os homens também passaram por transformações, principalmente para se adequar ao novo tipo de companheira que surgiu. Eles já não são tão machistas, mas ainda não entendem por completo o sexo feminino'', explica Flailda.
O problema é que, mesmo ''evoluído'', o novo homem parece ter sido esquecido pela mídia. No estudo ''O Homem na Publicidade nos Últimos Dez Anos'', a pesquisadora mostra que, nas propagandas e em programas de TV, o universo masculino aparece sempre dividido entre exemplares que estacionaram no tempo e insistem no estilo ''brucutu'' como o fortão Alexandre Frota e os que passam cremes, fazem as unhas e sabem a diferença entre estria e celulite, como o jogador de futebol inglês David Beckham, símbolo máximo dos metrossexuais.
Segundo Flailda, hoje, a maioria dos homens não se concentra em nenhum dos dois extremos, e sim no meio deles. Um bom representante da ''espécie'' foi o delegado Gilberto, interpretado pelo ator Marcos Palmeira na novela Belíssima, da Globo. Nem alto nem baixo, nem lindo nem feio, nem machão nem metrossexual, ele é exemplo de ''normalidade''. Apesar da profissão dura, não poupava carinhos para a mocinha Vitória (Cláudia Abreu).
Mesmo em maior quantidade, o ''homem meio-termo'' justamente aquele que não repara na sua roupa, mas te dá flores nunca é alvo de campanhas de cerveja ou de carros. ''A sensação é de que a roupa velha não serve mais e a nova ainda não ficou pronta'', diz a pesquisadora.
Foi pensando em retratar o homem normal esquecido pela mídia que os jornalistas André Rodrigues e Tiago Oliveira criaram o site Macho pero no Mucho (www.machoperonomucho.com.br). ''Percebemos que o tipo meio-termo não era contemplado. O site foi como um grito dos excluídos'', conta Tiago.
Na página, há artigos sobre sexo, futebol e rock, mas também sobre desilusões amorosas, medos e problemas afetivos. Até a forma como os jornalistas assinam suas opiniões é uma forma de protesto. André adota o ''Careca'' e Tiago, o ''Gordo''. ''Sou contra a ditadura da beleza. Me recuso a depilar as costas e a malhar. Nem por isso sou um troglodita'', esbraveja Tiago. André define o macho atual como uma mistura, sem rótulos. ''Hoje, posso assistir ao jogo com os amigos. Amanhã, se eu tomar um fora, não tenho problema em chorar.''
www.machoperonomucho.com.br
O site Macho pero no Mucho está no ar há cerca de seis meses e já teve mais de 150 mil acessos. A maioria dos leitores, pode acreditar, é formada por homens que buscam nos textos um aconchego para a sua normalidade. Mas, segundo André Rodrigues, um dos criadores da página, os principais freqüentadores do endereço eletrônico são as mulheres. Isso significa que o sexo feminino também não concorda com o macho imposto pela mídia. As mulheres vieram ao nosso socorro para mostrar que a imprensa está errada, afirma Careca.
A vendedora Juliana Vasconcelos, de 22 anos, concorda com a tese do site. Gosto muito do novo tipo de homem que surgiu, atencioso e que respeita a inteligência da mulher. Mas também não quero alguém do meu lado que se preocupa mais com o espelho do que comigo. Nem desejo um marido que me impeça de trabalhar, analisa.(F.A.)


