Não tenha vergonha
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quinta-feira, 14 de outubro de 2004
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
Criar os filhos é uma tarefa que exige muita dedicação, paciência, investimento financeiro e jogo de cintura. Isso porque as crianças têm um dom incrível de colocar os adultos em situações constrangedoras. Quem é que, na presença de um pimpolho, não se viu ruborizado com perguntas, atitudes e afirmações que deixam a gente sem saber como agir? Quando o assunto é sexo, então, tanto pais como educadores ficam perdidos.
Para o psicanalista clínico Ailton Bastos o maior erro dos pais é adiar esse tipo de conversa para uma única ocasião. ''A idéia de que vai chegar um dia para falar sobre sexo é falsa. Muitos pais esperam os filhos entrarem na adolescência para ter uma longa conversa e explicar tudo. Mas não é assim que as coisas funcionam'', garante.
Falar sempre Como o assunto é delicado, sem uma preparação antecipada que abra caminho e crie confiança e intimidade entre pais e filhos, a tal conversa dificilmente terá os resultados esperados. Para o especialista, o ideal é ser franco e aberto com as crianças sempre. ''A identidade sexual se cria desde cedo, quando os filhos ainda são pequenos. Falar sobre sexo sempre que houver necessidade e responder às perguntas feitas sobre o assunto de forma clara e sem mentiras é a melhor maneira de encarar a situação'', ensina.
Mas porque tantos pais acham difícil abordar esse tema com os filhos? Segundo Bastos, a própria vida sexual dos adultos é a responsável pela timidez. ''Muitos pais não têm sua sexualidade resolvida e não falam de sexo nem entre si. Quando precisam falar algo para os filhos, eles começam a observar sua própria vida e se incomodam com isso'', diz. Dessa forma, tudo o que os adultos fazem é explicar questões como gravidez e doenças sexualmente transmissíveis. ''Os pais imaginam que sexualidade é só o ato sexual e suas consequências. Esquecem de tratar áreas como desejo, orgasmo e prazer, quando é isso o que realmente importa. A parte biológica do sexo as crianças aprendem geralmente na escola'', afirma.
Perguntas E quando se fala de crianças pequenas, alguns cuidados são importantes antes de começar a falar. O psicanalista diz que as perguntas devem ser respondidas de acordo com a capacidade de compreensão de cada idade. ''Ouvi uma história de um garoto de cerca de oito anos que perguntou à mãe o que era transar. Depois de explicar, bastante envergonhada, o significado erótico da palavra, o menino disse que um amigo havia dito que seu tênis era transado e ele não tinha entendido. Antes de responder qualquer pergunta é importante que os pais façam uma sondagem para saber o que os filhos já sabem e o que eles realmente estão perguntando'', explica.
O que não pode acontecer é a repressão com relação ao assunto, às perguntas e aos atos. ''Atitudes como tocar o próprio corpo e o corpo do outro são naturais e saudáveis, desde que não sejam abusivas. O que os pais devem ensinar é o que é um toque permitido ou não, para evitar casos de pedofilia'', ensina o psicanalista. Incentivar o namoro e o erotismo dos pequenos também é um erro comum dos adultos. ''A sexualidade nas crianças não deve ser incentivada, nem com ações nem com produtos, como usar roupas de gente grande e se preocupar com a aparência. Criança deve agir como criança'', lembra.
Já com filhos adolescentes o problema é a resistência que eles impõem ao diálogo. A menos que as conversas existam desde cedo, falar sobre sexo e relacionamento é algo que os jovens não fazem com os pais. Mas é possível mudar essa atitude. Aílton diz que sempre é tempo de se aproximar dos filhos e abrir um canal de conversa com eles. ''Se os pais nunca tiveram muito diálogo, não dá para querer chegar um dia já falando sobre namoro e sexo. O ideal é começar falando sobre qualquer assunto trivial. Isso ajuda a criar intimidade e a quebrar a barreira natural. Outra atitude válida é contar vivências próprias, mostrar sua sexualidade, sempre com certos limites de privacidade, para tratar o assunto de forma natural'', comenta. n


