Para as crianças, a passagem da quarta para a quinta série do ensino fundamental nem sempre é enfrentada com a mesma naturalidade das etapas anteriores. Falta de atenção, concentração e até mesmo motivação aparecem como os sinais mais comuns. Encarar novas responsabilidades, novas formas de estudo, exige um preparo para o qual nem sempre a criança está preparada.
Nesse período as mudanças são acentuadas, pois a criança deixa de ter uma ``tia`` que conhecia seus problemas e até adivinhava pensamentos para ter um professor para cada matéria e uma rígida programação de disciplinas com horários pré-determinados.
Segundo especialistas, neste momento de transição, alguns alunos ``escolhem não crescer``. Nos meninos, os efeitos dessa escolha são mais acentuados. Eles entram em uma fase de abstração, tornando-se mais distraídos e mergulhados em pensamentos que os levam para bem longe de onde estão. Ou como se diz na linguagem popular: viajam no tempo e no espaço. Isso ocorre porque crescer implica em assumir responsabilidades e o preço da maturidade sai caro para alguns.
Cobranças Os ``pequenos grandes homens`` precisam do auxílio de todos família e escola para solucionar ou minimizar esses problemas. Segundo a psicóloga Celi Lovato, do Colégio Maxi, é fundamental que os pais e professores estejam atentos para perceber essa fase de transição, e as dificuldades acarretadas por ela. ``Há mudanças que são inerentes ao seu biorritmo (cada pessoa possui um ritmo, uma velocidade própria de evolução) ou não``. As manifestações na criança, segundo a psicóloga, podem ocorrer como uma forma de acomodação para que a sociedade não cobre dela as responsabilidades da nova fase de vida.
Celi alerta que alguns pais, desconhecendo a fase de abstração, cometem o erro de ``violentar`` o biorritmo do filho, exigindo dele mais do que ele pode produzir. Para o menino, a fase de transição da quarta para a quinta série é mais difícil que para a menina. Segundo a psicóloga, iss acontece porque as transformações orgânicas da puberdade são mais acentuadas e ela, naturalmente, se sente mais adulta, encarando a 5 série com mais naturalidade. Além disso, o desenvolvimento físico dela é superior ao do menino. ``Ela já está com aspecto de moça, enquanto ele ainda tem o corpo franzino``, observa.
Bagunça O renomado psiquiatra Içami Tiba, psicoterapeuta de jovens e famílias, afirma que as meninas atravessaram um estágio mais adiantado, sentem-se ``importantes`` e acabam se dando bem com as mudanças na escola. Já os meninos de 11 anos podem ter problemas no desenvolvimento, como a falta de atenção, memória e concentração que os levam à desorganização das matérias e falta de método para estudar. ``Por não conseguir prestar atenção na aula ele `cutuca` os amigos, partindo para a bagunça``, explica.
Celi Lovato destaca que não se deve pensar que a puberdade é apenas sofrida. A passagem da infância para a puberdade, explica, permite rever atos e ações e procurar corrigir o que não está bem. ``Se a família e a escola reforçarem as características positivas, ressaltar valores, acompanhá-los nas descobertas, o aluno poderá atravessar essa fase com mais suavidade, mostrando que o crescimento pode ser feliz``.
Outras decisões O rito de passagem, as escolhas, as novas responsabilidades, entretanto, não ocorrem apenas para os pequenos. Para a psicóloga, a passagem da oitava série para o primeiro ano do ensino médio e a conclusão do ensino médio também apresentam situações semelhantes aos adolescentes. São fases até de decisões mais profundas, e de grande responsabilidade: ``Passos importantes para a vida, pois eles entram no período de reflexão sobre o seu plano de vida e o que querem escolher como profissão.
Como ocorre na metade do ensino fundamental, os professores do ensino médio, explica Celi, também precisam estar cientes do que o aluno viverá em breve para auxiliá-los neste novo período de mudança. ``Os professores da primeira série devem se preparar para receber bem este aluno, reconhecendo o período de passagem e tratando os alunos com a sensibilidade que a série exige``, orienta.
Já para os alunos que concluem o ensino médio, a psicóloga volta a lembrar da necessidade de preparo, da atenção da escola. ``Não basta prepararmos o aluno para o vestibular. Devemos prepará-lo para a nova vida que se inicia no aspecto psicológico``.
Esta fase traz outro motivo de insegurança: a distância dos amigos. É inevitável, segundo Celi, que as escolhas sejam diferentes e que, até mesmo os melhores amigos, optem por faculdades e cursos distintos. Isso os leva a vivenciar algumas perdas inevitáveis. A psicóloga lembra que ``lidar com as perdas é algo universal e constante. Elas nos ensinam a alcançar a maturidade e o equilíbrio psicológico``. n

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