O ano definitivamente começou e a correria do dia-a-dia já pontua os primeiros sinais de estresse no humor. Os compromissos e o cinza-concreto não colaboram e, longe do mato, da areia e do mar, fica difícil manter a paz de espírito. Nesse cotidiano de cidade grande, repleto de obrigações, pequenas doses de atos simples podem ajudar, e muito.
Em primeiro lugar, encontre tempo (determine dez minutos diários que sejam) para não fazer nada que se relacione a compromissos, ao ‘‘ter que’’. Esse tempo é só seu. Como você vai gastá-lo é uma simples questão de escolha, que deve levar em conta, preferencialmente, a percepção do corpo e o aguçamento dos sentidos – tudo para fazer sozinho.
Se você não é especialista em encontrar os meridianos – pontos pelos quais a energia transita – do seu corpo, não se preocupe. Deixe de lado técnicas requintadas e comece pelo começo: respiração. Ao acordar, esteja deitado, sentado ou em pé (como ficar mais à vontade), inspire e solte o ar num sopro. Essa expiração libera e relaxa os músculos das costas.
Depois, em pé, levante os braços, puxe o ar e coloque-se gradativamente nas pontas dos pés. ‘‘É o movimento de abertura’’, explica Beatriz Havyllar, 31 anos, terapeuta corporal. ‘‘Mexer os braços, abri-los, levantá-los, ajuda a abrir-se. São movimentos de expressão para o mundo.’’
Beatriz, que ministra cursos de massagem energética, shantala e reflexologia dos pés e das mãos em São Paulo e Rio de Janeiro, diz que a maior queixa de seus alunos está relacionada a dores nas costas. ‘‘Há uma tensão muito grande na região cervical. Hoje, parece que as pessoas estão carregando um peso muito grande nas costas.’’ E, para quem tem o costume de pendurar-se a uma porta para alongar-se, a terapeuta avisa: ‘‘Se a pessoa tem algum problema na coluna, como escoliose, pode ser prejudicial’’.
Pés Se a questão é relaxamento, lembre-se da parte do corpo que sofre mais pressão: os pés. Esmagados sistematicamente durante todo o dia, eles devem receber uma atenção especial na hora do relax. Os benefícios se estenderão para o corpo inteiro.
Massageie-os com calma, do calcanhar aos dedos – um de cada vez, da base à ponta. Detenha-se mais demoradamente ao meio da sola, na altura do peito do pé. ‘‘Essa região corresponde à boca do estômago’’, ensina Beatriz. Portanto, vale massageá-la bem (suavemente, lembre-se) para mandar o estresse e a angústia embora. ‘‘É muito relaxante e ajuda a liberar a energia acumulada ali.’’
Para quem não passa muito tempo em casa e sabe que não pega bem tirar os sapatos no escritório, a dica é a boa e velha massagem circular nas têmporas, que a terapeuta aconselha incrementar com a movimentação circular do pescoço, atenção à respiração e, se possível, uma música suave de fundo. E, ao chegar em casa, não se esqueça: termine pelo final. Faça os mesmos exercícios da manhã. Eles o ajudaram a ter um bom dia e provavelmente o ajudarão também a ter uma boa noite.
Uma arte Publicado no ano passado em Portugal e há dois nos Estados Unidos (ainda sem edição no Brasil), o livro ‘‘A Arte de Não Fazer Nada’’ ‘‘The Art of Doing Nothing’’ (A arte de não fazer de não fazer nada), Sinais de Fogo Publicações – www.sinaisdefogo.pt, dá uma bela aula sobre como gastar tempo consigo mesmo. Ou como ‘‘não fazer nada – e fazê-lo bem’’. Escrito por Véronique Vienne (redatora da revista ‘‘House & Garden’’ e colaboradora da ‘‘Harper’s Bazaar’’, ‘‘Town & Country’’, ‘‘InStyle’’ e ‘‘Mirabella’’), é uma ode à ociosidade, meditação e aguçamento dos sentidos. Nada disso à toa, ou com a intenção de impelir o leitor ao mais oco ‘‘papo para o ar’’. Procrastinar, por exemplo, é uma arte.
‘‘Em vez de pagar as contas, por exemplo, você decide ir arrumar a gaveta de meias. Em vez de arranjar a porta da garagem, você dá banho ao novo cachorrinho (...) Talvez procrastinar seja a maneira de a natureza arrumar confusões e limpar os cantos sujos’’, reflete a autora, que considera absolutamente inapropriado adiar a procrastinação para o sábado e o domingo. ‘‘Fazendo-o, colocamos pressão no fim de semana. Procrastinar os horários cria uma outra forma de obrigação’’, adverte.
Para iniciar-se nessa arte, Véronique sugere que se comece pela casa, aprendendo a vaguear entre quatro paredes, antes de se aventurar porta afora. Ela aconselha escolher inicialmente um projeto inocente, como ler o que lhe parecer interessante nas revistas da pilha ao lado da cama. E sinta-se à vontade para interromper e olhar pela janela, bater almofadas ou escovar os dentes. ‘‘Permita-se abandonar qualquer atividade pelo meio.’’
Armadilha A arte de não fazer nada, no entanto, está a anos-luz de resumir-se a fazer o que der na telha – por vezes, a telha abriga uma armadilha, avisa a autora. A idéia de ter telefonemas a dar, textos e cartas a escrever e dinheiro a ganhar vão provavelmente assombrá-lo, prevê. Para essa situação, ela ensina: ‘‘Enterre os calcanhares. Tire vantagem do efeito antiderrapante dos tênis (que você estará usando) para resistir à tentação de se despachar, virar-se e correr’’.
Não, fazer nada realmente não é tão fácil quanto aparenta. Reprimir impulsos produtivos pode resultar em tanto exercício como persegui-los. Véronique contabiliza que uma hora de procrastinação é equivalente a uma hora de ginástica. ‘‘Exercitar-se contra a inflexível pressão da sua auto-culpabilidade pode queimar uma data de calorias.’’ Duvida? Pois faça o teste. Em casa, fique ao lado de uma pilha de correspondências por abrir – e decida não fazê-lo. ‘‘Talvez contenha o cheque de reembolso de que estava à espera ou o terrível cancelamento da sua assinatura da TV a cabo’’, provoca a escritora.
Sinta a tensão no corpo durante a hesitação. Não desista. Enquanto aguenta firme, ensina Véronique, pense que não abrir a correspondência equivale a praticar luta livre com uma das forças gravitacionais mais poderosas da natureza – a puritana ética do trabalho.

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