Não perca tempo: faça NADA
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 17 de maio de 2001
Mary Persia Agência Estado 
O ano definitivamente começou e a correria do dia-a-dia já pontua os primeiros sinais de estresse no humor. Os compromissos e o cinza-concreto não colaboram e, longe do mato, da areia e do mar, fica difícil manter a paz de espírito. Nesse cotidiano de cidade grande, repleto de obrigações, pequenas doses de atos simples podem ajudar, e muito.
Em primeiro lugar, encontre tempo (determine dez minutos diários que sejam) para não fazer nada que se relacione a compromissos, ao ter que. Esse tempo é só seu. Como você vai gastá-lo é uma simples questão de escolha, que deve levar em conta, preferencialmente, a percepção do corpo e o aguçamento dos sentidos tudo para fazer sozinho.
Se você não é especialista em encontrar os meridianos pontos pelos quais a energia transita do seu corpo, não se preocupe. Deixe de lado técnicas requintadas e comece pelo começo: respiração. Ao acordar, esteja deitado, sentado ou em pé (como ficar mais à vontade), inspire e solte o ar num sopro. Essa expiração libera e relaxa os músculos das costas.
Depois, em pé, levante os braços, puxe o ar e coloque-se gradativamente nas pontas dos pés. É o movimento de abertura, explica Beatriz Havyllar, 31 anos, terapeuta corporal. Mexer os braços, abri-los, levantá-los, ajuda a abrir-se. São movimentos de expressão para o mundo.
Beatriz, que ministra cursos de massagem energética, shantala e reflexologia dos pés e das mãos em São Paulo e Rio de Janeiro, diz que a maior queixa de seus alunos está relacionada a dores nas costas. Há uma tensão muito grande na região cervical. Hoje, parece que as pessoas estão carregando um peso muito grande nas costas. E, para quem tem o costume de pendurar-se a uma porta para alongar-se, a terapeuta avisa: Se a pessoa tem algum problema na coluna, como escoliose, pode ser prejudicial.
Pés Se a questão é relaxamento, lembre-se da parte do corpo que sofre mais pressão: os pés. Esmagados sistematicamente durante todo o dia, eles devem receber uma atenção especial na hora do relax. Os benefícios se estenderão para o corpo inteiro.
Massageie-os com calma, do calcanhar aos dedos um de cada vez, da base à ponta. Detenha-se mais demoradamente ao meio da sola, na altura do peito do pé. Essa região corresponde à boca do estômago, ensina Beatriz. Portanto, vale massageá-la bem (suavemente, lembre-se) para mandar o estresse e a angústia embora. É muito relaxante e ajuda a liberar a energia acumulada ali.
Para quem não passa muito tempo em casa e sabe que não pega bem tirar os sapatos no escritório, a dica é a boa e velha massagem circular nas têmporas, que a terapeuta aconselha incrementar com a movimentação circular do pescoço, atenção à respiração e, se possível, uma música suave de fundo. E, ao chegar em casa, não se esqueça: termine pelo final. Faça os mesmos exercícios da manhã. Eles o ajudaram a ter um bom dia e provavelmente o ajudarão também a ter uma boa noite.
Uma arte Publicado no ano passado em Portugal e há dois nos Estados Unidos (ainda sem edição no Brasil), o livro A Arte de Não Fazer Nada The Art of Doing Nothing (A arte de não fazer de não fazer nada), Sinais de Fogo Publicações www.sinaisdefogo.pt, dá uma bela aula sobre como gastar tempo consigo mesmo. Ou como não fazer nada e fazê-lo bem. Escrito por Véronique Vienne (redatora da revista House & Garden e colaboradora da Harpers Bazaar, Town & Country, InStyle e Mirabella), é uma ode à ociosidade, meditação e aguçamento dos sentidos. Nada disso à toa, ou com a intenção de impelir o leitor ao mais oco papo para o ar. Procrastinar, por exemplo, é uma arte.
Em vez de pagar as contas, por exemplo, você decide ir arrumar a gaveta de meias. Em vez de arranjar a porta da garagem, você dá banho ao novo cachorrinho (...) Talvez procrastinar seja a maneira de a natureza arrumar confusões e limpar os cantos sujos, reflete a autora, que considera absolutamente inapropriado adiar a procrastinação para o sábado e o domingo. Fazendo-o, colocamos pressão no fim de semana. Procrastinar os horários cria uma outra forma de obrigação, adverte.
Para iniciar-se nessa arte, Véronique sugere que se comece pela casa, aprendendo a vaguear entre quatro paredes, antes de se aventurar porta afora. Ela aconselha escolher inicialmente um projeto inocente, como ler o que lhe parecer interessante nas revistas da pilha ao lado da cama. E sinta-se à vontade para interromper e olhar pela janela, bater almofadas ou escovar os dentes. Permita-se abandonar qualquer atividade pelo meio.
Armadilha A arte de não fazer nada, no entanto, está a anos-luz de resumir-se a fazer o que der na telha por vezes, a telha abriga uma armadilha, avisa a autora. A idéia de ter telefonemas a dar, textos e cartas a escrever e dinheiro a ganhar vão provavelmente assombrá-lo, prevê. Para essa situação, ela ensina: Enterre os calcanhares. Tire vantagem do efeito antiderrapante dos tênis (que você estará usando) para resistir à tentação de se despachar, virar-se e correr.
Não, fazer nada realmente não é tão fácil quanto aparenta. Reprimir impulsos produtivos pode resultar em tanto exercício como persegui-los. Véronique contabiliza que uma hora de procrastinação é equivalente a uma hora de ginástica. Exercitar-se contra a inflexível pressão da sua auto-culpabilidade pode queimar uma data de calorias. Duvida? Pois faça o teste. Em casa, fique ao lado de uma pilha de correspondências por abrir e decida não fazê-lo. Talvez contenha o cheque de reembolso de que estava à espera ou o terrível cancelamento da sua assinatura da TV a cabo, provoca a escritora.
Sinta a tensão no corpo durante a hesitação. Não desista. Enquanto aguenta firme, ensina Véronique, pense que não abrir a correspondência equivale a praticar luta livre com uma das forças gravitacionais mais poderosas da natureza a puritana ética do trabalho.


