A cada ano surgem novas dietas para perder peso. Dieta do Mediterrâneo, Dr. Atkins, Dr. Perricone, cada uma promete uma solução rápida e fácil para eliminar os quilos extras. Mas o sonho do corpo perfeito e saudável pode se tornar um pesadelo quando, para conquistá-lo, é necessário cortar por completo algum nutriente.
Anemia, desmaios, tonturas e baixa resistência são algumas das reações causadas pela restrição severa de alguns regimes. Os problemas surgem em consequência da mudança drástica dos níveis protéicos do organismo, chegando, inclusive, à necessidade de intervenção médica.
''Já atendi um paciente que estava há um ano fazendo a dieta hiperproteica, que corta os carboidratos e aumenta muito o consumo de gorduras. Ele disse que sentia tonturas e lentidão mental'', conta a nutricionista Gisella Valle.
Para o cardiologista Ricardo José Rodrigues, o consumo elevado de gorduras na dieta Dr. Atkins pode representar um perigo para o sistema cardiovascular. ''Não existem estudos que comprovem isso, mas acredito que a ingestão de ácido graxo saturado, estimulado nesse tipo de dieta, é um risco porque ele se transforma em colesterol ruim no organismo, o que é perigoso para a aterosclerose'', afirma.
O corte radical de carboidratos também é causador de danos para o coração, segundo a nutricionista Gisella Valle. ''Com a falta desse nutriente, o organismo começa a usar a proteína como fonte de energia. O problema é que esse processo gera uma toxina, chamada cetose, que altera o PH do corpo e pode causar lesão cardíaca. Depois de 24 horas dessa dieta, esse processo já começa e a sua continuidade por longos períodos pode levar a uma parada cardíaca. A falta de carboidratos também pode levar à irritabilidade e depressão'', alerta.
Mas as gorduras não devem ser eliminadas completamente do cardápio. ''Existe a gordura que é boa para o organismo, que é a insaturada, encontrada em amêndoas, peixes, óleos de oliva, canola e outros grãos. Essa gordura é importante na produção de hormônios femininos e na absorção de vitaminas, além de colaborar no aumento do colesterol bom'', lembra o cardiologista.
O ideal para a perda de peso, de acordo com Gisella, é ter uma alimentação balanceada, rica em carboidratos integrais, gorduras insaturadas, proteínas e vitaminas. ''Apenas trocar o carboidrato branco pelo integral já ajuda a perder peso. Os integrais têm mais calorias mas também oferecem mais saciedade, fazendo a pessoa comer menos. Alimentos como pão branco, massas brancas, batata e açúcar não sustentam e aumentam a ansiedade, fazendo a pessoa comer mais e engordar'', diz.
Outro risco das dietas importadas é a grande possibilidade de não apresentarem os resultados desejados. ''São dietas que funcionam nos países onde foram desenvolvidas, que atendem aos hábitos alimentares das pessoas de determinada região. O indivíduo inicia a dieta e não consegue levá-la adiante, o que causa frustração e baixa auto-estima. O correto é fazer uma reeducação alimentar e passar a comer corretamente para sempre'', comenta Rodrigues.
Assunto mais que em evidência na área da saúde, a interferência das dietas no sistema cardiovascular vai ser tema de palestra da nutricionista Roberta Lara Cassani, no 23º Congresso de Cardiologia da Socesp, que acontece de 28 a 30 de abril, em São Paulo.
''Nosso objetivo é chamar a atenção para a dieta, mas não como forma de emagrecimento e, sim, como agente promotor de qualidade de vida'', diz a palestrante, nutricionista especializada em cardiologia e mestre em ciências biomédicas. Segundo Roberta, a grande questão é conciliar a perda de peso com a manutenção da saúde. ''Em alguns casos, a falta de proteínas é tão acentuada que gera necessidade de suplementação medicamentosa com vitamina B12 e cálcio. Existem também regimes que, em sua fase inicial, diminuem o consumo de carboidratos a tal ponto que o indivíduo fica com déficit energético'', explica.
''Não devemos iniciar uma dieta que deu resultados visíveis em outros indivíduos. É preciso procurar um profissional e fazer uma avaliação. Assim, o organismo recebe adequadamente os nutrientes, de acordo com suas necessidades. Tudo é devidamente calculado. Não existem fórmulas mágicas'', alerta Roberta.

mockup