A psiquiatra Jocelyne Levy Rosenberg, de 56 anos, considera-se uma mulher vaidosa. Já fez uma plástica no nariz e admite que se preocupa com a sua aparência. Mas é na rotina de seu consultório que a médica se depara todos os dias com um lado pouco conhecido da vaidade. São homens e mulheres tão insatisfeitos com sua imagem que deixam de sair de casa e até de se olhar no espelho. Todos sofrem de dismorfia corporal, distúrbio geralmente confundido com vaidade excessiva. ''A doença é cada vez mais comum entre os jovens'', diz Jocelyne, que lançou o livro 'Lindos de Morrer', relatando como a doença afeta a vida dos pacientes.
Segundo ela, a dismorfia corporal não é simplesmente a vaidade. Trata-se de um distúrbio da imagem. É o caso da pessoa que não tem qualquer problema, mas se vê diferente no espelho. ''Você olha para ela e vê apenas uma espinha, por exemplo. Mas ela insiste que está com um rombo no rosto, diz que não vai sair de casa, sente-se feia. Não se trata da imagem real, mas da imagem interna''. Jocelyne reconhece, no entanto, que geralmente são pessoas excessivamente vaidosas. É o caso da mulher que não sai de casa no fim de semana porque não foi ao cabeleireiro ou da pessoa que faz várias plásticas para mudar tudo no corpo. Não adianta, ela nunca se sentirá bonita.''
O problema não atinge apenas o sexo feminino. Estudos demonstram que de cada 100 pessoas com dismorfia corporal, 51% são mulheres e 49% homens, ou seja, praticamente a mesma proporção. ''Em alguns países, como na Itália e no Japão, o número de homens é ainda maior que de mulheres. A dismorfia corporal é descrita em cerca de 2% da população geral. Nos consultórios de psiquiatria, esse índice pode chegar a 12% dos pacientes'', diz
Os sinais de que a vaidade ultrapassou os limites e virou doença se refletem diretamente no comportamento da pessoa. ''Pode ser o caso de alguém que passa horas se olhando no espelho antes de ir ao trabalho e resolve simplesmente ficar em casa. Também ocorre o contrário. A pessoa evita até se olhar na imagem refletida em uma vitrine. Outra característica é o isolamento. O paciente deixa de sair de casa, de ver os amigos.''
A psiquiatra revela que a doença é mais comum entre os 16 e 18 anos. Mas pode aparecer em qualquer idade. ''Tive uma paciente adolescente que seria considerada o estereótipo da beleza: loira, alta, olhos azuis, realmente bonita. Ela entrou no consultório de cabeça baixa, dizendo para que eu não a olhasse, pois ela era muito feia. Essas pessoas não podem ser julgadas. Nesse caso não é vaidade, é um sofrimento real. O perfil desses pacientes assim como das pessoas que sofrem de anorexia (transtorno alimentar em que a pessoa deixa de comer por se sentir gorda) é de pessoas com baixa auto-estima, que precisam ser constantemente elogiadas e também são perfeccionistas.''
Ela acrescenta que a dismorfia corporal não é o que leva o paciente ao consultório. ''Eles chegam principalmente deprimidos. Outra característica importante é a fobia social. Em alguns casos, os paciente podem apresentar também síndrome do pânico. Uma coisa leva a outra.''
Em muitos casos, esses pacientes podem considerar a cirurgia plástica como a única saída para o problema que dizem ter. ''Não sou contra a cirurgia plástica. Mas sempre que um paciente acredita que mudar alguma coisa em seu corpo vai mudar algo importante na sua vida é o momento de investigar. Por exemplo: a mulher que acredita que a plástica trará de volta o seu casamento fracassado. É por motivos como esse que muitos cirurgiões plásticos se recusam a operar um paciente. Eles percebem que se a imagem interna dessa pessoa não corresponde à realidade, certamente ela não se sentirá feliz com a cirurgia. Um exemplo clássico de dismorfia corporal é o cantor Michael Jackson. O caso dele, por exemplo, é grave.''
O tratamento depende de cada caso, mas é possível tratar com antidepressivos, os chamados inibidores de recaptação de serotonina, de acordo com Jocelyne. ''Geralmente temos ótimos resultados com esse tipo de medicação. Também utilizamos a terapia cognitivo comportamental. A idéia é fazer com que o paciente mude seu comportamento. Por exemplo, se ele sempre tem que se olhar várias vezes no espelho antes de sair de casa, dizemos para que resista e saia sem dar aquela última olhada. Essa é uma forma de ir mudando esse comportamento.''
A psiquiatra lembra que resolveu escrever o livro ''Lindos de Morrer'' justamente por observar uma preocupação cada vez maior das pessoas com a própria imagem. ''A idéia é mostrar que esse comportamento pode ter consequências devastadoras, quando exagerado. Já ouvi muitos pacientes afirmando que simplesmente não têm mais motivos para continuar vivendo por sua aparência. E ninguém deve se ver com essa lente de aumento.''

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