Quando uma criança aparentemente normal não entende direito o que alguém lhe diz, é possível que ela tenha algum problema de audição e não esteja escutando bem. Mas, e se não for constatado nenhum problema dessa ordem? Antes de achar que a criança é preguiçosa ou desatenta, é preciso lembrar que parte dos distúrbios de comunicação não se caracteriza por problemas na fala ou na audição. A criança pode escutar e falar perfeitamente, mas ter dificuldades para processar corretamente determinadas informações.
''A família supõe que a criança tenha surdez e a leva ao médico. Não sendo detectado esse problema, acham que ela vai mal na escola por desatenção ou deseducação'', atesta o foniatra Evaldo Rodrigues, do Instituto de Foniatria e Fonoaudiologia, em Campinas (SP). ''Distúrbios de comunicação que não apresentam esses sintomas também podem ser subestimados pelo profissional'', conclui.
Os problemas a que Rodrigues se refere podem estar relacionados à organização do espaço interior, à capacidade de processar corretamente os sons e de selecionar estímulos frente a um amplo leque de opções. Não há um nome específico para eles; na verdade, cada paciente tem um quadro diferente, formado por um conjunto de dificuldades de percepção.
Segundo o foniatra, os sintomas de que algo não vai bem são tempo de atenção limitado, dificuldade de concentração, persistência da incompreensão de alguma informação, inquietude, desorganização nos relatos, incapacidade de estabelecer uma rotina e dificuldade para lidar com conceitos como tempo e espaço, entre outros. Estas são manifestações da comunicação interna mal ajustada, da desorganização do espaço interior e da pobreza do estoque de conceitos (que não têm lugar para serem ''estocados'').
''Toda vez que tratamos de coisas abstratas, supõe-se que internamente estabeleçamos um espaço interior, onde se movimentam todas as coisa que acontecem no tempo, para localizar e equacionar distâncias em tempo e espaço'', explica Rodrigues, que ilustra um desses quadros: poucos dias atrás, uma criança normal, inteligente, fazia tratamento em seu consultório, e o foniatra perguntou-lhe que tempo ela achava estar mais distante 15 dias ou três anos. ''Ela disse quinze dias, pois quinze é maior do que três. Ela não consegue trabalhar em espaços abstratos.''
Essa dificuldade em lidar com certas informações e conceitos costuma manifestar-se precocemente. Porém, quanto menos intenso for o problema, mais tempo demorará para ser notado e mais tarde será feito o diagnóstico. ''Neste caso, a criança carrega a cruz mais pesada, pois elas conseguem chegar a um rendimento mínimo aceitável e passa a ser cobrada para que melhore'', ressalta Rodrigues. ''Mas, por melhor que ela o faça, fica sempre devendo.''
Sistema nervoso
Alfredo Tabith Jr., diretor geral da Divisão de Educação e Reabilitação dos Distúrbios da Comunicação (Derdic), em São Paulo, explica que certos distúrbios de linguagem acontecem por imaturidade do sistema nervoso central, que lida com as funções de percepção. ''Quem enxerga é o olho, mas quem processa as informações são as vias centrais. Com o ouvido, é a mesma coisa'', considera. ''Se isso não ocorre, é uma falha do sistema nervoso algumas vezes, não por uma lesão, mas por imaturidade das vias centrais.''
O tratamento nesses casos consiste em trabalhar as funções deficientes, como atenção e discriminação auditiva. ''Pode-se fazer uma miscelânea de técnicas. Algumas crianças também podem necessitar de medicamentos para melhorar a memória'', salienta Tabith.
Para os pais, a dica de Rodrigues é prestar atenção à capacidade de comunicação da criança. Se o padrão estiver defasado em relação a crianças nas mesmas condições (sociais, econômicas, emocionais etc.), vale procurar um especialista. Dificuldades na alfabetização também merecem mais atenção. ''A criança normalmente comete erros, mas deve-se ficar atento aos erros que persistem além do processo normal de fixação da alfabetização'', complementa Tabith. (M.P.)
Serviço
O Instituto de Foniatria e Fonoaudiologia, em parceria com a Federação das Entidades Assistenciais de Campinas (Feac), promove palestras sobre distúrbios da comunicação e problemas de aprendizagem para pais, professores, pediatras e psicólogos. Informações pelo telefone (0xx19) 3234-9409 ou pelo site www.foniatria.med.br. O ingresso tem um valor simbólico que posteriormente é doado a entidades filiadas à Feac.
Já a Divisão de Educação e Reabilitação dos Distúrbios da Comunicação (Derdic) presta assistência gratuita. Informações pelo fone (11) 5549-2510.

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