O que o Pato Donald, Homer Simpson e o Cebolinha têm em comum? Vejamos. O Pato Donald é uma negação. É o eterno suplício do Tio Patinhas e perde todas as paradas para seu primo Gastão. Homer Simpson é daqueles que começam bem e terminam mal. E o Cebolinha? O simpático personagem de Maurício de Souza, que troca os r pelos l, sempre tem um plano para derrotar a Mônica, mas na última hora vai tudo por água abaixo.
Não pense que se trata de azar. Os três heróis atravessados são vítimas da lei de Murphy aquela segunda a qual se algo tem a chance de dar errado, pode ter certeza, vai dar errado mesmo. Mas de onde vem esse princípio perverso?
Sua origem, dizem, é creditada ao capitão da Força Aérea norte-americana Edward A. Murphy Jr. Em 1949, ele participou de uma pesquisa sobre os efeitos de impactos violentos em acidentes de aviões. O trabalho foi realizado sob a supervisão de George E. Nichols, da Northrop Aircraft.
Nichols conta que Murphy, indignado com o mau funcionamento de uma correia de polia, devido a um falha de ajuste, resmungou: ''Se houver uma maneira de fazer a coisa errada, todos a fazem!''.
Imediatamente, Nichols batizou a frase de lei de Murphy. O nome pegou e fez história. Tanto que algum tempo depois, o coronel John Paul Stapp, instrutor de vôos, declarava, em entrevista coletiva: ''Os esplêndidos resultados obtidos, durante anos seguidos, em quedas e choques simulados de aeronaves, foram devidos, fundamentalmente, à crença de todos na Lei de Murphy, isto é, no nosso esforço constante para negar a sua inevitabilidade.''
Manteiga para baixo Há quem diga que a lei de Murphy só serve para criar curiosidades de almanaque, não tem qualquer utilidade prática. Mas, segundo o físico inglês Robert A.J. Matthews, não é bem por aí. Formado pela Universidade de Oxford, Mathews ficou célebre ao atribuir a preceitos científicos coisas como o pão quase sempre cair no chão com o lado em que foi passada a manteiga. Ele fala sério e já fez vários testes para provar que não há a mão do acaso nem qualquer travessura de um duende nisso.
''Um pão tem a tendência natural de cair com o lado em que foi passada a manteiga porque o torque gravitacional não é suficiente para que ele gire completamente sobre si mesmo, antes de chegar ao chão. A distância entre a borda da mesa e o solo só permite que ele dê meia-volta. Isso não tem nada a ver com a ação de algum gnomo invisível. É ciência básica. Se a distância entre o topo da mesa e o chão fosse maior, o resultado seria diferente '', ele esclarece.
Matthews cita ainda o caso de pessoas que saem à rua com um guarda-chuva, quando o céu está nublado, na expectativa de que sobrevenha um temporal e nada. ''É que a chuva é um fenômeno mais raro do que se imagina. Mesmo aqui na Inglaterra, onde chove muito e o serviço meteorológico é considerado eficiente, a chance de chover em determinado horário é sempre menor do que a de não chover'', ele comenta.
Seja verdade ou não, a lei de Murphy tem aspectos, na maioria das vezes, engraçados. Há vários sites da Web que se especializaram em mostrar situações em que ela é infalível. Na parte, digamos, das conquistas amorosas, é quase certo que quando você encontra uma garota bonita inteligente e charmosa, das duas uma: ou você está com sua esposa ou namorada; 2) ou você tem ao lado um amigo mais rico e mais bonito. n
Pequenas fatalidades
No dia-a-dia então, nem se fala. A lei de Murphy impera. Confira esses 12 casos e veja se eles acontecem ou não com você:
q Basta usar uma gravata nova para melecá-la num prato de sopa.
q A fila do lado anda sempre mais rápido.
q Você amou o sapato que está na vitrine. Mas não tem o seu número.
q Para conseguir um empréstimo, é fundamental que você não precise dele.
q No Bingo, você está pela boa, a bolinha 54. Mas sai a 53 e alguém da mesa ao lado bate.
q Quando algo pequeno cai no chão, sempre rola para a parte mais inacessível de qualquer aposento.
q Por mais tomadas que você tenha em casa, elas quase sempre estão atrás dos móveis.
q Você sempre encontra aquilo que não está procurando. Oitenta por cento do exame final de sua prova na faculdade será baseado na única aula que você perdeu e no único livro que você não leu.
q Você joga fora alguma coisa imprestável, mas logo acontece de precisar dela.
q Quanto mais você está atrasado para um compromisso, mais sinais vermelhos encontra pela frente
q As chances do pão cair com o lado manteiga para baixo são, sempre, diretamente proporcionais ao valor do tapete.
q O mais interessante em tudo isso é que o capitão Edward A. Murphy Jr. considerava-se, de acordo com seus amigos, um sujeito pra lá de otimista. A seguir entrevista com o físico Robert Matthews. (J.M.)
A lei da vida
O físico inglês Robert Matthews, 43 anos, explica por que as coisas costumam ser exatamente ao contrário do que queremos Especialista em pequenos aborrecimentos diários, atribuídos à lei de Murphy, Matthews leciona no Departamento de Engenharia da Informação da Universidade de Aston, em Birmingham, na Inglaterra, e já teve artigos publicados nas principais revistas científicas do mundo. Casado, pai de uma menina e dois meninos, ele mora com a família em Oxford, de onde, por e-mail, concedeu a seguinte entrevista sobre a lei de Murphy, que, de certa forma, ele considera como a lei da vida.
AE O senhor realmente acredita na lei de Murphy?
Mattheus Sim. Ela não é um simples mito urbano. Acho que em muitos casos ela é bem real.
AE Quando o senhor começou a se interessar pela matéria?
Matthews Em junho de 1994, depois de ler uma carta de um leitor da revista ''New Scientist''. Ele dizia que tinha encontrado uma razão científica por trás da lei. E contava a experiência que fizera com um pão com manteiga, deixando-o cair de uma mesa. Invariavelmente, o pão caía com a parte da manteiga para baixo. Ele concluiu que isso se devia ao torque gravitacional, isto é, a distância entre a borda da mesa e o solo só permitia que o pão desse meia-volta. Então, ele repetiu a experiência numa mesa mais alta. O resultado foi bem diferente: o pão caiu mais vezes com a face sem a manteiga. Em princípio, duvidei. Mas fiz a mesma coisa e vi que ele estava certo. A partir daí, me propus a estudar porque certas coisas tendem a não sair exatamente do jeito que queremos.
AE A propósito, por que a fila do supermercado ao lado da nossa sempre anda mais rápido?
Matthews Há uma área da matemática dedicada ao estudo das filas e uma de suas leis básicas é que, embora as filas nos supermercados estejam sujeitas a uma demora aleatória, na média elas andam em espaços de tempo iguais. A palavra-chave aqui é ''na média''. Acontece que num supermercado com cinco caixas, as chances de você pegar a fila mais rápida, naquele momento, é de apenas 20%. Por várias razões uma delas pode ser porque o caixa da fila A seja mais rápido no troco do que o da fila B. Há, então, 80% de chances contra você. É a lei das probabilidades.
AE Durante muitos anos, o senhor vem pesquisando outras manifestações da lei de Murphy. Por exemplo, por que é que quando usamos um mapa rodoviário o lugar onde queremos ir aparece sempre na parte mais difícil de manusear na dobra de baixo ou em uma das extremidades?
Matthews Essa é uma interessante combinação de probabilidades com ilusão de ótica. Suponhamos, para simplificar, que o mapa é quadrado e que definimos a ''Zona de Murphy'' (ou seja, onde as coisas são complicadas) na extremidade do mapa ou na dobra central. Nesse caso, a geometria mostra que se a largura da Zona de Murphy constituísse apenas um décimo da largura total do mapa, ela seria estimada em 52% da área total do mapa. Desse modo, um ponto qualquer do mapa, tomado aleatoriamente, tem maior chance de se situar nela. Esse surpreendente resultado deve-se ao fato de que, embora a Zona de Murphy pareça mais estreita, seu perímetro abrange uma dimensão maior do mapa. Assim, sua área é enganosamente larga.
AE O sr. acha que alguns desses acontecimentos têm a ver com a memória seletiva?
Matthews Sim. Por exemplo, muitas pessoas dizem que os sinais de trânsito estão sempre vermelhos quando elas estão com pressa. Isso é acontece porque as pessoas não se importam muito com o sinais de trânsito e só lembram deles quando as coisas não vão bem.
AE O sr. acredita em destino, coincidência ou má sorte?
Matthews Não.
AE E as coisas em sua vida: sempre dão certo?
Matthews Há muito da lei de Murphy em minha vida. Mas agora sei que muito do que acontece de errado está ligado às leis da matemática e da física e não porque eu seja uma pessoa azarada. (J.M.)

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