Um com­por­ta­men­to já se tor­na co­mum en­tre me­ni­nas de cin­co, se­te e até ­dois ­anos. ­Elas se ma­quiam ca­da vez ­mais ce­do, se­ja pa­ra ir a um ca­sa­men­to ou pa­ra ir à es­co­la. E o mer­ca­do cap­tou a on­da. Li­nhas es­pe­cí­fi­cas de ma­quia­gem in­fan­til che­gam às pra­te­lei­ras das lo­jas, que já têm ins­ta­la­do até pro­va­do­res pa­ra as crian­ças.
  ‘‘­Elas são o es­pe­lho da ­mãe’’, diz o ma­quia­dor pau­lis­ta­no Flá­vio San­tos Ma­tos, há cin­co ­anos ma­quian­do so­men­te crian­ças. ‘‘Se a mãe ado­ra ma­quia­gem pe­sa­da, a fi­lha vai que­rer tam­bém.’’
  No sa­lão de Ma­tos, a no­vi­da­de é o dia da da­mi­nha: da­mas de hon­ra dos ca­sa­men­tos ‘‘pas­sam o dia no sa­lão fa­zen­do ca­be­lo, ­unha, ma­quia­gem e ga­nham ­lanche’’. Qua­tro ho­ras de­pois, os ­pais as bus­cam.
  Mas o que ­elas que­rem ­após sen­tar em fren­te ao es­pe­lho, com um adul­to de pron­ti­dão pa­ra pin­tar seu ros­to? ‘‘Mui­to bri­lho, ba­tom ro­sa, ­blush, som­bra e ­rímel’’, ex­pli­ca Ma­tos. E a ida­de das ga­ro­tas que que­rem se ma­quiar es­tá di­mi­nuin­do.
  ‘‘Quan­do en­trei no sa­lão, as me­ni­nas ti­nham 12 ­anos. Ho­je, têm se­te, às ve­zes, cin­co ­anos.’’ E Ma­tos tem du­plo co­nhe­ci­men­to de cau­sa. A fi­lha, Bian­ca, 2 ­anos, já an­da por to­da a ca­sa com uma ma­le­ti­nha ro­sa, ­cheia de ma­quia­gem. ‘‘Ela ado­ra som­bra e ­batonzinho’’, afir­ma ele.

Ma­quia­gem pa­ra bo­ne­ca: nem pen­sar!
  Em­pi­lha­das às de­ze­nas, as ma­le­ti­nhas de ma­quia­gem cor-de-ro­sa cha­mam a aten­ção em lo­jas de brin­que­dos e ca­me­ló­dro­mos. Som­bras co­lo­ri­das, ­gloss, ba­tons e pin­céis. Só um ­olhar aten­to re­ve­la uma mi­nús­cu­la men­sa­gem ­atrás do pro­du­to: ‘‘Ma­quia­gem pa­ra bo­ne­cas. Não de­ve ser usa­da por ­crianças’’.
  ‘‘Mas as me­ni­nas ­usam sem pro­ble­mas, a gen­te es­tá can­sa­do de ­vender’’, diz uma ven­de­do­ra. As­sim, ­mais crian­ças se ex­põem ao ris­co de aler­gia – que, se­gun­do es­pe­cia­lis­tas, po­de ocor­rer até com pro­du­tos co­muns ou es­pe­cí­fi­cos pa­ra crian­ça.
  ‘‘A crian­ça po­de es­tar su­jei­ta a pro­du­tos al­ta­men­te ­irritantes’’, diz Éri­ca Cos­ta, da ge­rên­cia de cos­mé­ti­cos da An­vi­sa. O ór­gão ­criou, em 2001, uma re­so­lu­ção que de­fi­ne que ti­po de ma­quia­gem po­de ser co­mer­cia­li­za­da pa­ra crian­ças (des­de que cum­pri­dos os tes­tes de se­gu­ran­ça, co­mo sen­si­bi­li­za­ção e aler­gias). ‘‘Mas a gen­te já sen­te a ne­ces­si­da­de de atua­li­zar a nor­ma, pa­ra in­cluir pro­du­tos co­mo ­sombra’’, diz Cos­ta.
  A An­vi­sa não in­for­ma quan­tas mar­cas de ma­quia­gem in­fan­til têm re­gis­tros de co­mer­cia­li­za­ção no Bra­sil. Mas ‘‘o mer­ca­do é tão pro­mis­sor que já tem mi­croem­pre­sas so­li­ci­tan­do ­registro’’, diz Cos­ta. Ela aler­ta: ‘‘To­da ma­quia­gem, pa­ra crian­ça ou pa­ra adul­to po­de cau­sar aler­gia por­que tem co­ran­tes.’’
  ­Quem en­ten­de con­cor­da. ‘‘A pe­le da crian­ça é mui­to fi­na, e a su­per­fí­cie cor­po­ral ­menor’’, aler­ta Ru­bens Lei­te, pre­si­den­te do de­par­ta­men­to cien­tí­fi­co de der­ma­to­lo­gia da So­cie­da­de Bra­si­lei­ra de Pe­dia­tria.
  Ele aler­ta: ‘‘A ma­quia­gem in­fan­til é um as­sun­to pou­co ex­plo­ra­do no que se re­fe­re a com­pli­ca­ções fu­tu­ras. Mes­mo em pe­que­nas quan­ti­da­des, as subs­tân­cias bá­si­cas da ma­quia­gem são ­mais fa­cil­men­te ab­sor­vi­das, o que po­de cau­sar aler­gias a lon­go ­prazo’’, diz Lei­te. ‘‘Até que pon­to es­sas subs­tân­cias são se­gu­ras? Não sa­be­mos.’’ Daí o con­se­lho: ‘‘Não com­pre, não dei­xe ­usar’’./


‘‘A maquiagem infantil é um assunto pouco explorado no que se refere a complicações futuras. Mesmo em pequenas quantidades, as substâncias básicas da maquiagem são mais facilmente absorvidas, o que pode causar alergias a longo prazo. ‘Até que ponto essas substâncias são seguras? Não sabemos’’. O alerta é de Rubens Leite, presidente do departamento científico de dermatologia da Sociedade Brasileira de Pediatria

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