Antes de abrir as páginas do livro ''Ele simplesmente não está a fim de você'', um aviso: é preciso estar com a auto-estima em dia, afinal, a frase (bem cruel, diga-se) é repetida à exaustão do começo ao fim. Para as bem-humoradas e corajosas, o livro de Greg Behrendt e Liz Tuccillo é diversão garantida apesar das contundentes afirmações de que ''ele simplesmente não está a fim de você''.
Roteiristas da extinta e saudosa série televisiva Sex & the City, Greg e Liz dão a visão masculina e feminina para as agruras das solteiras em busca do homem ideal. Só que enquanto ele ''bate'', ela ''assopra''. No estilo perguntas e respostas, Greg passa o livro inteiro dando nome às desculpas clássicas dos homens. Elas perguntam por que eles não as convidam para sair, não telefonam e por que não querem namorar ou casar, ele responde ''ele simplesmente não está a fim de você''.
Assim como nos episódios da série que tornou Sarah Jessica Parker um ícone mundial, as colaboradoras (inventadas ou não) do livro se angustiam com seus relacionamentos ou a falta deles. Nem todas elas são solteiras solitárias. Muitas já moram com seus parceiros e mesmo assim, Greg vive repetindo a tal frase cruel. Para ele, é preciso esperar que o homem sempre dê o primeiro passo, que ele ligue, que ele convide. Para chocar as novaiorquinas, mais ''atiradas'' por natureza.
Como não é um livro de auto-ajuda (apesar do subtítulo indicar ''Entenda os homens sem desculpas''), ninguém vai levá-lo tão a sério. Aliás, está aí uma das características básicas do chamado ''chick lit'', que no Brasil é traduzido por literatura de mulherzinha. No terceiro milênio, Sabrina, Júlia e Bianca (romances apimentados vendidos em bancas de jornais) perderam espaço para heroínas atrapalhadas como Bridget Jones e Beck Bloom.
Literatura de mulherzinha A leveza e o humor são marcas registradas do chick lit, escritas, geralmente, por americanas e britânicas. A demanda é tão grande que está sendo lançado no Brasil o selo Red Dress Ink, da editora canadense Harlequim, especialmente dedicado ao gênero. ''Em nosso país, a situação das balzaquianas (mulheres que passaram dos 30 anos) é a mesma da observada no resto do mundo'', diz a diretora da Harlequim no Brasil, Vânia Tavares. ''O chick lit é uma tendência, também chamada de leitura de entretenimento. Fala diretamente às mulheres modernas, que costumam se identificar com as personagens.''
Apesar do rótulo de ''literatura de mulherzinha'', a leveza e o humor das tramas podem até trazer profundidade. Isso é o que acredita a norte-americana Karen Templeton, autora do livro ''Procurava um Marido, Encontrei um Cachorro''. Para ela, ''o senso de humor é um importantíssimo instinto de sobrevivência! A vida é frequentemente absurda. Se você for capaz de rir dessa loucura, isso ajuda a colocar tudo em perspectiva. A escritora que consegue nos fazer rir, consegue nos fazer ouvir. Nós rimos das heroínas e pensamos: 'talvez minha vida não seja tão terrível assim, talvez haja esperança!' Esse é um dos motivos pelos quais eu amo escrever esse tipo de história'', diz Karen, que já passou dos 40 e é casada.
A paulistana Beatriz Camargo Minervino, de 33 anos, casada e com um filho de pouco mais de 1 ano, devora esse tipo de publicação. A mania começou com ''Os Delírios de Consumo de Beck Bloom'', da britânica Sophie Kinsella. Ela tem ainda toda a série Beck Bloom, todos os livros de Candance Bushnell (autora de ''Sex & The City''), ''O Diabo Veste Prada'', ''Temporada de Casamento'' e alguns dos best sellers da irlandesa Marian Keyes, autora de ''Melancia'' e ''Casório?!''. ''É uma literatura despretensiosa, uma espécie de auto-ajuda diferente, por causa do humor.''
No Brasil, uma das editoras pioneiras no segmento é a Record, que lançou ''Sex & the City'' e ''O Diário de Bridget Jones'' (100 mil exemplares vendidos no País). No seu catálogo, há 40 títulos do gênero e mais dez lançamentos previstos para este ano. ''É um dos melhores segmentos de retorno de médio prazo'', opina a diretora editorial da Record, Luciana Villas-Boas. ''Antigamente, a literatura voltada para a mulher tinha um tom mais lacrimoso. Nesses livros, o humor e a ironia são marcas'', explica.
Muitos consideram os livros da escritora carioca Nilza Rezende versões brasileiras do chick lit. ''Os temas são femininos e contemporâneos. Há essa mulher independente, mas que, ao mesmo tempo, procura desesperadamente um homem'', diz a autora do romance ''Dorme Querida, Tudo Vai dar Certo'', em que a protagonista é uma descolada diretora de marketing na área de moda. Mas, apesar das semelhanças, a escritora apressa-se para apontar diferenças. ''Tenho uma preocupação muito grande com a linguagem. Apesar de também usar o humor, a linguagem dessas publicações é mais rápida, menos trabalhada. A história é mais importante.''
O interessante é que os tais livros estão amadurecendo junto com suas leitoras. Quem começou lendo ''O Diário de Bridget Jones'' em 2000, é bem provável que hoje que já esteja beirando os 40. Surgem títulos voltados para a idade da loba, também com um tom leve e divertido, como o recente ''Os Diários de Botox'', de Janice Kaplan e Lynn Schurnberger; ''Aquela Idade'' e ''A Boa Esposa Contra-Ataca'', ambos de Elisabeth Buchan. Será que vão acompanhar as aventuras cotidianas das mulheres até os 80 anos? Depende do fôlego, tanto das leitoras como do gênero.

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