‘‘Acredito no modelo de vida familiar. Não achava justo, por ser homossexual, ter que me privar do prazer de ter uma família. Tenho o sonho de ter um filho há muito tempo. E também não achava justo envolver uma terceira pessoa nessa história só para satisfazer minha necessidade de ser pai. Por isso, a adoção foi o caminho mais natural. Acredito que o amor nasce da convivência.
Thiago foi abandonado pelos pais, estava numa casa de transição sob a tutela da justiça. Estou com a guarda provisória. Nunca escondi minha opção sexual do juiz. O determinante para eu conseguir a adoção foi o fato de ser honesto e de deixar claro que queria um filho para formar uma família e torná-lo um homem de bem e um vencedor.
Por ele ser adotivo e mulato, combinamos que toda vez que alguém perguntar, ele deve responder que a sua mãe mora em outro lugar e que ele mora com papai. Tenho namorado, mas não vivo com ele. Não acredito em um relacionamento homossexual com o padrão de uma relação heterossexual. O homem foi criado para ser independente. Dois homens vivendo sob o mesmo teto fica muito complicado.
Thiago sente uma afinidade muito grande pelo Paulo (namorado há quatro anos), tanto que pediu para que eu o convidasse para ser padrinho de batismo dele. Fiz com que mudasse de idéia porque não queria impor nenhuma responsabilidade para o meu namorado, pois a opção de ser pai é só minha. Ele entra na história como o nosso melhor amigo.
Meu pai e minha mãe tiveram uma vida sexual normal e nunca vi um beijo mais quente entre eles. Do mesmo modo, a minha vida sexual acontece longe dos olhos de Thiago. Reservo um dia por semana – meu filho fica na casa da avó ou com a babá – para sair, namorar e me divertir como todas as pessoas da minha idade.
Thiago já perguntou se eu gostava de mulher. Eu disse que sim, mencionando as mulheres da família, minha mãe, minhas irmãs. Depois perguntou se eu não namorava. Eu disse que já tinha namorado, mas não estava namorando agora, pois estava trabalhando muito para construir nossa casa.
As perguntas, por enquanto, não vão além disso. E são satisfeitas com respostas objetivas e diretas. Não há necessidade de construir uma imagem falsa. A profundidade das respostas deve estar de acordo com a maturidade dele. Tenho a orientação de uma psicóloga especializada em adoção e ela disse que os questionamentos maiores começam aos 9 anos.
Não se opta por ser ou não homossexual, mas sim em assumir ou não essa condição. Eu prefiro que Thiago seja heterossexual, pois há muitas dificuldades a serem vencidas pelo homossexual. Acho que existe preconceito em relação a tudo, mas o maior deles nem é contra os homossexuais e, sim, contra os pobres. A partir do momento em que você é um vencedor, ninguém vê mais cor nem opção sexual. Por isso, me esforço para que ele tenha boa educação, boa alimentação e bom desempenho escolar. Ele estuda em colégio particular, faz judô e fonoaudiologia.
Em seis meses, Thiago cresceu o equivalente a um ano. O médico disse que isso é um indicativo de tranquilidade emocional. Tenho planos de ter, pelo menos, mais uma filha. Ter irmãos é muito gratificante e não quero privar meu filho disso’’.
* Os nomes são fictícios

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