Eles não são mais crianças, mas ainda acreditam em contos de fadas. Principalmente naquela parte em que o príncipe encantado chega em seu cavalo, pede a princesa em casamento e foge com ela para viverem felizes para sempre. Sonhando com amores eternos, os adolescentes são capazes de qualquer coisa para ficar ao lado dos namorados, nem que para isso seja preciso fugir, namorar escondido, mentir ou até brigar com a família.
Suzane von Richthofen, de 19 anos, matou os pais, segundo ela, por amor. Muitos jovens também vivem relacionamentos que não têm a aprovação da família. Assumem que às vezes sentem raiva, mas garantem que isso nunca justificaria um crime. Romeus e Julietas modernos, vão tentando driblar os 'inimigos'. Juntos.
Malu e Cássio namoram há dois anos. Como sua família é contra, ela não passa um dia sem ouvir críticas e, para evitar atritos, não leva Cássio em casa. Os pais não proíbem o namoro, mas deixam claro que Cássio não é bem-vindo. Aos 17 anos, ela sempre estudou em colégios caros, viajou para o exterior nas férias e teve tudo o que quis. Ele, aos 21, voltou a fazer colegial técnico, depois de dois anos sem estudar e de uma temporada fora de casa.
Não é, segundo Malu, o príncipe que seus pais queriam alguém da mesma escola, parecido com ela e mais responsável. ''Eles dizem que só querem me proteger. Mas não sei do que. Só se for da felicidade. O Cássio me faz bem e essa perseguição não tem sentido'', diz. ''Acho que implicam porque têm ciúme.''
Malu diz que às vezes tem vontade de fugir, mas garante que não deixará os pais vencerem a briga. ''Não irei abrir mão da minha vida só porque eles não vão com a cara do meu namorado, diz. ''Queria ver todos em harmonia, sem tanta pressão, mas, se tiver de escolher entre meus pais e o Cássio, fico com ele, que é o amor da minha vida.''
Sexo e mentiras Daniela, de 19 anos, não aguentou a pressão e terminou o namoro proibido por causa dos pais. Quando tinha 17 anos, começou a namorar com Rafael, de 16. Bastou receber flores dele para que seu pai deixasse claro que desaprovava o relacionamento. ''Tivemos uma conversa séria, ele disse que não queria o namoro porque tinha medo de que Rafael não me acompanhasse nos passeios'', diz. ''Rafael era de uma classe social inferior e era negro.''
Na hora, Daniela não discutiu e disse que não encontraria mais o rapaz. Mas tinha certeza de que estava apaixonada e não desistiu da relação. Foi então que começou o namoro escondido. ''Ficamos dois anos assim e meus pais nunca desconfiaram. Dormia na casa dele e dizia que estava com uma amiga.''
Chegou um momento em que ela não aguentou mais tanta mentira. ''Era horrível inventar desculpas, ir às festas de família e ficar ouvindo que tinha de arranjar um namorado. Eu já tinha um. Mas como sou superligada aos meus pais, resolvi terminar e encontrar alguém que fosse aceito'', diz. ''Sem saber, meus pais conseguiram o que queriam.''
Cristina Nunes, de 14 anos, não desistiu e acabou convencendo os pais de que Lucas, de 16, era ''boa gente''. O namoro já tem um ano e três meses e, no início, seu pai pegava no pé porque não conhecia o moço e achava que ela era muito nova.
Quando o namorado ia na sua casa, eles só se cumprimentavam. Mas, aos poucos, Lucas foi conquistando a família e hoje já é um integrante dela. ''É muito melhor namorar com a aprovação dos pais, a gente não tem de fazer nada escondido.'' Ela lembra que dizia à família que não terminaria o relacionamento de forma alguma. ''Acho que o segredo é ter paciência, não enfrentar os pais e ir mostrando que o namorado é uma pessoa legal. Assim, dá para chegar em um final feliz.''
Mãe de Felipe, de 17 anos, Leila de Almeida, de 42, tenta conviver pacificamente com a namorada do filho. Elas até que se dão bem, mas Leila não gosta do comportamento liberal e das roupas ousadas da garota, e ainda diz que ela é ''superpegajosa''. ''Na primeira semana de namoro, a menina já queria dormir em casa. Não dá, né? Ela não dá um minuto de sossego e liga até no meu celular para falar com ele.''
Em vez de proibir, Leila acompanha ''de perto'' o namoro. ''Fico preocupada e tento alertá-lo. Confesso que não é o tipo de nora que eu queria ter'', diz. ''Mas a escolha é dele.'' Felipe, que fica no meio das duas, diz que a situação é complicada, mas que não se importa de ouvir a mãe. ''Não vou ignorar seus conselhos só porque agora gosto de alguém'', afirma. ''Mas também não vou terminar o namoro assim...''
Encontros proibidos Quando eram jovens, os pais de Fernanda, de 17 anos, tiveram de namorar escondido porque os avós maternos dela eram contra o relacionamento. Apesar da oposição, eles se casaram e tiveram de ir conquistando a confiança da família aos poucos. Agora, a história se repete. E Fernanda tem de namorar João Paulo, de 18 anos, escondido. Por quê? Seu pai não o aceita.
Basta falar no nome do rapaz em casa que o sermão já começa. Seu pai não gosta do rapaz, mas nem imagina que, mesmo contra a sua vontade, eles estão namorando há um ano e cinco meses. A implicância com João Paulo vem desde a infância, quando ele era o ''arteiro'' da rua. Mas o menino bagunceiro cresceu e, segundo Fernanda, ''tomou jeito''. O problema é que seu pai insiste em manter a imagem da época em que eram pequenos. ''Ele implica porque não mudou a idéia que tinha do João Paulo, e ainda o considera irresponsável'', conta Fernanda. ''Tenho certeza de que aceitaria se fosse outro namorado.''
Fernanda diz que namorar escondido é emocionante, mas acha ruim não poder levá-lo às festas. ''Há três meses, minha mãe parou de trabalhar e passou a ficar em casa. Tive de contar sobre o João Paulo e ela me proibiu de trazê-lo aqui.'' Para não criar confusão, a mãe não opina. ''Ela está começando a confiar nele e minha esperança é que acabem aceitando minha história'', diz. ''Eles já passaram por isso, sabem o quanto é sofrido. E não há motivo real para a proibição.''
Fuga Em janeiro deste ano, Danielle, de 16 anos, foi para Salvador e conheceu o amor da sua vida: Ed, de 27 anos. Passaram o mês grudados, recitando poesias um para o outro e planejando o futuro. Mas eram férias e, no começo de fevereiro, chegou a hora de voltar para casa o que significaria ficar longe do namorado. Ele morava em São Paulo. Ela, no Rio de Janeiro.
O casal não teve dúvidas. No dia em que Danielle deveria pegar o avião, decidiram fugir. Em vez de ir para o aeroporto, ela foi se encontrar com Ed e passaram o dia todo em Brotas, perto da capital baiana. ''Pensei na minha mãe, mas estava tão apaixonada que tudo o que eu queria era ficar com ele'', lembra a garota. ''Nada mais importava para mim.''
O dia terminou e Danielle pediu abrigo a uma amiga. O casal passou a noite nessa casa, escrevendo poemas e aproveitando o tempo juntos. ''Ficamos lá por dois dias, até que comecei a me arrepender de deixar minha mãe preocupada e liguei.'' Foi a maior bronca que ouviu na vida. ''Ela estava furiosa e fez um discurso absurdo'', diz. ''Sei que fiz uma loucura, mas foi uma loucura de momento. Só gostava dele e queria viver uma aventura como a de Romeu e Julieta.''
Só que, felizmente, essa 'Julieta' não teve final trágico. Sua história acabou na rodoviária: de castigo, teve de voltar de ônibus. Com o tempo, descobriu que nem gostava tanto assim de Ed. Mas ela garante que não se arrepende. ''Naquele momento, tudo valia a pena.'' (D.T./AE)

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