Ao lado da celulite e das estrias, as varizes formam o trio do terror da vaidade feminina. Poder exibir pernas lisinhas, sem os indesejáveis riscos vermelhas, os temíveis buraquinhos e os desagradáveis vasinhos, é o sonho da maioria das mulheres. Se há um consolo é que, ao contrário dos outros dois problemas estéticos, as varicoses são bem mais fáceis de serem tratadas.
De acordo com o cirurgião vascular e angiologista João Augusto Bille, as varizes nada mais são do que dilatações e tortuosidades das veias. ''Sabe-se que o fator hereditário tem um peso importante. As paredes das veias já nascem com defeito e a isso vão se associando outros fatores de risco, como obesidade, sedentarismo e o uso de salto alto. Ficar muito tempo em pé também contribui para o problema'', enumera.
O médico explica que, ao caminhar, estamos bombeando sangue de volta ao coração. ''É um dos mecanismos do retorno venoso'', diz, avisando que o salto alto limita esse movimento. Bille faz uma comparação com a bomba da caixa d' água para explicar como o sangue consegue retornar ao coração contra a força da gravidade. ''A bomba do corpo é formada pela pressão negativa intratorácica e pela panturrilha: o músculo da perna contrai, apertando a veia e fazendo o sangue subir. Por isso, a panturrilha é considerada o coração periférico'', informa.
A atividade física é fundamental para garantir a integridade desse processo. ''Se o músculo fica parado, enfraquece, originando um coração periférico fraco, que bombeia menos sangue. Parte desse sangue fica, então, represado nas veias. Essa estagnação vai produzir um aumento da pressão intravenosa. Como já não tem paredes geneticamente perfeitas, a veia vai se dilatar como se fosse uma bexiga, ficar tortuosa e se tornar varicosa'', detalha o médico.
Na gravidez, esse processo se intensifica porque o útero comprime as veias internas, dificultando o retorno venoso e causando acúmulo de sangue nas pernas. O excesso de peso desempenha o mesmo papel. Já o cigarro e o anticoncepcional oferecem risco porque alteram os fatores de coagulação do sangue.
Por estarem mais expostas a todos esses fatores, as mulheres dos 30 aos 50 anos são as mais atingidas pelo problema. Evitá-los, portanto, é o melhor caminho para fugir das varizes. ''Na gravidez, é preciso tomar cuidados especiais, como controlar o peso, usar meias elásticas, fazer atividade física adequada (como hidroginástica), e repousar o máximo de tempo possível com as pernas para cima'', ensina o médico.
Tratamentos Para quem quer se livrar dos vasinhos, Bille dá uma boa notícia. Por causa da demanda, os profissionais brasileiros atingiram uma especialização tão grande que torna o Brasil um dos países mais desenvolvidos na área. Os tratamentos disponíveis, segundo ele, são recomendados de acordo com o calibre do vaso sanguíneo. ''É consenso atual da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular que os vasos de pequeno, médio e grande calibre devem ser tratados cirurgicamente. Se houver acometimento das veias safenas, ou tributárias das safenas de médio a grosso calibre, a indicação é a cirurgia com internação hospitalar'', esclarece.
As cirurgias em vasos de pequeno calibre, sem comprometimento de safena, de caráter eminentemente estético, podem ser feitas em consultórios. ''A pessoa volta para casa dirigindo e deve repousar de 24 a 48 horas antes de voltar às atividades normais'', diz o médico. Para os vasinhos pequenos, avermelhados, com aspecto de aranhas vasculares, a indicação é a escleroterapia (aplicações com agulha). De acordo com Bille, apesar de o laser ter sido anunciado como substituto das agulhas, ele não demonstrou, em cerca de uma década de uso, ser mais eficiente.
''O problema é que ainda não existe um laser seletivo, que queime somente o vaso e não a pele. A técnica é perfeita para os vasos superficiais da face e das pernas em pessoas de pele clara. Em vasos mais profundos, é preciso aumentar muito a potência. E quanto mais escura, mais energia a pele capta e maior é o risco de manchas'', explica o angiologista, esclarecendo que a sessão de laser custa de 10 a 15 vezes mais do que a de escleroterapia convencional, além de o tratamento ser mais prolongado e não totalmente indolor.
A maior novidade na área, segundo o cirurgião, é a crioescleroterapia (uma evolução da escleroterapia convencional, que usa uma fonte de CO2). Ao pesquisar novas formas de tratar varizes no início da década de 90, o espanhol Ripoll Sanchez descobriu que, ao congelar o líquido antes de aplicá-lo na veia, consegue-se potencializar o efeito do remédio. Em tese defendida pela Unicamp, o médico brasileiro Miguel Francischelli comprovou a eficácia do tratamento. Comparada à escleroterapia convencional, a crioesclerose diminui o tempo do tratamento pela metade, além de diminuir a sensação de dor durante as aplicações e a incidência de hematomas.
Os resultados, entretanto, não são eternos. Segundo o Bille, para prolongar o efeito e garantir pernas lisinhas para sempre o ideal é fazer manutenção anual antes do verão, pois a tendência genética, associada aos fatores de risco, está constantemente contribuindo para o surgimento de novos vasinhos.

mockup