Na dose certa
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de março de 2006
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
Ver uma criança doente é sempre difícil, pela fragilidade dos pequenos e facilidade de qualquer doença se tornar algo mais sério. Até os tratamentos parecem mais penosos e doloridos quando se trata de pequenos pacientes. Criança, geralmente, tem medo de injeção, não gosta de tomar remédio e fica muito impacientes quando internada.
Além de todo o desconforto que um problema de saúde traz, para as crianças ainda existe um grande risco de a medicação ser usada de maneira incorreta. ''A dosagem, a diluição e a administração de remédios em crianças menores de dez anos é algo pouco estudado por profissionais da saúde. Médicos, enfermeiros e auxiliares, muitas vezes, não sabem os cuidados necessários para evitar um problema maior'', alerta a enfermeira e professora de saúde da criança e do adolescente da UEL, Rosângela Aparecida Pimenta Ferrari.
Depois de realizar um curso para se especializar em internação domiciliar, Rosângela fez uma parceria com professora Christine Baccarat de Godoy Martins e, juntas, organizaram o livro Medicação Infantil Uma Abordagem Multiprofissional. A intenção era ajudar profissionais a entenderem como o tratamento com crianças deve ser diferenciado. ''É um livro voltado para a comunidade científica, mas traz questões interessantes para a população em geral, como formas de administrar a medicação sem causar traumas (veja box) e muita informação didática e prática'', comenta Christine.
''Os problemas com medicamentos dados às crianças não acontecem só em casa, quando a mãe resolve dar um remédio sem receita. Por falta de informação, os erros também acontecem em hospitais e consultórios, por falta de informação, até porque as bulas não esclarecem direito como eles devem ser usados. O peso e a idade de cada criança devem ser levados em conta e a maioria das bulas considera a faixa etária até os dez anos de maneira igual'', afirma Rosângela.
Ela diz que as infecções e intoxicações são os problemas mais comuns quando ocorre uma superdosagem. ''E não precisa ser um medicamento forte para causar uma reação. A maioria dos problemas acontece com pacientes que ingeriram remédios para dor e febre. O corpo da criança não consegue eliminar os restos da substância que foi dada em excesso. Até os fitoterápicos podem ser perigosos'', explica.
Compostos mais fortes, como antialérgicos, antibióticos e cardiotônicos devem ser usados com mais cuidado ainda, segundo a enfermeira, uma vez quue causam reações mais sérias. ''Esses medicamentos podem provocar taquicardia e parada respiratória. Os antibióticos, quando usados de forma errada, podem não fazem efeito ou até pioram o quadro clínico'', alerta.
Os primeiros sintomas de que o medicamento não foi usado corretamente, de acordo com Rosângela, são sudorese, respiração acelerada, coração disparado e sonolência. ''Se a criança está em casa e apresenta algum desses sintomas, é importante levá-la ao hospital'', ensina.
Os medicamentos de via oral são os mais perigosos, uma vez que podem ser tomados facilmente em casa, sem acompanhamento de nenhum profissional. Mas as injeções, pomadas e inaladores também devem ser usados com cautela. ''As injeções intravenosas têm efeito imediato e às vezes não há tempo para sanar o problema. As pomadas geralmente apresentam problemas locais e os inaladores podem causar taquicardia e deixar de fazer efeito'', afirma.
Para os pais as dicas são de nunca medicar os filhos sem prescrição médica, não trocar remédios receitados por similares existentes em casa ou alterar a dose recomendada pelo médico. ''Principalmente em crianças até três anos de idade, o risco é muito grande. E os cuidados devem continuar para aqueles que têm menos de dez anos também.''
Medicação: como preparar a criança
Entre 0 e 1 ano de idade
- Limite o número de pessoas estranhas no local
- Utilize medidas de tranqüilização (exemplo: falar suavemente)
- Acaricie e pegue a criança no colo antes, durante e depois do procedimento
Entre 1 e 3 anos
- Explique para a criança o que ela irá ouvir, sentir e perceber, quanto ao cheiro e gosto dos remédios
- Diga que ela pode chorar e gritar para expressar seu desconforto
- Use uma abordagem firme e direta
- Ignore o mau humor
- Use técnicas de distração (exemplo: cantar uma canção com ela)
- Faça a contenção mínima necessária e adequada
- Mantenha objetos ameaçadores longe da visão da criança
- Forneça uma orientação de cada vez
- Estimule a independência, permita escolhas sempre que possível (exemplo: Você quer o remédio com ou sem açúcar?)
- Permita que a criança participe nos cuidados e ajude no que for possível, enfatizando a necessidade de sua cooperação
Idade pré-escolar
- Encoraje a criança a verbalizar suas idéias e sentimentos
- Demonstre o uso dos equipamentos
- Afirme diretamente que os procedimentos não são uma forma de punição
- Envolva a criança nos cuidados sempre que possível
- Forneça opções sempre que possível
- Nunca recrimine a criança por falta de cooperação
Serviço O livro Medicação infantil Uma Abordagem Multiprofissional será lançado hoje, 31 de março, pela Editora da UEL (Eduel), às 17 horas, no Anfiteatro do HU.


