Na dança da igualdade
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quinta-feira, 31 de maio de 2007
Herika Fondazzi<br> Reportagem Local 
O balé, com toda a sua graça e pompa, é parte do sonho de oito entre dez meninas. Mas para uma boa parcela delas os pas-de-deux e plié ficam apenas no imaginário. São meninas que não têm condições financeiras de pagar as mensalidades, comprar as roupas e confeccionar as fantasias dos espetáculos.
Na escola Artes Danças e Mimos, muitas delas recebem a oportunidade de transformar o sonho em realidade. Todos os anos a escola, que funciona nos clubes Country e Arel de Londrina, seleciona novas alunas que não pagam nada para aprender a ser bailarinas graciosas. ''Essas alunas recebem o uniforme, os figurinos das apresentações e as mensalidades gratuitamente. Temos empresas que colaboram e também trabalhamos para conseguir as coisas'', diz a professora de balé e diretora da escola, Ery Cláudia Abujamra.
A idéia de receber alunas bolsistas, segundo ela, surgiu das próprias alunas da escola, que se solidarizavam ao ver o desejo das meninas em aprender a dança. ''Quando fazíamos as apresentações de final de ano, muitas alunas chamavam as filhas de empregados para assistir e viam o interesse delas. Mas balé é algo caro. Uma sapatilha de ponta custa cerca de R$ 80. Resolvemos então montar um espetáculo com material reciclado para arrecadar dinheiro e ajudar algumas alunas de baixa renda'', conta.
O projeto, que ganhou o nome de ''Nossa bandeira é o amor'' está na quinta edição e consegue contemplar cerca de cinco alunas por ano. ''Para ser aceita é preciso ter entre 3 e 15 anos e comprovar a necessidade da bolsa. Geralmente as bolsistas são meninas indicadas por alguma aluna pagante ou bolsista também. Mas fazemos entrevistas com a menina e com os pais para verificar se realmente existe o desejo de aprender e a necessidade financeira'', garante Ery Cláudia.
Além das aulas de dança, as meninas também têm oficinas de costura, arte, vitrine e etiqueta. ''Muitas pessoas acham que a dança não é uma garantia de futuro para essas meninas por ser um mercado difícil, mas elas podem trabalhar em várias áreas. O balé também trabalha a auto-estima, a inibição, o respeito pelo corpo, a disciplina e persistência. Os pais dizem que as filhas melhoram na escola e em casa depois que começam o balé'', afirma.
O funcionário público Luiz Carlos da Silva, 44 anos, é pai da aluna Dhebora, de 11 anos, e confirma o que diz a professora. ''A Dhebora era tão tímida que estávamos até pensando em procurar um psicólogo. Agora a gente tem que falar para ela se segurar um pouco'', diz. ''Eu gosto muito de balé. A dança é tudo para mim'', completa a menina, que tem aulas há 4 anos.
Já a estudante Caroline Telles, 9 anos, aluna da escola há 5, sempre teve o sonho de ser bailarina. ''Desde pequena ela ficava em casa imitando os passos que via na televisão. Vai ser um orgulho para mim quando ela se formar'', comenta o pai da menina, Pedro Telles, 47 anos. ''Quero ser profissional de balé'', garante ela.
Para garantir a igualdade entre as alunas, a professora diz que não se comenta quem são as bolsistas e quem são as pagantes. ''Preferimos deixar assim para que elas sejam tratadas e se tratem de maneira igual. Não aceitamos as meninas por caridade, mas pela troca que todos fazemos. Acho que quem ganha mais com isso são as alunas pagantes, que aprendem a evitar o consumismo e o preconceito. A relação entre todas é muito boa sem que elas saibam quem paga e quem não paga'', afirma.
''Desde pequena eu queria fazer balé e gosto muito de vir aqui. Nunca vi nenhum problema entre as alunas, somos todas amigas'', garante Bruna Pereira de Almeida, 11 anos, aluna desde os seis. ''As professoras e todas as colegas são muito legais. Às vezes dá preguiça de vir para a aula, mas depois lembro de como é bom e me animo'', completa Drieli Cristina Camargo, 14 anos, aluna há cinco anos.
As aulas acontecem duas vezes por semana e duram uma hora e meia. Existem turmas em vários horários e as alunas bolsistas, assim como as pagantes, precisam respeitar certas regras. ''Elas podem ser dispensadas se começarem a faltar muito, desrespeitarem as colegas e professoras ou cometerem alguma falta grave. Isso também faz parte da formação da bailarina'', explica Ery Cláudia. ''Adoro estudar balé e faço tudo certo para continuar nas aulas e ser profissional'', diz a aluna Graziele Cristina do Carmo, 11 anos.
Serviço Para ajudar o projeto ''Nossa bandeira é o amor'' os telefones são (43) 3327-4741, ramal 211 ou (43) 3315-3425.


