Na contramão da natureza
Na contramão da natureza
A bissexualidade existe desde a antiguidade, mas os conflitos e as dúvidas em relação a essa questão ainda são grandes
Jossânia Navolar
Mário Cesar
Para a psicóloga Sonia Vaz, o personagem da novela é o estereótipo de um homem que não foi feliz na primeira parte da sua vidaO personagem Rafael da novelaPor Amor, da rede Globo, vive o conflito do homem dividido entre uma imagem que construiu ao longo da primeira metade de sua vida e a de um homem que se redescobriu num amor homossexual. O assunto é polêmico e gera controvérsias na vida real por vários aspectos. Tanto pela questão da homossexualidade em si, quanto pela decisão que envolve, ou seja, largar ou não a família em função da sexualidade pura e simples.
Para algumas pessoas, a atitude de Rafael requer coragem de assumir uma questão que talvez tenha sido negligenciada ao longo do tempo. Para outros, a atitude é no mínimo complicada porque envolve terceiros, provocando sofrimento e constrangimentos.
A professora Ana Moscogliato, 27 anos, acredita que quem vive esse problema precisa discuti-lo com a família toda. Se ela estivesse numa situação como essa, Ana acredita que pediria ao pai para que procurasse ajuda, antes de qualquer coisa. Depois, a decisão de se separar ou não caberia a ele e a minha mãe. Mas acho que tudo deveria ser muito bem pensado, diz.
Ana acredita que uma descoberta dessas é sempre difícil, mas pode ser melhor assimilada quando os filhos são adultos. Já quando se tem filhos pequenos ou adolescentes, os conflitos podem ser ainda maiores, afirma. O comerciante Rodrigo Kappaz, 23 anos, concorda: Eu não aceito essa de mulher com mulher, homem com homem. Se meu pai fosse bissexual ou homossexual, seria uma decepção muito grande. No entanto, só me restaria deixar que ele seguisse sua vida e eu a minha. Acredito que para uma pessoa que passe por uma situação como a desse personagem da novela, em que é preciso escolher entre o amante e a família, a ponderação deve ser grande. O mais sensato seria optar pela família.
MáscarasPara a psicóloga Sônia Regina Lunardon Vaz, a questão levantada pela novela vai muito além da homossexualidade em si. O fato é que a sexualidade é um terreno arenoso ainda na vida das pessoas. Não importa se hetero, homo ou bissexual, se mais ou menos explícitos. Os conflitos, as dúvidas e a insegurança em relação a essas questões ainda são grandes. Fazer piadinhas e até aparentar uma certa liberalidade sobre o assunto não significa, necessariamente, estar resolvido sobre a questão. Ela é muito mais complexa do que se imagina. E essa complexidade se revela nas expressões ou negações que cada indivíduo faz.
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A relação de Rafael e Alex, na novela Por Amor, põe em risco o casamento dele com VírginiaAqui é bom lembrar que o hermafrodita, para Carl Jung, médico e pesquisador do início desse século, é um dos arquétipos (símbolos do inconsciente) humanos. Mais precisamente, o hermafrodita seria o arquétipo do homem original. Neste aspecto, todo indivíduo é teoricamente bissexual. O que o torna, na prática, hetero, homo ou bissexual, algumas vezes, é pura opção. No entanto, geralmente diz respeito a uma complexidade de fatores que implicam, entre outras coisas, cultura, educação e identificação com a sombra (soma de todos os elementos psíquicos pessoais e coletivos não vividos, que formam as personalidades parciais) ou com a persona (imagem que vendemos aos outros).
Prisão Para a psicóloga, o personagem Rafael, é o típico homem que trabalhou a vida inteira, montou uma estrutura de vida, respondendo positivamente à sociedade e, quando se aposentou, resolveu aposentar-se de muitas coisas mais, inclusive do que definia como relação sexual. Tentando fazer uma análise rápida desse personagem, eu diria que na primeira metade da vida, ele construiu uma imagem para a sociedade do que achava ideal e assumiu plenamente esse papel. Na segunda metade da vida, ele está se deixando dominar por aspectos da sua personalidade, dos quais ainda não tem total consciência, avalia Sônia.
Segundo ela, tanto num caso como noutro ele está preso. O personagem é um estereótipo de um homem que não foi feliz na primeira parte da sua vida e, provavelmente, se fosse real, não seria na segunda. Na primeira, porque viveu de acordo com os padrões externos estabelecidos, sem se conhecer, sem questionar realmente o que desejava. Viveu representando um papel para o mundo. Na segunda, porque viveria o outro lado de uma mesma moeda: uma espécie de revanche com o que foi. E sem consciência do que se realmente é e deseja, o homem não vive, segue apenas um script. Seja em prol dos padrões estabelecidos, seja contra. Nunca por opção.
Satisfação E a família como fica nessa história toda? Obviamente, o sofrimento é grande, tanto por parte da esposa quanto dos filhos. E envolvem cobranças internas e sociais. Não só afetivas mas, principalmente, a respeito do que se considera certo e errado. Como assumir para um grupo social que o meu marido ou o meu pai de repente resolveu assumir uma ignorada homo ou bissexualidade?
Numa situação dessas, todos os membros da família necessitariam de terapia. Eles também viveram muito tempo uma vida inverídica. Na vida real, seria impossível que não houvesse sinais, mesmo inconscientes, de que os conflitos internos estavam latentes, prontos para eclodirem. Por que a mulher nunca enxergou nada? É um ponto importantíssimo a ser considerado.
Satisfação No caso dos filhos, a figura masculina representada pelo pai ficou fragilizada, em função da mensagem ambígua que ele passou. Ao transportar a história do personagem para exemplos da vida real, Sônia acredita que, numa terapia, o próprio Rafael poderia descobrir que não é homossexual ou bissexual. O que não significaria, necessariamente, continuar a viver com a família, mantendo a história que construiu.
Isso tudo porque, para muitos estudiosos do comportamento humano, as pessoas não nascem, obrigatoriamente, hetero ou homossexuais. Esses conceitos podem ser construídos, e confundidos também, ao longo da história de cada indivíduo. Outros pontos precisam ser considerados em casos específicos como o do Rafael, em que o indivíduo se vê dividido entre um ideal de vida construído e uma oportunidade de virada total. Entre eles está o grau de satisfação com a própria vida e o de consciência que o indivíduo tem disso tudo e de si próprio.





