A música pode, sim, ser ensinada e aprendida em disciplinas tão diferentes quanto geografia e matemática. Essa é a opinião da doutora em Educação Musical, Jusamara Souza, que está na cidade participando do 21º Festival de Música de Londrina. Na programação, ela ministrou os cursos ‘‘Música na Infância’’ e ‘‘Música, Mídia e Juventude’’ para professores de educação infantil, ensino fundamental e médio.
Preocupada com o ensino da música nas escolas, que apesar de regulamentado pelo Ministério de Educação e Cultura (MEC) sofre com a carência de profissionais especializados, Jusamara traz uma abordagem interdisciplinar para o ensino da música. De acordo com ela, as concepções didáticas contemporâneas do ensino da música passam a contemplar todas as dimensões do fazer musical, desde a recepção (ouvir música), reprodução (executar um instrumento e/ou cantar), criação (composição), informação sobre música (culturas musicais e história) até a integração com outras áreas do conhecimento.
‘‘A própria vivência do tempo e a percepção espacial, conceitos que a matemática trabalha, podem ser estudados através da música, já que ela nada mais é que uma sucessão de eventos sonoros. Geografia, história e português também podem ser trabalhados a partir dos textos (letras) das canções’’, explica.
Fazer música A música na infância, de acordo com a professora, é vivenciada de maneira integrada – som, ritmo, canto, dança e imagens fazem parte da música para a criança. ‘‘Daí a importância de se levar a sério e se perguntar porque as crianças gostam tanto de músicas ‘‘comerciais’’, muito criticadas pelos pais, como por exemplo, o ‘‘Bonde do Tigrão’’. A música na mídia é um fenômeno muito complexo, não é mais um produto apenas sonoro, tem uma linguagem polissêmica, onde dança, movimento e imagens se encontram. Acredito que o que mais interessa às crianças, neste tipo de música, é o ritmo, a dança e a possibilidade de se integrar na coletividade’’, afirma.
Para a professora, a aula tradicional de música, onde a recepção é privilegiada, tende a desaparecer. ‘‘As crianças querem hoje um outro tipo de aula, não basta ouvir, é preciso se fazer música também’’, afirma. E nessa hora, segundo ela, a criatividade é fundamental, principalmente em função das condições materiais e financeiras de cada escola. ‘‘Se não é possível cada aluno ter um flauta doce, por exemplo, ou teclado, violão e violino, que são projetos mais caros, existe a possibilidade de fabricar instrumentos de percussão, desde chocalhos até tambores’’, sugere.
Iniciação O conhecimento sobre o grupo em que atua também é fundamental para o professor. ‘‘A música agora é no plural, então, é importante que o professor conheça o que é fazer música hoje, que esteja atualizado, inclusive no repertório. Pode parecer incrível mas, dependendo do lugar onde vive, a criança não conhece Gilberto Gil e Milton Nascimento, por exemplo’’, afirma. Para os pais, a professora recomenda: ‘‘A iniciação musical pode começar cedo, a criança não precisa saber ler nem escrever para aprender música. É interessante que a criança passe por vários instrumentos até que se interesse por algum, até mesmo para os pais se decidirem pelo investimento’’, explica.
Se na infância, a música é importante e vivenciada de maneira integrada, na adolescência ela vai ser fundamental até para pais, professores, e os próprios jovens entenderem seu comportamento. ‘‘A música, de maneira geral, ajuda na construção do ser humano, no sentido de estar e ser no mundo. O adolescente está dizendo muito do que é ou do que gostaria de ser quando escolhe a música com que se identifica. Independentemente da tribo, mauricinhos, patricinhas, surfistas ou funkeiros, ou da classe social, a música está sempre presente’’, diz Jusamara.

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