Quando casar para ser dona de casa era aspiração de boa parte das mulheres, não tinha noiva que dispensasse chá-de-cozinha, ou de panela. Mas, numa época em que homens também vestem avental e a cozinha virou espaço do casal, a moda é reunir as amigas dias antes do casamento para o chá-de-lingerie. E trocar paus de macarrão, tábuas de carne e tigelas por calcinhas, sutiãs, camisolas. Restrita até um ou dois anos a poucas mulheres, que não aceitavam nem sequer dar entrevistas, a mania já faz a alegria de lojas de lingerie. E é mais um reflexo, segundo especialistas, da mudança do papel da mulher na sociedade.
''Troquei (o chá-de-cozinha) por dois motivos: já tenho apartamento montado e acho muito antiquado, ultrapassado. De lingerie é mais moderno e animado'', diz a administradora de empresas Flávia Gurgel, de 26 anos. No dia 10, uma sexta-feira, um dia antes da despedida de solteira, ela juntou 50 amigas para um chá-de-lingerie regado a pizza, pagode, funk e até um telegrama animado de um amante fictício, representado por um ator. Foi o único homem da festa o noivo, Leonardo, e os amigos haviam viajado para um sítio. ''Foi ótimo. Muito mais legal do que eu esperava. Todo mundo se surpreendeu e ganhei o que pedi. Camisola, baby-doll, nécessaire, calcinhas básicas e também de renda, mais picantes'', conta Flávia, que deixou listas do que gostaria de ganhar nas lojas Jogê e Any Any.
Peças mais sensuais são justamente as mais procuradas, segundo as grifes de lingerie. As noivas fazem a lista, as lojas fornecem os convites e dão sachês perfumados, saquinhos de chá ou outros brindes para serem distribuídos como lembrancinhas. Algumas, como a Fruit de La Passion, dão descontos de 10% para clientes que comprarem algo da ''wish list'' lista de desejos da noiva. Há casos em que amigas ou parentes organizam a festa sem as noivas saberem. ''Descobrimos que estavam fazendo nos Estados Unidos e começamos. E o crescimento do ano passado para cá está surpreendente. Quase todo dia aparece uma noiva'', diz o diretor da Any Any, Viktor Ljubtschenko. Nas 26 lojas da empresa, espalhadas por São Paulo, Brasília, Rio, Campinas e São José dos Campos, são 20 listas por mês em média oito só em Brasília.
Nova geração- ''As mulheres estão se divertindo. Acabou aquela coisa politicamente imposta como correta. Elas reúnem as amigas, querem emoções novas, há uma mudança de comportamento'', diz a estilista da Jogê, Ângela Coelho da Fonseca. A rede de lojas, que ajudou Carla em seu chá, faz outros 12 por mês quando começou, há pouco mais de um ano, eram cinco. O perfil principal é o que ela chama de ''mulheres da nova geração''. Mas sobram mães, tias e avós entre convidados. ''As mães curtem e as listas de convidadas incluem tias do interior a amigas do escritório.'' Já os presentes não se restringem aos básicos conjuntinhos brancos ou chocolate. ''Hoje a mulher se permite muita coisa. Ela é mais colorida e ousada.''
Há noivas que já fazem o chá até na presença da ala masculina da família. Foi o caso da estudante de direito Cláudia Wertheimer, de 22 anos, que optou por um chá bar. Juntou no mesmo salão suas amigas e os amigos do marido o advogado Dalizio, de 30 anos. Ele ganhou bebidas; ela, lingerie. ''Não tenho interesse em ser dona de casa nem o hábito de comprar lingerie. Então resolvi unir o útil ao agradável'', conta ela. Com tanto homem assistindo, porém, não deu para escapar da vergonha. ''Meu pai estava presente e meu noivo fazia comentários a cada pacote que eu abria, falava da qualidade, agradecia pelo bom gosto.''
Na avaliação do professor da Faculdade de Psicologia da PUC Antonio Carlos Amador Pereira, o chá envolve dois símbolos: a lingerie e sua relação com a sexualidade feminina e o papel da mulher. ''Lingerie antes era algo para ser escondido. Agora é roupa. Já a cozinha, por anos associada à dona de casa reclusa, agora pode ser espaço de prazer.''
Despedida de solteira- Além do chá de lingerie em que as mulheres preferem ganhar lingeries mais sensuais, fantasias, óleos para massagens, jogos para esquentar a relação (em vez de itens para casa) , hoje algumas meninas estão optando por um novo tipo de despedida de solteira. Em vez de contratar um Go-go boy, elas contratam uma sex trainer para dar dicas capazes de, no mínimo, abastecer a libido.
A proposta é conhecer tudo o que existe em uma sex shop, saber como funciona e depois receber uma aula de strip, com muito humor. Assim, todas as amigas aproveitam a festa e aprendem uns truques para apimentar as relações.
A administradora Juliana Fernandes conta que reuniu 15 amigas em uma despedida de solteira com uma sex trainer e se divertiu como nunca: ''As meninas sentaram em círculo e ela (a sex trainer Fátima Moura) apresentou as lingeries, mostrou vários objetos, vibradores gigantes e óleos que esquentavam o corpo, gerando todos os tipos de comentários possíveis; foi a coisa mais divertida que eu já fiz na minha vida.''
Depois de dar dicas sobre timidez, de como se comportar, andar ou falar, a sex trainer começa a aula de strip-tease. Juliana contou que era muito divertido ver as amigas mais travadas se soltando e rindo muito. Como se fosse uma aula de aeróbica, ela monta uma coreografia e todas a imitam e quando acaba a coreografia a noiva tem de ir até o centro da roda e apresentar a dança até as amigas darem nota 10.
Quem não curte essa parafernália de brinquedinhos pode até torcer o nariz, mas constrangimento já não é pretexto para ignorar as opções disponíveis nesse métier.

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