Mulheres querem reconquistar a cozinha
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quinta-feira, 16 de outubro de 2003
Luciana Garbin 
Muitas mulheres acabam de entrar numa nova luta: reconquistar a cozinha. Em várias casas, o antigo domínio feminino passou para mãos masculinas. Ou porque as mulheres trabalham mais que os maridos ou porque os homens são mais afeitos e mais bem-sucedidos com panelas e talheres. ''Eu me viro superbem na cozinha'', brinca a publicitária Fernanda Romano, de 28 anos. ''Pego um macarrão, coloco pra cozinhar, abro uma latinha de tomates pelados e jogo na panela ao lado. Junto um monte de coisas no tomate e pronto!''
Em relação aos sanduíches e assados, também se considera ótima. ''Pão, peito de peru ou rosbife, queijinho, alface e chutney. E sai um sanduba esperto, preparado pela chefe Fefa. Carne cozida ou assada de qualquer maneira? Tem um peito de pato maravilhoso no restaurante do outro lado da rua. Derrete na boca. E não suja panela...'' Enquanto isso, o marido, Bob Wollheim, empresário de 41 anos, dá um baile. ''Ele pega peixe e faz um escabeche e eu nem sei o que é isso.''
Inconformada, um dia a publicitária decidiu virar a mesa e convidou quatro amigos para jantar. Munida de um livro de receitas, escolheu os pratos mais simples para não decepcionar. Mas os resultados deixaram a desejar.
''Ficou um horror'', lamenta, rindo. ''Os bolinhos de batata saíram meio crus, quase um purê, os legumes no vapor acabaram moles e aguados e o filé de peixe, sem sal. Também achei que tinha menos comida do que deveria e fiquei com a sensação de que as pessoas saíram com fome.'' Isso foi no início do ano. Há algum tempo, descobriu uma casa de massas. ''Depois disso, minha vida se resolveu.''
Cursos Para recuperar terreno, muitas mulheres apelam para cursos de culinária ou aulas com a sogra. A publicitária Fernanda Campos, de 27 anos, usou as duas estratégias, antes de casar com o administrador de empresas Fábio Pini Nader, de 30, um descendente de italianos e libaneses. ''Ele vem de uma família onde a avó monta dez pratos diferentes para um jantar. Aos 18 anos, já fazia os churrascos para a molecada e sempre colocou a mão na massa'', comenta. ''Eu nunca soube fazer arroz, muito menos feijão e sempre me virei com comida congelada. Um tempo atrás, minha mãe estava de férias, fui fazer compras e senti uma dificuldade imensa.''
Sem nunca ter cozinhado, Fernanda assumiu aulas semanais com a sogra. ''Comprei ingredientes, fui para a casa dela e fiquei olhando como se preparam os pratos. Depois, guardei as receitas numa pasta. Fiz também uma sessão com a avó dele e um curso de culinária trivial para o dia-a-dia: arroz, feijão, bife, torta de legumes.'' Para ela, o que desencadeou a troca de poder na cozinha foi o fato de a mulher trabalhar fora, além de o homem gostar de comer bem. ''Ainda tem os que não levantam da cadeira, mas outros não têm mais a dona de casa esperando com comida quente. Eles tiveram de acompanhar a evolução.''
Quem já acompanha o vaivém na cozinha há muito tempo, estranha a tendência. ''Tem o ditado de que as mulheres seguram os homens pelo estômago, mas não é bem isso. Elas estão nas empresas e eles, que eram muito machões, iam trabalhar e queriam prato pronto ao chegar. Hoje estão servindo a comida. Não estou entendendo bem essa história'', diz a chefe de cozinha Benedita Ricardo de Oliveira, que ensina gastronomia na FMU, na Unibero, no Senac e no Ateliê Gourmand e tem uma linha de pratos regionais congelados na Casa Santa Luzia.
Aos 69 anos, ela também dá aulas no curso de cozinha básica para noivas que fazem lista de casamento na Suxxar e se surpreendeu com a procura. A princípio, o curso estava previsto para um único dia, para 12 noivas. Logo, apareceram 20 e ele se tornou mensal. ''Hoje, elas vêm aprender pelo prazer de cozinhar, não por obrigação. Os homens deram início a esse movimento, ganharam seu espaço nos fogões e elas não querem fazer feio.''
Instruções Mariana Asdourian Coelho, de 27 anos, aprontou seu primeiro jantar com as receitas de arroz com cachaça, bife e batata de forno que aprendeu no curso de Benê. ''Antes da aula, eu era completamente ignorante na cozinha, até para assar uma lasanha congelada precisava ficar lendo as instruções, enquanto meu marido sempre se virou. Ele chega do trabalho e faz comida, sabe limpar carne, frango, preparar uma massa.''
Casada com o arquiteto Sidney Tadeu Coelho Júnior, de 30 anos, ela acha que, além da saída para o mercado de trabalho, foi fundamental o maior número de divórcios. ''Meu marido é filho de pais separados e foi obrigado a se virar. Já eu, com uma família estruturada, empregadas e mil atividades, tinha tempo zero para prendas domésticas.''
Agora, lança mão de um manual de donas de casa de 1975, o Sebastiana Quebra-Galhos, de Nenzinha Machado Salles. Enquanto isso, os homens se divertem. ''Ao contrário do que dizem, os homens são muito intuitivos e criativos e isso se concretiza na cozinha.... E, quanto mais eles se despem de preconceitos, mais sucesso fazem'', afirma Bob Wollheim.


