Além das mudanças no cotidiano feminino, a pesquisa ''Mulheres do Brasil'' revelou que o acúmulo de atividades das mulheres que moram em grandes cidades e a ausência da figura masculina nos processos de execução das tarefas, está provocando a deterioração das relações familiares. O estudo foi iniciado em abril de 2001, com mais de 400 mulheres, entrevistadas em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Brasília, Recife e Ribeirão Preto.
A análise de um dia comum da mulher urbana levou à constatação de que ela desenvolve, em algumas poucas horas, mais de 50 ações. São atividades diversas, realizadas muitas vezes concomitantemente. À noite, as tarefas são reduzidas, mas não cessam. Os finais de semana figuram como oportunidade de realizar, com mais calma, o trabalho doméstico, não tão bem-feito durante a semana, anulando assim os momentos de descanso e relaxamento.
O encarecimento da mão-de-obra de uma empregada fixa faz com que as obrigações femininas se intensifiquem ainda mais. A estafa ocasionada pelo excesso de atividades, a falta de oportunidades para compartilhar, bem como a escassez de tempo e ausência da figura masculina, promovem a cada dia a deterioração das relações humanas, o afastamento dos membros da família e o individualismo.
Os rituais familiares vão perdendo força e significado. Os jantares, os almoços de domingo, as receitas da vovó, as reuniões entre amigas para comemorar uma data importante para o grupo dão espaço para a realização operacional de tarefas.
Preparar o almoço, colocar roupas na máquina de lavar ou fazer ginástica, são atividades que a mulher encaixa no horário entre 6 e 8 horas da manhã. Os serviços bancários são realizados na hora do almoço e as compras do supermercado são feitas na saída do trabalho. Chegando em casa, a mulher providencia o preparo do jantar, além de cuidar de atividades como passar roupas e fazer a limpeza da casa. Tempo livre? A cada dia vai diminuindo a possibilidade de usufruir dele.
A figura masculina não consta dos discursos das mulheres a respeito do cotidiano. O homem não está inserido nos processos de execução de tarefas para que os objetivos comuns dentro de casa sejam alcançados. O trabalho doméstico desenvolvido pelos homens, não é incorporado como força de trabalho privado pela própria mulher. Em seu processo de decisão de como, quando e por que fazer as atividades do lar, a mulher não dá espaço para que o ''jeito masculino de ser'' se manifeste.
As mulheres urbanas, segundo a pesquisa, já demonstram em algumas atitudes a busca de um estilo diferenciado de vida, com mais qualidade. Diminuir distâncias entre casa e escola dos filhos, atividades extra-escolares, ginástica, supermercado e local de trabalho, são alternativas viáveis para dispor de mais tempo livre.
O tempo que resta não é preenchido com outras atividades, mas com horas livres para decidir o que fazer, dependendo do dia e da vontade. Elas buscam intensificar os momentos de relacionamento humano, tanto com membros da família como com amizades antigas e colegas de trabalho. (C.G.)

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