Dentre os vários personagens ‘‘reais’’, típicos do autor Manoel Carlos, de Mulheres Apaixonadas, a professora Santana, vivida pela atriz Vera Holtz, é uma das que mais tem comovido o telespectador. O drama da personagem, que sofre de alcoolismo, é conhecido de vários lares brasileiros e vem afetando cada vez mais mulheres no mundo todo. Estudos mostram que há 25 anos a relação entre homens e mulheres alcoólatras era de 1 para 10. Atualmente, o número de mulheres dependentes do álcool é de um para dois homens.
  Segundo o psiquiatra Luiz Alves Nunes, de Londrina, o motivo do aumento de casos de mulheres alcoólatras se deve à liberação feminina ocorrida nas últimas décadas. ‘‘A mulher está bebendo mais, fumando mais. Ela conseguiu algumas vantagens em relação ao homem e, com isso, adquiriu alguns defeitos dele também’’, comenta. Mas a igualdade ainda não é total para homens e mulheres no campo da bebida. O preconceito que a mulher alcoólatra sofre na sociedade é muito maior do que o sofrido pelo homem. Um homem bêbado em um bar é visto como divertido, já a mulher é vista como imoral. ‘‘O ideal é que o álcool fosse feio tanto para homens como para mulheres, mas são elas que sofrem mais’’, completa.
Causas Os que leva as mulheres a beber são os mesmos notivos dos homens – psicológicos, sociais, religiosos ou genéticos. Pessoas que sofrem de depressão, síndrome do pânico, que são muito tímidas ou que passam por momentos de angústia e tristeza podem encontrar na bebida um alívio. Nunes explica que o álcool funciona no organismo como um estimulante artificial, causando uma sensação de felicidade e excitação temporárias. ‘‘Como a alegria é passageira, a pessoa volta a beber e assim começa o vício’’, afirma.
  A questão social também é responsável pela dependência. Em muitas comunidades e famílias, o álcool faz parte do cotidiano e das celebrações. A criança vê o álcool como algo comum e aceito. Nessas comunidades, o índice de dependência é maior, garante Nunes. A genética também é causadora de problemas relacionados ao álcool. Os médicos não sabem ao certo qual seria a causa real, mas filhos de pais alcoólatras têm muito mais chance de desenvolver a doença. Já o álcool utilizado em celebrações de algumas religiões, ao contrário do que se pode imaginar, não oferece perigo de dependência. ‘‘Nos caso dos judeus, por exemplo, o álcool é bastante consumido, mas as pessoas não desenvolvem o vício, são mais controladas’’, explica.
Dependência Se os motivos para as mulheres beberem são os mesmos, os riscos provocados pela bebida são maiores do que nos homens. Além dos problemas comuns de ambos os sexos, como a cirrose hepática, pancreatite, epilepsia e demência alcoólica entre outros, a mulher pode ter problemas no ciclo menstrual e afetar o desenvolvimento do feto durante a gravidez. ‘‘O álcool atravessa a parede uterina e afeta diretamente o bebê. As conseqüências podem ser retardo mental leve ou moderado, problemas no septo nasal, fissura labial, desnutrição e microcefalia (cérebro pequeno)’’, alerta o psiquiatra. O alcoolismo é hoje a 4ª  causa de internamento nos hospitais do Brasil – nos anos de 1995, 1996 e 1997 foram gastos aproximadamente R$ 310 milhões com pacientes dependentes do álcool.
  Outra distinção entre o alcoolismo feminino e o masculino são os resultados da dependência. Nunes diz que os homens geralmente sofrem problemas legais, de trânsito e de violência quando estão embriagados, enquanto as mulheres sofrem alterações de humor. ‘‘Pela própria natureza de cada sexo, o homem tende a ser mais guerreiro e violento. Já as mulheres, independente do alcoolismo, têm duas vezes mais chance de desenvolver a depressão – as que bebem aumentam mais ainda esse número’’, esclarece.
  O tratamento de dependentes de álcool do sexo feminino é o mesmo que para os homens. É necessário um acompanhamento psicoterapeutico e a utilização de remédios em casos mais graves, bem como internações de desintoxicação. O índice de recuperação dos pacientes de forma geral é de apenas 30%. A boa notícia é que as mulheres se recuperam melhor da dependência. Mas seja qual for o sexo, o alcoolismo é uma doença que não tem cura definitiva. ‘‘Quem teve problemas de alcoolismo nunca poderá voltar a beber’’, alerta Nunes.

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