Muito falada, pouco compreendida
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quinta-feira, 14 de março de 2002
Celso Mattos 
Em uma cena do filme Tempestade de Gelo, de Ang Lee, um pai que na juventude viveu a revolução sexual dos anos 60 e o movimento hippie na década de 70, tenta conversar com o filho adolescente sobre a normalidade da masturbação. A cena, que se passa no interior do carro, é patética, pois o pai um ex-liberal que se tornou conservador não consegue falar com filho sobre o assunto.
A sexualidade, que é largamente explorada na televisão, no cinema, nas revistas, na internet e nas ruas, dentro de casa continua sendo um tabu. Pais e filhos dificilmente abordam o assunto como deveriam. Para a psicóloga Lucianne Fernandes, especialista em sexualidade humana pelo Instituto H.Hellis de São Paulo, o que falta aos pais é informação, inclusive, sobre a sua própria sexualidade. Muitos pais têm vergonha de sua própria sexualidade, como eles vão dialogar com os filbos sobre um assunto que eles não entendem?, questiona a psicóloga.
Segundo Lucianne Fernandes, muitas vezes, os filhos adolescentes dão sinais sutis aos pais de que gostariam de conversar sobre sexo. Mas os pais não percebem porque estão com a sua própria sexualidade camuflada, e dão graças a Deus que os filhos não toquem nesse assunto para não colocá-los de frente com suas fraquezas, afirma. Existem pais que têm mais vivências sobre sexo do que informação e, o fato de terem vivido a revolução sexual ou terem sido hippies na juventude, nem sempre ajuda alguma coisa porque a sexualidade mudou muito de lá pra cá. Não tínhamos a Aids, por exemplo, lembra.
Lucianne Fernandes conta que uma pequisa que ela realizou em São Paulo, durante seu curso de especialização, revelou que primeiro os jovens procuram tirar suas dúvidas sobre sexo com os amigos, depois com colegas da escola, em terceiro com os professores e, em último lugar, com os pais. Isso está errado, os pais deveriam vir em primeiro lugar, argumenta.
Eu insisto que o erro está na falta de informação dos pais. Eles não sabem lidar com a situação. Alguns tentam ser extremamente liberais e acabam constrangendo o filho. O menino demora no banheiro e o pai grita em tom de brincadeira: tá debulhando o milho. O garoto sai vermelho de vergonha. Não é expondo o filho ao ridículo que vai ajudá-lo em suas dúvidas. Garanto que quando a filha demora no banho, ele não fala desse jeito. Isso não é ser liberal, mas machista, critica.
De acordo com a psicóloga, essa forma jocosa de falar sobre sexo com os filhos só piora as coisas. Na verdade, está se reproduzido o que os meios de comunicação fazem muito bem: tratar a sexualidade de forma estereotipada. Lucianne Fernandes diz que, infelizmente, nossos jovens estão aprendendo sobre sexo através da televisão, da internet e das revistas, que não esclarecem as dúvidas, apenas mostram o assunto, na maioria das vezes, distorcido.
A psicóloga diz ainda que falar sobre sexo em casa não é a filha chegar e dizer: mamãe eu transei ontem ou o filho afirmar: pai estou me masturbando, isso é certo ou errado?. Para Lucianne, é preciso falar sobre sexualidade de forma mais geral, séria e natural, mas sem forçar a barra. Caso contrário, a cena será tão patética quanto a do filme Tempestade de Gelo. O pior é que hoje o que angustia os jovens não é apenas a sua sexualidade, mas também a ditadura da beleza. Se o garoto não tiver bíceps avantajado e a garota, cinturinha de Barbie, a auto-estima fica lá embaixo, destaca.
Eles acham que sem esse padrão de beleza não serão aceitos no grupo, não vão conseguir namorar. Essa exploração do corpo ideal, também reforçada pelos meios de comunicação, está angustiando muito os jovens. Sexo só é bom e bonito quando o homem tem corpo do Paulo Zulu, e a menina, o de Gisele Bundchen. É isso que a televisão impõe de forma impiedosa e cruel aos nossos jovens. É preciso ser feliz com o corpo que se tem, pois sexualidade não tem nada a ver com beleza, afirma a psicóloga.
Sexualidade na terceira idade
Muito se fala sobre a sexualidade na juventude, mas, e na terceira idade? Para a sociedade conservadora, ela simplesmente não existe. Idoso não faz sexo e pronto! Porém, com a reposição hormonal e o surgimento do Viagra, houve uma revolução muito semelhante à do surgimento da pílula anticoncepcional nos anos 60.
Esses dois tratamentos acenderam a chama da sexualidade na terceira idade, trazendo novas perspectivas de vida para as pessoas que acreditavam não ter mais direito de sentir prazer, aponta Lucianne Fernandes. Hoje, as pessoas da terceira idade estão namorando mais, o é que muito positivo e saudável, pois está contribuindo para diminuir a solidão e a depressão, tão comuns nessa etapa da vida, acrescenta.
A sexualidade é para ser praticada enquanto se vive, mas com responsabilidade. Não podemos esquecer que as Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs) existem, não só para os jovens, mas também para os idosos. Por isso, falar abertamente e com seriedade sobre o assunto é fundamental em todas as fases da vida, adverte a psicóloga. (C.M)
Não converso frequentemente com meus pais sobre sexo. Eu falo mais com meu pai e com meu irmão mais velho. Com minha mãe eu não me sinto muito à vontade de falar sobre esse assunto. Mas foi no colégio, nas aulas de Biologia, que mais aprendi sobre sexo e doenças sexualmente transmissíveis. Mas ainda tenho muitas dúvidas sobre sexo. Agora, é com meus amigos que eu mais falo sobre sexo e outras sacanagens.
Marcelo Alencar Preto, 14 anos
Eu converso muito sobre sexo com meu pai, minha mãe e meu irmão mais velho. Tenho total liberdade para falar sobre isso em casa. Mas se eu ficasse mesmo com um garoto, não teria coragem de contar para minha família. Eu acho que meus pais são bem informados sobre sexo e o que eles passam para mim é suficiente, não preciso recorrer a revistas e internet para tirar dúvidas.
Regiane Gomes de Oliveira, 16 anos
Converso mais sobre sexo com minhas amigas do que com meus pais. Tudo o que sei sobre esse assunto eu aprendi um pouco com minha mãe, com minhas amigas e na escola, durante as palestras. Na verdade, não é fácil falar sobre sexo com os pais por mais que eles sejam liberais.
Rachel Alves de Lima, 15 anos
Eu falo mais sobre sexo como meus amigos. Mas também tenho liberdade com meu pai. Um dia ele me perguntou se eu já estava me masturbando, eu disse que sim. Então ele explicou que isso é normal, mas que eu não deveria exagerar, pois podia ficar viciado. Quando tenho dúvidas procuro nas revistas, livros e na internet, além de pedir ajuda aos meus amigos. Agora, com minha mãe eu morro de vergonha.
Arthur Moreira (Bocão), 17 anos
Eu falo mais sobre sexo com meus amigos, mas, às vezes, também converso com meus pais. Também gosto muito de saber sobre sexo na internet e nas revistas. Meu pai nunca perguntou para mim se eu já estou meu masturbando, também nem precisa, né. Tá na cara que sim. Mas não tenho do que reclamar porque meus mais são bastante liberais nesse sentido.
André Inoue, 16 anos


