Celso Mattos
Houve uma época em que ter filhos gêmeos era uma raridade. Mas, nas últimas duas décadas deste século, as gestações múltiplas são cada vez mais frequentes. Dois motivos podem explicar essa mudança genética: o aumento de casais que recorrem aos tratamentos de inseminação artificial e o sucesso crescente dessas técnicas. Hoje, a cada 100 recém-nascidos no mundo, um é feito em laboratório. Mas a grande incidência de gravidez gemelar não diminuiu o interesse e a curiosidade que os gêmeos – principalmente os idênticos – despertam nas pessoas.
A pergunta é sempre a mesma: como é ter um clone natural de você mesmo? Poder, às vezes, fazer aquela troca de identidade e confundir as pessoas? As gêmeas Carolina e Juliana Fescina Papa, 16 anos, sabem muito bem as respostas para essas questões. Muito parecidas, elas já estão acostumadas a ser confundidas uma com a outra. ‘‘Já levei muita bronca de amigos e professores por coisas que a Juliana havia feito’’, confessa Carolina. Mas nesse quesito, elas não devem nada uma a outra porque Juliana também passa pela mesma situação.
Juliana e Carolina dizem que só os pais e os amigos mais íntimos conseguem diferenciá-las. ‘‘Já estamos tão acostumadas a ser confundidas que isso se tornou parte de nossas vidas’’, comenta Juliana. Muito unidas, elas confessam que gostam de ser gêmeas. ‘‘É bom ter alguém tão parecido com você física e emocionalmente’’, afirmam.
Com certeza, a forma natural como Carolina e Juliana encaram o fato de ser gêmeas está na educação que receberam dos pais. A empresária Vera Fescina conta que sempre procurou valorizar a individualidade das filhas. A começar pelos nomes que são bem diferentes. ‘‘Elas sempre estudaram na mesma escola, mas em salas diferentes. Já em termos de roupas e outros objetos, tudo o que uma tem a outra também tem, mas elas usam de acordo com seus próprios critérios’’.
A gravidez gemelar de Vera Fescina é bastante atípica. Ela engravidou jovem, não fez tratamento para ter filhos e não tem caso de gêmeos na família. Para Vera Fescina, a explicação está num pedido que ela fez a Deus e foi atendida. ‘‘Sempre sonhei em ser mãe de gêmeos, mas eu queria que fossem duas meninas. Pedi isso a Deus com muita fé e determinação e fui atendida’’, comenta.
Psicologia Entender a personalidade dos gêmeos continua sendo um desafio também para a psicologia. Desde 1986, a psicóloga e professora da Universidade Estadual de Londrina, Maria Elizabeth Barreto Tavares Viotto vem se dedicando ao assunto, trabalhando com grupos de pais de gêmeos. Ao longo desses anos, ela fez um cadastro de gestações gemelares em Londrina, fundou o ‘‘Núcleo de Estudos de Gêmeos’’ e, agora, publicou o livro ‘‘Conversando sobre Gêmeos’’.
‘‘O livro não é um manual que ensina como os pais devem educar filhos gêmeos, mas sim uma reflexão sobre o fenômeno natural da gemelaridade. A partir do momento em que pais e professores passam a entender esse universo, a angústia e as preocupações diminuem’’, comenta. Segundo a psicóloga, a melhor forma de educar gêmeos é reconhecer e respeitar a individualidade de cada um. ‘‘Achar que as crianças são a mesma pessoa simplesmente porque nasceram no mesmo dia ou porque são fisicamente idênticas é um erro. Esse hábito é extremamente prejudicial ao desenvolvimento porque não permite perceber as dificuldades e os limites de cada um’’.
Singular A psicóloga Maria Elizabeth Viotto recomenda atenção redobrada às famílias que têm um casal de gêmeos e um filho singular. ‘‘Como os gêmeos, geralmente, são muitos unidos, há uma tendência de exclusão do irmão singular. Nesse caso, os pais precisam ter muito jogo de cintura para lidar com a situação. Existem crianças que chegam a criar um irmão gêmeo imaginário para superar a solidão. Meninas, por exemplo, costumam adotar a boneca com sua irmã gêmea’’, esclarece.
Irmãos têm, naturalmente, o hábito de disputar o amor e o carinho dos pais. ‘‘Com gêmeos, que já dividiram o mesmo espaço durante a gestação, isso fica ainda mais evidente. Encarar a situação de forma natural, evitando acentuar uma possível rivalidade, é o melhor caminho para manter saudável o vínculo entre pais e filhos. Desde a infância, os pais devem deixar claro, com palavras e atitudes, a capacidade que têm de dividir seu tempo, amor e atenção para os dois’’. A psicóloga salienta que outro ponto a ser respeitado é o ritmo de desenvolvimento de cada um. ‘‘Provavelmente, as conquistas que cada criança fizer não serão as mesmas do outro, ou dos outros. As qualidades de um não devem ser projetadas no outro’’, orienta.Respeitar e valorizar a personalidade de cada um é o melhor caminho para educar gêmeos felizes
Carmen KleyAs gêmeas Juliana e Carolina Fescina Papa dizem que só os pais e os amigos íntimos conseguem diferenciá-lasArquivo Folha‘‘As qualidades de um não devem ser projetadas no outro’’, afirma a psicóloga Maria Elizabeth Barreto Viotto

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