Muito além das fantasias
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quinta-feira, 06 de setembro de 2007
Karla Matida<br>Reportagem Local 
Em 2006, no mesmo ano em que o Brasil viu escapar pelos pés dos jogadores o hexacampeonato no futebol, o País conquistou um título inédito de campeão mundial de cosplay. Os irmãos Mauricio e Mônica Leite Olivas faturaram o primeiro lugar do World Cosplay Summit, espécie de Copa do Mundo, realizado no Japão.
Cosplay? Apesar de ter cerca de 30 anos de existência, o cosplay (que une as palavras costume - do inglês fantasia - com play - verbo jogar, brincar) ainda é algo novo no Brasil. ''Há uma enquete mundial para descobrir onde surgiu o cosplay'', explica o estudante Diogo Hattori sobre a polêmica paternidade. ''Falam que nasceu nos Estados Unidos com os fãs de seriados como Star Trek (Jornada nas Estrelas)'', lembra Hattori. Mas há também quem faça, claro, referências ao Japão.
Polêmicas à parte, vêm mesmo do outro lado do mundo as principais inspirações para cosplayers (aqueles que praticam o cosplay), que são justamente heróis de mangás (quadrinhos), animes (desenhos animados) e videogames. A idéia é se vestir e se comportar como personagens conhecidos como ''o ninja Naruto, Death Note e Full Metal Alchemist'', explica Cássio Sadano. Ele é um dos organizadores do Concurso de Cosplay, que acontece amanhã, no Londrina Matsuri 2007.
A expectativa é reunir 50 participantes da região, inclusive de Curitiba, que já confirmaram presença. Mas quem quiser participar pode aparecer na Praça Nishinomiya até às 15 horas porque as inscrições para o concurso podem ser feitas na hora. ''No ano que vem, durante o Imin 100 (que irá celebrar os 100 anos de imigração japonesa), o evento deve ser ainda maior'', planeja Sadano. Além do concurso no festival, ele também está organizando a segunda edição do AnimeZone, que acontece nos dias 17 a 18 de novembro. Em 2006, cerca de cinco mil pessoas passaram pelo evento, que teve além de cosplay, animes, RPG, games e gincanas.
Pai de um bebê de quatro meses, Sadano conta que vai dar um tempo nos próprios cosplays. A volta triunfal está marcada para daqui a três anos, quando ele vai surgir de Lobo Solitário & Filhote. ''Vou deixar o cabelo crescer'', explica. O filhinho também vai ganhar um corte especial para ficar bem parecido com o personagem.
Se o DNA do estudante Júlio César Oliveira não traz nenhum traço nipônico, ele não se importa. ''Tenho influência da cultura desde o berço'', conta ele, que nasceu em Osasco e se mudou para Londrina aos nove anos, quase na mesma época em que descobriu as aulas de mangás na cidade. ''No mesmo ano em que entrei para o curso fiz o primeiro cosplay'', lembra.
Com mãe costureira, Oliveira sempre teve um pouco mais de facilidade para incorporar os integrantes da banda de visual kei (uma união da música com figurino exuberante) The Gazette. ''Um cosplay custa em média R$ 80 a R$ 120'', diz Veridiana de Carvalho Sales, que está finalizando o trabalho de conclusão do curso (TCC) de desenho industrial que tem como tema a comunicação visual de eventos de mangás, como o Anime Friends e o Anime Con. ''São os dois maiores do Brasil'', explica.
Os dois eventos acontecem em julho - época de férias escolares - em São Paulo e reúnem fãs de todo o Brasil. ''Eles (eventos) são a meca dos otakus'', diz Sadano. De acordo com o organizador do AnimeZone, ''otaku em japonês significa indivíduo fechado, mas por aqui é traduzido como fãs de mangás''. ''Não é nada pejorativo'', garante Veridiana.
Para Diogo Hattori, que é de Vilhena (RO) e veio para Londrina fazer faculdade, as grandes feiras de mangás são ''um jeito de reencontrar os amigos'', conta o estudante, que não perdeu os laços com cosplayers do Amazonas. Não por acaso, ele escolheu esse tema para o seu TCC. ''Tenho o projeto de uma revista de cosplay para suprir uma necessidade'', explica.
Apesar dos sites especializados como www.cosplaybr.com.br e de comunidades no Orkut, Hattori acredita que para um cosplayer, o material impresso ainda é essencial. ''Na internet consegue-se muito, mas não tudo'', diz o estudante, que quer ter a colaboração dos leitores.
''O cosplay aumenta a criatividade e é um sonho realizado poder se vestir como seu herói'', afirma Hattori, que tem em casa uma coleção de oito cosplays. ''Costumo emprestar algumas peças para os amigos e também usar no dia-a-dia'', diz.
''Os pais têm um papel importante tanto no apoio como nos limites'', confessa Veridiana. Assim como seus colegas cosplayers, ela também se indignou recentemente quando algumas notícias veiculadas em rede nacional impuseram estereótipos violentos para a brincadeira. ''Temos que ajudar a desmistificar isso'', explica Cássio Sadano.
De acordo com o grupo, aos 12, 13 anos, as crianças passam a se interessar por vontade própria pelo assunto. ''Quem começa mais cedo é influenciado por irmãos mais velhos ou primos'', contam. ''Já vi muita gente de 40 e 50 anos com cosplay'', avisa Sadano. Não há limite para a fantasia.
O cosplay de Diogo Hattori é Souchirou Nagi, do anime Tenjou Tenge. Ele é animado e briguento e quer se tornar o líder da turma, explica Hattori, que costuma usar peças avulsas dos seus cosplays no dia-a-dia, como o sobretudo e o coturno
Veridiana de Carvalho Salles encarna a America Mac Gees Alice, que vive em um país que não é o das maravilhas. Cento e vinte e oito anos depois do livro Alice Através do Espelho, a personagem perde os pais e entra em coma. É durante esse sono que vai parar num mundo deturpado e macabro. São três Alices, uma culpada pela morte dos pais, outra que fica se cobrando e a terceira que é uma assassina que mata seus próprios medos, conta Veridiana
Pai recente, Cássio Sadano, um dos organizadores do concurso do Londrina Matsuri, planeja para daqui a três anos o próximo cosplay, que vai incluir o filho (agora com quatro meses). O projeto é deixar o cabelo crescer para poder ficar ainda mais parecido com Lobo Solitário e Filhote
As escolhas de Júlio César Oliveira são sempre baseadas na banda The Gazette. O guitarrista Aoi é o cosplay da vez, mas Júlio tem preferência por Reita, o vocalista. O cabelo, que já foi loiro, azul e até rosa, segue o dos personagens. A banda eleita pelo cosplayer é uma das referências do chamado visual kei, que faz a união da música com a imagem sempre chamativa


