Ser adolescente significa sofrer de crise existencial. Pelo menos é o que a maioria das pessoas diz. Mau humor, alegria intensa seguida de tristeza sem fim, brigas com os pais, horas trancado no quarto... Todos esses sintomas são mais do que comuns nessa fase.
Mas os pais precisam ficar atentos. Se, além desses sintomas, o jovem mudar por completo seus hábitos – não gostar mais dos amigos que tem desde a infância, querer trocar de colégio, começar a usar drogas, sentir sua auto-estima em baixa – ele pode estar sofrendo de alguma doença clínica que, muitas vezes, acaba sendo confundida com depressão.
A maior responsabilidade cabe aos médicos, que precisam saber distinguir um problema psiquiátrico dos sintomas de uma doença clínica comum. Por exemplo, o hipotiroidismo na adolescência tem sintomas diferentes dos que se apresentam no adulto. Os adolescentes que sofrem da doença têm como sintomas a apatia e o baixo rendimento escolar, que facilmente são confundidos com depressão.
Sem vergonha Após os 14 anos, é comum o adolescente afastar-se dos pais, que antes eram tidos como ídolos. A médica psiquiátrica clínica e forense June Melles Megre, membro de diretoria dos comitês multidisciplinares da Adolescência e de Psiquiatria Forense da Associação Paulista de Medicina (APM), ressalta: ‘‘Essa atitude é saudável. Como a criança está motivada na busca de sua personalidade, os pais devem ter atenção, nesta fase, para saber se os filhos apresentam sintomas normais da adolescência ou estão depressivos’’. Ela sugere aos pais não ter vergonha de perguntar para profissionais, amigos ou para o pedagogo da escola onde o jovem estuda se seu filho apresenta ações comuns a esta faixa etária.
Essa atitude traz ainda o benefício de dissipar certas preocupações sem fundamento que os pais criam em relação ao adolescente, geralmente causadas pelo afastamento – normal para a idade – que ocorre nessa fase.
Voltando às origens De acordo com June, a medicina está voltando às suas origens. ‘‘Antes dos anos 60, o indivíduo era visto como um todo. Depois, veio a época das especialidades. Agora, observamos que não adianta tratar um paciente que não se alimenta como se estivesse depressivo se, na verdade, tem alguma doença endocrinológica’’.
A depressão pode tanto ser o sintoma de uma doença clínica como efeito colateral de medicação – como corticóide ou quimioterapia. Ela pode, também, ser o sintoma (em adultos) de câncer de pâncreas, que nos jovens aparece em forma de tristeza e falta de vitalidade.
A médica afirma que uma doença clínica pode surgir junto com uma doença psíquica, como é o caso do diabete e da depressão diagnosticados com frequência em adolescentes. Nestes casos, o tratamento indicado é a farmacoterapia e a psicoterapia. ‘‘A dificuldade que os médicos encontram em detectar qual a doença do jovem está justamente no quadro depressivo não típico que ele apresenta. É comum, nesta idade, a irritabilidade, gripes constantes, apatia, o que leva os profissionais da medicina a acreditarem que não se trata de uma doença clínica’’.
Meninas e meninos Segundo June, estatísticas apontam diferentes resultados. ‘‘Umas mostram que problemas de depressão atingem meninos e meninas na mesma proporção. Outras afirmam ser mais comum nas garotas, principalmente após a primeira menstruação, quando a mudança hormonal é grande, podendo causar doenças como bulimia e anorexia’’.
Conversas e atividades em comum são fundamentais para perceber como o jovem está se relacionando com o mundo. Por exemplo, o pai jogar bola com o filho ou ir ao cinema facilita o entendimento entre as partes. Como o adolescente tem dificuldades em conversar e externar seus sentimentos, um contato mais próximo, em que também seja possível aos pais observar o filho, é fundamental. E, quando as alterações saírem do humor e atingirem outras áreas, é sinal de alerta. ‘‘Essa é a eterna dúvida dos médicos e da família: distinguir quando é ou não normal’’, garante a psiquiatra.
Desafio Restringir o adolescente a uma dieta rígida, necessária para quem sofre de diabete, por exemplo, é desafio tanto para o profissional de saúde quanto para a família. Por isso, muitas vezes, o tratamento farmacológico é acompanhado pelo psiquiátrico – afinal, o jovem já está passando por dificuldades na busca de sua personalidade e precisa conviver com doenças clínicas que exigem controle.
Quem é o adolescente? A medicina considera adolescência o período entre os 10 e 20 anos. Mas não existe uma regra, uma vez que o desenvolvimento varia de pessoa para pessoa. O certo é que a criança inicia a fase da adolescência e a transformação hormonal entre os 10 e 14 anos de idade. Depois disso, os jovens tornam-se um grupo uniforme que tem como principal problema a busca da personalidade.

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