Rosângela Vale
Desde o desenvolvimento dos fios sintéticos, durante a Segunda Guerra Mundial, muita coisa mudou na indústria têxtil. As microfibras – fibras de espessura 70 vezes mais fina que um fio de cabelo – mudaram o rumo da moda. E o consumidor foi, aos poucos, descobrindo o que a tecnologia pode fazer pelo seu guarda-roupa. Uma das recentes novidades anunciadas foi o tencel, fibra de celulose natural extraída da polpa de madeira produzida geneticamente em fazendas americanas. Por ser completamente biodegradável, foi recebido com festa pelos ecologistas. Entre seus maiores benefícios estão o toque agradável e a versatilidade, adequando-se à qualquer estação. Todos esses avanços tecnológicos, entretanto, são insignificantes se comparados à revolução que está por vir.
Quem profetiza é o estilista Carlos Miéle, da M. Officer. Segundo ele, as roupas serão as criações do homem que mais rapidamente vão incorporar a miniaturização tecnológica. Os ‘‘vestíveis’’, como ele denomina, terão sensores, câmeras de vídeo e computadores que interagem com o indivíduo e com o mundo, detectando a ação do meio ambiente, a saúde e o estado de espírito do usuário. ‘‘Os computadores de mesa se tornarão desnecessários’’, acredita. Miéle atenta para o fato de que essa evolução mudará um dos princípios básicos da moda, que é a efemeridade. O que se buscará será um design de longevidade, concebido para integrar-se à vida contemporânea, e não para durar apenas uma estação.
De acordo com o estilista, esses materiais ainda estão em fase experimental. ‘‘Mas em cinco anos estarão sendo produzidos em escala industrial e comercializados até por camelôs’’. Nas últimas coleções da M. Officer, já se pôde observar os primeiros indícios dos novos tempos. O destaque é o tecido com memória, com fios de aço inoxidável na trama, que ganhou esse nome por guardar as marcas do último movimento da pessoa. Outra novidade da grife é o tecido térmico, fabricado a partir de pesquisas espaciais, que se adequa a qualquer temperatura devido à presença de microcápsulas de parafina. O processo é o seguinte: quando a temperatura do corpo ou do exterior aumenta, a parafina liquidifica e armazena o calor; quando a temperatura cai, ela solidifica e libera o calor.
Parcerias Enquanto a era dos vestíveis não chega, a indústria têxtil investe em pesquisas para oferecer tecidos com propriedades e aspectos diferenciados a cada temporada. É o caso da Rhodia Poliamida América do Sul, que produz fios têxteis em náilon. Um das novidades da empresa é a linha de produtos com efeitos óticos, obtidos através da mistura de um mesmo fio. Lisos ou texturizados, proporcionam às malhas e tecidos um contraste de visual mesclado tom sobre tom, com diferenças de tonalidade e brilho. Também entre os lançamentos está o Newcell, filamento que confere características tátil e visual de celulose, com um diferencial que é o toque gelado, ideal para as coleções de verão, podendo ser utilizado tanto em tecelagem plana como em malharia. Empresas como Douat, Jacyra e Dalutex já trabalham com o fio.
Parcerias, aliás, dão o tom à indústria têxtil atualmente. O melhor exemplo vem sendo dado pela Rhodia, através de sua marca Amni, que funciona como um selo de qualidade tanto para tecidos como para peças já prontas. Para recebê-lo, o produto deve apresentar inovações tecnológicas, excelente performance, toque, caimento e versatilidade. Na última edição do MorumbiFashion Brasil, a marca mostrou na passarela suas múltiplas possibilidades de aplicação: na alta-costura hight tech de Fauze Haten, no streetwear futurista da Iódice, nos vestidos de noite de Walter Rodrigues e na vanguarda de Alexandre Herchcovitch. Todos receberam patrocínio da Amni/Rhodia. O destaque foi o tecido esphera, resultante de um processo de dublagens, plastificações e beneficiamento com tecnologia da indústria automobilística, um desenvolvimento da Douat Têxtil para a coleção de Fauze.
Outra bem sucedida parceira é a da empresa química DuPont, que produz o fio Lycra, com tecelagens e confecções homologadas. Além de se manter nos tradicionais segmentos de mercado, como meias, moda praia, lingerie e active wear, a demanda por Lycra vem crescendo no setor fashion, incluindo o de calçados, com a mistura do fio ao couro natural. Algumas das principais grifes do País, como Forum, Equilíbrio, Ellus, Iódice e M. Officer, têm tecidos com Lycra em suas coleções primavera-verão 99/2000.
Acreditando na importância das parcerias não apenas para o desenvolvimento do setor têxtil, mas da moda brasileira, a Lycra vai patrocinar o ‘‘I Fashion Preview’’, que termina hoje, em São Paulo, reunindo 25 indústrias, entre tecelagens e malharias, que apresentaram suas propostas para o inverno 2000. Entre os lançamentos, o tencel com Lycra e o ‘‘algo mais’’, um tecido sintético com aspecto e toque de algodão, desenvolvido pela Charlex.
O evento é uma espécie de versão brasileira do ‘‘Premiere Vision’’, tradicional feira parisiense. Como ela, o Fashion Preview deve acontecer duas vezes ao ano e funcionar também como fórum de idéias. De acordo com Denise Sakuma, gerente de produto de Lycra, a intenção é dar informações e sugestões para que os estilistas tenham mais tempo para criar e as confecções possam planejar com eficiência a produção e a atuação comercial. O que contribuirá para inserir o Brasil, definitivamente, no calendário de moda internacional.A indústria têxtil traduz os avanços tecnológicos desse final de milênio e dá nova cara à moda
Cláudia GuimarãesCalça em tecido com memória, da M. OfficerDivulgaçãoCriação de Alexandre Herchcovitch desenvolvida com fio Amni/Rhodia: selo de qualidadeBlazer em fustão da Equilíbrio e frente-única em elastex, da M. Officer: tecidos com Lycra

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