Os mandamentos do ‘‘novo luxo’’ pregam o uso de peles verdadeiras e desafiam a consciência ecológica
Frente-única de couro de cobra, da Forum
Deborah Bresser
Agência Estado


Couros, peles e jóias. As coleções de prêt-à-porter outono-inverno 2000/2001 que acabaram de ser mostradas no eixo Paris/Milão/Nova York ressuscitaram de vez a elegância e, para compor o glamour do novo luxo, apostaram tudo nos materiais nobres, caros e que ficam na corda-bamba quando a questão é consciência ecológica.
Os crocodilos, cobras, chinchilas e raposas que deram a vida pela moda são criados em cativeiro, pelo menos é o que garantem os estilistas. Mas há quem não goste da idéia de transformar animais em estolas apenas pelo prazer de ser chique, sofisticada e sexy, ainda que os bichinhos sejam ‘‘cultivados’’.
Vison sintético ‘‘Acho super demodé criar bichos para matar e fazer roupa’’, diz a estilista Glória Coelho, da G. Para sua coleção de inverno, ela preferiu o vison sintético. ‘‘Fiz peças de chamois e de couro, mas são de animais cuja carne já é consumida, como carneiro e vaca’’, explica. As madames de todo o mundo, ao que tudo indica, não fazem coro com Glória. Prometem não só consumir as novidades apresentadas pelas maisons como já criaram coragem de tirar seus casacos de pele do armário. O medo de ser atacadas por ecologistas passou. ‘‘Tanto na platéia quanto na passarela vi muita pele em Milão e Paris’’, relata Donata Bordon, diretora da Daslu, loja que importa e vende as principais grifes de moda do mundo.
‘‘A tendência é o retorno do luxo, e 80% dos costureiros apresentaram muitas peles e couros, principalmente o lézard, couro de cobra que já virou febre’’, diz. Para ela, os ecologistas podem até tentar protestar, mas esse é um caminho sem volta. ‘‘Vi muita gente de moda, importante, usando peças de lézard e casacos de pele. Até jornalistas da área, que antes eram contra, apareceram aos desfiles de jaquetas com golas de vison.’’
Com esse resgate do glamour e a revalorização das grandes maisons, nem todos os tecidos tecnológicos do mundo resistiram à força fashion das peles e pêlos. ‘‘Os artigos com prestígio estão em alta’’, atesta Donata. Tanto luxo, óbvio, tem seu preço. Um sapatinho de lézard não sai por menos de R$ 700,00. Uma bolsa chega fácil à casa dos R$ 1.800,00
A importação de artigos de couro e peles, mesmo os que têm pedigree, passa pelo crivo do Ibama, que exige certificado de origem e licença. O procedimento normalmente causa um atraso na entrega das mercadorias, mas é a garantia de que aquela bicharada que vai invadir os armários das bem-nascidas também vem de berço de ouro.
O Brasil não autoriza o abate de animais soltos na natureza para utilização de peles e pêlos. Os bichos têm de, necessariamente, ser criados em cativeiro para dar o couro ao mundo fashion. Apenas seis indústrias no Brasil possuem licença do Ibama para manufaturar artigos com peles. Considerados os abatedouros e curtumes, esse número sobe para 51 empresas.
Questão ética As peles usadas no País recebem um selo do Ibama que atesta a origem da matéria-prima’’, explica Francisco de Assis Neo, coordenador do Instituto de Fauna e Flora Silvestre do Ibama. Em outros países, a regra nem sempre é a mesma. Há locais em que o abate de animais silvestres é permitido, só que na hora da importação o Ibama exige que as peles provenientes do exterior tenham certificado.
Por aqui, a fiscalização cai em cima de quem tenta burlar as normas. Caso o Ibama receba denúncia de que alguma indústria está beneficiando pele de animal silvestre, o primeiro passo é verificar o artigo. Constatada a infração, a empresa é multada e fechada. O peso no bolso varia de R$ 500,00 por unidade de pele de jacaré, a R$ 5 mil, para uma pele de onça, espécie que está extinção. ‘‘O problema é que o País é muito grande e os recursos para coibir abusos são limitados’’, acredita Délcio Rodrigues, diretor de Campanhas do Greenpeace do Brasil.
Para ele, os ativistas ecológicos sossegaram um pouco exatamente porque as peles ficaram muito tempo fora de moda. Apesar do retorno da tendência, Rodrigues acredita que os tempos são outros e não haverá necessidade de botar a boca no mundo. ‘‘As grandes grifes usam peles de animais em cativeiro, o que não é exatamente um problema ecológico. Não somos contra usar a natureza. O que não pode é destruir o ambiente natural em nosso proveito’’, defende.
O risco, para Rodrigues, está na massificação da proposta. ‘‘Se todo mundo resolver usar peles, não haverá animais em cativeiro para suprir a demanda e aí mora o perigo’’. Para ele, a questão do uso das peles hoje é mais ética do que ambiental. ‘‘Saber de onde vem a pele é essencial, pois se não for tirada da natureza essa informação serve até para educar o consumidor, que passará a questionar, por exemplo, de onde vem a madeira da cadeira em que está sentado. Roupa também é cultura’’, acredita.

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