Moda ecológica
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de agosto de 2003
Rosângela Vale<br>Reportagem Local 
Conceitos como educação ambiental, desenvolvimento sustentável e responsabilidade social são assuntos tão discutidos atualmente que, pelo senso comum, já viraram moda. Pois agora a coisa ganhou um sentido literal. A ecologia aplicada ao design virou tema do concurso que o Catuaí Collection realizou recentemente entre os alunos de Estilismo em Moda da UEL. Das 15 coleções selecionadas esta semana (leia box), três serão vistas na passarela da próxima edição do evento, que acontece em setembro.
A idéia é fomentar nos futuros estilistas a pesquisa de novas formas de produção industrial que contribuem para a redução de impactos ambientais. De acordo com a professora Dorotéia Pires, coordenadora do curso e das atividades pedagógicas que envolvem o concurso, trata-se de uma oportunidade para que os alunos criem peças de vestuário utilizando materiais e sistemas de produção limpos, preservando o ambiente e diminuindo gastos de energia e de insumos. ''É uma forma diferente de pensar a produção e o consumo'', observa.
As professoras Ana Luisa Boavista e Rejane Rossi Prado, do curso de Desenho Industrial da Unopar, ressaltam que o Ecodesign é um dos assuntos de maior evidência na área atualmente. Os vários estudos sobre o tema tratam do ciclo de vida do produto ''do berço ao túmulo'' e da responsabilidade do designer diante desta questão, já que o destino da maioria dos objetos é perder o valor econômico e virar lixo.
Reciclagem Alternativas ao uso e descarte dos produtos para minimizar as agressões ao meio ambiente vêm sendo mostradas, em Londrina, por meio de alguns projetos de extensão sob a coordenação de Ana Luisa e Rejane. O mais recente deles foi a decoração da cidade no Natal do ano passado, toda baseada no conceito de reciclagem. As árvores foram feitas com garrafas PET pelos detentos da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL).
Na moda, exemplos clássicos são a mistura de flocos de PET às fibras de tecidos: a M. Officer foi uma das pioneiras no Brasil a lançar esse conceito na sua linha de jeanswear. De acordo com as professoras, trata-se de um mercado que está se expandindo de 15% a 20% ao ano. ''Quanto mais se reutiliza, menos se extrai da natureza'', justificam.
Outro bom exemplo dessa máxima foi dado pela Gota Projetos, responsável pelo trabalho de conscientização ambiental durante a São Paulo Fashion Week. Dezenas de monitores espalhados pelos corredores da Bienal orientavam os visitantes sobre separação e a destinação correta do lixo. Resultado: 50 árvores ''salvas'' do corte; 68 quilos de novos produtos plásticos, 24 quilos a menos de bauxita extraída da natureza e 210 quilos de economia em recursos minerais. No total, foram quase 8 toneladas de material inteiramente destinado à reciclagem.
Descarte O estilista recém-formado Ronaldo Silvestre, à frente da grife londrinense Ex-Madame, foi uma das principais referências para os alunos de Estilismo em Moda que se inscreveram no concurso do Catuaí Collection. Tudo por conta de seu projeto de conclusão de curso, que abordou o tema Ecodesign de uma forma pra lá de criativa. Todas as peças de sua coleção, em 100% algodão, têm uma função extra: se transformam em objetos de decoração. Com um simples abrir e fechar de zíperes e botões, a bermuda vira pufê, a saia vai para a parede (fazendo as vezes de porta-objetos), e do vestido se desprende uma bolsa.
A intenção é mostrar que os produtos podem ter uma vida mais longa. ''Quando você não quer mais uma roupa, pode usá-la de outra maneira, na sala da sua casa'', explica Ronaldo, que batizou a coleção de Flores da Vida. ''Todo mundo reconhece uma batatinha na feira, mas quantos já viram sua flor?'', pergunta, informando que a batata é um dos produtos mais consumidos, e também um dos mais fáceis de se contaminar no processo de produção.
Além de fazer uma crítica ao atual sistema econômico que, ditando tendências, propõe um novo guarda-roupa a cada seis meses, Ronaldo ressalta a necessidade de seguir procedimentos ecológicos em todas as etapas da produção, atentando, principalmente, para o descarte dos objetos. ''Não quero levantar bandeiras, mas conscientizar os formadores de opinião sobre a questão'', diz.
Seu objetivo vem sendo plenamente realizado. A coleção arrancou elogios da banca que selecionou os trabalhos para o desfile de novos criadores da última edição da Fenit, em junho. Por conta disso, Ronaldo foi convidado a representar Londrina, ao lado da designer Soraya Ayoub, no próximo Curitiba Fashion Art, dia 14 deste mês.


