Um dândi em plena efervescência dos anos 60. Assim era o costureiro Dener Pamplona de Abreu (1936-1978), que esboçou o significado do mundinho fashion bem antes de o termo existir de fato no Brasil. Desempenhando seu papel ao gosto (e muitas vezes, desgosto) da sociedade da época, ele usou seu estilo esnobe, sarcástico e sofisticado para valorizar suas criações e, consequentemente, a moda brasileira. Adorado pelas mulheres - chegou a se casar com duas - fez de suas ‘‘frescuras’’ e do jargão ‘‘um luxo’’ aliados de sua identidade. Soube tirar vantagem até mesmo do jeito franzino, que sugeria sáude frágil, evidenciando suas olheiras com vaselina para aumentar o contraste sob os holofotes, seus eternos companheiros.
É sobretudo a construção desse personagem, em um Brasil que começava a estruturar sua indústria de moda, que o sociólogo e ensaísta Carlos Dória descreve no livro ‘‘Bordado da Fama - Uma biografia de Dener’’ (202 páginas; R$ 30,00), lançado pela editora Senac em dezembro. Com depoimentos de jornalistas, modelos, amigos e assessores do estilista, Dória reconstrói a vida social de São Paulo nos anos 60/70, o colunismo social nascente, as indústrias em busca de produtos de exportação com a cara do Brasil, o otimismo nacionalista. Contexto mais do que favorável para a consagração de Dener, que vira ídolo nacional ao vestir a primeira-dama Maria Tereza Goulart.
Considerando-se a Coco Chanel da moda brasileira, Dener viveu os últimos suspiros da alta-costura antes da era do prêt-à-porter. ‘‘Jeans é a falência do bom gosto’’, decretou. Sem ter frequentado uma escola formal, aliou o clima de exaltação nacional às técnicas de corte que observava nas criações francesas e ganhou projeção internacional: chegou a apresentar desfiles em Paris e nos Estados Unidos. ‘‘Eu fiz os brasileiros acreditarem em moda, e o figurinista passou a ser um assunto. Antes de mim, para ser elegante era preciso usar etiqueta de fora’’, dizia.
O capítulo reservado ao surgimento da Fenit é um dos pontos altos do livro. Resgatando o trabalho de Lívio Rangan, um visionário que deu formato único à divulgação de moda no País, o autor presta um serviço a estudantes e a jovens profissionais de moda, já que a bibliografia sobre o assunto é escassa. Um anexo com a linha do tempo da moda - e da vida profissional do costureiro- entre 1950 e 1978, e um glossário com os principais nomes da ‘‘era Dener’’ complementam a obra, que traz ainda fotos da época e croquis do estilista. (R.V.)

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