''Como a maioria dos dependentes, comecei a beber socialmente, mas muito cedo, quando tinha uns 13 anos, nas reuniões de família, para me sentir mais descontraído. Daí comecei a aumentar a quantidade até chegar ao ponto que passava a noite toda bebendo, chegando em casa depois das nove da manhã. Cheguei a vomitar na sala da casa da minha namorada, hoje minha esposa. Bebia tanto que, quando eu suava, exalava cheiro de gim, minha bebida favorita. Depois que me casei, parei de beber por dez anos. Aí achei que não tinha problema se eu tomasse alguma coisa. Entrei num bar e pedi um uísque. No outro dia pedi dois e assim fui aumentando a dose e voltei a beber muito. Minha filha nem levava namorados em casa por vergonha de mim, e minha mulher vivia revoltada e preocupada. Um dia bati o carro e cheguei em casa todo sujo de sangue e bêbado. Percebi que estava ficando velho e fazendo minha família sofrer. Daí, em 1982, procurei um grupo de apoio, e em 1989 comecei a frequentar o AA, que me ajudou muito. Há mais de 20 anos que eu não bebo e, graças a Deus, não tenho problemas de saúde por causa da bebida. Mas minha mulher ainda fica preocupada se demoro para voltar para casa. O fantasma do alcoolismo e as lembranças de tudo o que aconteceu estão na cabeça dela e eu respeito isso porque realmente o dependente pode voltar a beber a qualquer hora, é preciso estar sempre atento. Deixei de ganhar muita coisa na vida. Minha família tinha uma condição financeira boa e eu não aproveitei isso, não fiz uma faculdade. Hoje procuro ajudar outras as pessoas que procuram o AA. Sei como é difícil largar o vício e como é importante ter o apoio dos outros. Mas o principal é não ter auto-piedade e querer mudar de vida. Me considero um felizardo por ter conseguido'', João (nome fictício), 72 anos

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