Meu segundo lar
Meu segundo lar
Depois de conquistar a liberdade econômica, montar uma casa com cara de lar doce lar é uma outra batalha
Francelino França
Um fenômeno mundial acontece com a geração que está com vinte e muitos anos, trinta e poucos e quase quarenta anos. Eles estão de volta ao lar doce lar morando com a família, voltando aos agrados paternos, aproveitando a comodidade da roupa limpa, comida da mamãe e uma significativa economia com os gastos. Na Itália, por exemplo, há publicidade em outdoors e ônibus convocando os jovens maduros a sair da casa dos pais e alugar apartamentos destinados aos solteiros, que estão empoeirando à espera de moradores.
No Brasil, os solteiros estão voltando também para a casa da mamãe. Mas o ritmo ainda é lento, em comparação àqueles que querem sua liberdade. E nesse caso, liberdade significa não coabitar com os pais. Para engatar um vôo solo pais há três soluções: morar sozinho, montar uma república ou dividir o espaço com uma outra pessoa.
Ter vinte e muitos anos, trinta, trinta e cinco... significa pertencer a uma geração que absorve uma cultura acelerada. Para optar por um tipo de moradia alternativa, é preciso um emprego. Muitos estão formados, outra parte desistiu de vez de lutar por uma carreira. Para quem está começando uma vida profissional, principalmente no setor de serviços, a remuneração não é lá essas coisas e o cargo pode não ter prestígio e não ter grandes perspectivas. Para essa geração, a estabilidade de emprego é um sonho. Muitos até acreditam que o emprego nunca está à altura de sua imagem.
Residência fixa Mas é a dificuldade da residência permanente um dos problemas mais frequentes a enfrentar. Ter que domar corretores imobiliários, fugir das exigências descabíveis dos documentos para alugar um imóvel e da falta de credibilidade do jovem são problemas a ser driblados. É comum, nesses casos, recorrer aos pais para quebrar o galho na imobiliária.
O escritor canadense David Coupland, em seu romance Geração X, definiu num grupo de jovens o que é viver nesse mundo acelerado, acompanhar as mudanças drásticas e se sentir inserido nesse universo. Na verdade, viver em outro lugar, longe de pai, mãe, irmãos e toda a vidinha programada, é tentar fugir do sistema. Tem que desistir, como eu desisti, do apartamento e de todos os tolos objetos..., diz um dos personagens no livro. O autor ainda diz que essa geração tem uma certa incapacidade de funcionar nos ambientes estruturados.
Conquistar um espaço próprio, com cara e jeito do dono, leva tempo. Muitas vezes, é preciso passar pela divisão do espaço com outras pessoas, inclusive estranhos e chatos, como também passar por momentos de solidão, morando sozinho. É o culto da sozinhez, uma certa necessidade de autonomia a todo o custo, desencadeado até pelas expectativas de terceiros.
A porcentagem de homens e mulheres solteiros na faixa etária dos 25 aos 29 aumentou consideravelmente nos últimos anos. Proporcionalmente, diminuiu o número de mulheres casadas na mesma faixa etária. A porcentagem de pessoas com habitação própria nessa faixa etária também diminuiu. Essas constatações estão no livro Geração X, e se referem ao padrão de vida americano, que de certa forma retrata também o jovem do resto do mundo, visto que a globalização comportamental está cada vez maior.
Os especialistas do comportamento apontam uma dicotomia para esses jovens: ao mesmo tempo em que vivem numa era em que não acontece nada, vivem numa era em que parece acontecer demasiadas coisas. No visual, são jovens que gostam de reciclar o passado, colhendo de décadas anteriores (principalmente nos anos 70) a identidade visual.





