Criança para ser feliz precisa de poucas coisas: pais carinhosos, bolacha recheada no meio da tarde, alguns brinquedos, desenho animado na televisão, amigos sempre por perto e, para muitos, um animal de estimação. Está no inconsciente de qualquer um a imagem do moleque e do vira-lata correndo atrás de bola, quando se fala de amizade entre homem e cão.
De acordo com a psicóloga Daniele Pedrosa Fioravante, a convivência com um animal de estimação, principalmente cães, é extremamente positiva para os pequenos. ''Com eles, a criança compartilha experiências, troca afeto, aprende a ter responsabilidade, a entender que muitos dos seus atos terão consequências, a lidar com as frustrações, como quando ela quer brincar e o animal quer dormir. Ter um cão ou outro bichinho é um aprendizado muito importante para a vida'', afirma.
Guardadas algumas proporções, ela diz que a presença de um pet pode ajudar também as crianças que não têm irmãos. ''Não é um substituto porque com o cão a criança não briga por espaço ou pela atenção dos pais, como acontece entre irmãos. Mas é possível que ela desenvolva coisas boas como dividir um pedaço de biscoito, dar um lugar para sentar no sofá'', explica.
É assim entre Vítor Hugo Frontino do Carmo, 11 anos, e sua cadela poodle Cherry, de um ano e quatro meses. Ele garante que ela é sua melhor amiga e que os dois só se separam na hora de ir para a escola. ''Eu tenho amigos, mas ela é melhor porque estamos sempre juntos, ela até dorme comigo. A gente brinca de pega-pega, de buscar bolinha, de esconde-esconde. Às vezes, a Cherry pega meus brinquedos e faz bagunça no meu quarto quando estou vendo TV e eu me irrito com ela. Mas mesmo assim não conseguiria ficar sem ela'', afirma Víctor.
E o convívio depende muito da escolha do animal correto para as crianças. A veterinária Alessandra Trevisan afirma que existem raças de cães que são mais tolerantes com as brincadeiras do que outras. ''Entre os cães de pequeno porte, os mais adequados são o poodle, o beagle e o lhasa-apso. O pintcher e o yorkshire, como são mais sensíveis, não são bons companheiros para brincadeiras. Das raças grandes, recomendo o labrador, o boxer, o rottweiler e o pastor alemão. Já o pit bull, o sharpei e o chow-chow podem ser agressivos'', diz.
Para garantir a segurança, ela recomenda também que algum adulto esteja por perto enquanto as crianças muito pequenas brincam com os animais. ''O contato físico faz parte do convívio e os pequenos ainda não sabem fazer isso direito. Eles querem segurar o cão o tempo todo, puxam a orelha, o rabo. Isso pode irritar e causar alguma reação inesperada em qualquer animal. O mesmo acontece com os gatos, que são mais independentes e menos tolerantes'', alerta.
É a possibilidade de fazer o que bem entende com Branquinha, uma vira-lata, que a pequena Yasmim, 2 anos e meio, considera a cadela a melhor amiga entre os três cães que a família tem. ''Ela puxa a orelha, segura no colo, brinca o tempo todo com a cachorra e a Branquinha adora. Com as outras cadelas a relação também é boa, mas a amizade das duas é especial'', diz o pai de Yasmim, o advogado William Cantuário da Silva.
A irmã, Isabella Ferreira Arcosta, 7 anos, lembra que a cadela foi encontrada ainda filhote na frente de casa e trazida pela mãe. ''A gente já tinha a Lindinha (uma poodle) mas a minha mãe deixou eu ficar com a Branquinha também. Se eu pudesse, queria ter 50 cachorros'', garante. ''Sei que é importante para as crianças terem esse contato com os cães. A Isabella já ajuda a cuidar de todas, dando comida e água. Assim, ela desenvolve a responsabilidade'', diz a mãe, Mariana Gisele Ferreira.
De acordo com a psicóloga, esperar a criança crescer um pouco antes de comprar um cão ou gato é importante para desenvolver, além da responsabilidade, a amizade. ''O ideal é que já exista uma independência motora, que a criança possa andar, falar. Depois de dois anos de idade, as crianças usufruem melhor do convívio com um animal'', comenta.
E o exemplo dos adultos é importante, segundo Daniele, para que os filhos tratem seus pets de maneira correta. ''Depende dos pais, que devem ensinar à criança que o cão ou outro animal não são brinquedos descartáveis. Que precisam ser tratados com carinho e respeito. As responsabilidades de cuidar também devem ser da família toda'', lembra.
''As pessoas precisam lembrar que um cão ou um gato vivem cerca de 15 anos, que precisam de vacinas anuais, de cuidados com sua saúde, de companhia e espaço. Comprar um animal sem pensar nisso trará problemas no futuro'', completa a proprietária do pet shop Com-Tour, Adriana Freitas.
São cuidados que o jovem João Klinsmann, 13 anos, sabia que iria ter com a cadela Akira, uma rottweiler de dois anos. ''Meu pai me deu ela de presente de Natal, mas sou eu quem cuida: dou banho, comida, levo para passear quase todo dia. Mas não ligo de ter que fazer isso. Ela é minha companheira de brincadeiras. Como é um cão grande, é muito divertido brincar com ela. Já me ofereceram até R$ 2 mil por ela e eu não aceitei. Nem penso em ficar sem a Akira'', garante.

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