Conta a lenda que houve um tempo em que as pessoas amavam, a si mesmas, umas às outras e à vida, acreditando, assim como em relação à água e ao ar, na inesgotabilidade dessa fonte amorosa. Um dia, porém, despeitado dessa fraternidade, que não lhe rendia benefício algum, o diabo começou a insinuar a um e a outro que não deviam ser tão pródigos assim, pois o amor, gasto com tanta generosidade, tenderia a terminar. Preocupados, os seres humanos começaram a se tornar avaros no amor e, temerosos de que um dia de fato se esgotasse, acabaram por trancar a fonte perene, deixando o mundo árido de afeto.
Dessa forma, chegamos a um tempo de ''sociedade anestesiada'', como explica a psicóloga Cassiana Rossini Calixto, ''em que temos medo de amar, porque amar implica na possibilidade de perder.'' Por medo de perder, de se frustrar, de ser rejeitado, evitam-se os relacionamentos, procurando assim afastar as dores inerentes ao amor, de um lado, mas criando um isolamento e adiando o processo de amadurecimento, de outro.
''As pessoas são nossos maiores recursos'', comenta Cassiana, no sentido de que é por meio delas, na convivência com o outro, que se tem condições de crescer, de se desenvolver e de se conhecer melhor. A amizade ou, num sentido mais amplo, a fraternidade, é a melhor expressão desse afeto, despojado de medo, que une as pessoas.
Com certeza, no entanto, ''existem os predadores'', adverte a psicóloga, que, por não acreditarem na força do amor ou na sua inesgotabilidade, enveredam pelo caminho das sombras e estão sempre à espreita dos incautos. Evitá-los compete especialmente às famílias. São os pais que, ao ''cuidar'' de seus filhos, dando-lhes afeto, mas também firmeza limites vão iniciar os jovens no aprendizado do amor, dando-lhes base para defesa contra os predadores, como os adeptos das drogas, por exemplo.
Os adolescentes, especialmente, vivendo as angústias causadas pelas infindáveis mudanças dessa fase, são os que mais precisam de pais cuidadores, para não perder de vista a trilha do afeto. ''Os pais devem ser capazes de ouvir as angústias dos filhos sem lhes contrapor, como meio de defesa, as próprias angústias, e, o mais importante, precisam impor limites, mas nunca julgar'', esclarece Cassiana. Sem julgamentos, tornam-se capazes de ouvir de fato e, por isso, de compreender e de acolher, não só os próprios filhos, como os amigos de seus filhos, incentivando assim a troca de afeto.
Se na fase de adolescência a característica principal das amizades é a cumplicidade, por estarem todos vivendo as angústias das mudanças, na fase adulta, as amizades resultam especialmente ''da arte de viver com o outro'', como afirma a psicóloga, ''apesar das diferenças''.
Mas na base dos bons relacionamentos existe a coragem de enfrentar e de superar os medos de amar. Entre eles, o medo de perder aquele que se ama, literalmente ou pelas escolhas naturais impostas pela vida, como o casamento, a mudança para um lugar distante etc.; o medo de se frustrar ao não receber de volta aquilo que se acredita merecer, por amar tanto; e o medo da rejeição, que implica em rejeitar, por antecipação, qualquer possibilidade de relacionamento afetivo pela angústia de não ser aceito. ''Talvez'', como pondera Cassiana, ''o primeiro passo para formar vínculos de amizade seja se tornar amigo de si mesmo.'' n

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