Ser ou não workaholic, eis a questão que atormenta milhões de brasileiros nos dias de hoje. Por um lado, sabem que trabalhar demais, a definição mais clara de um profissional do gênero, é uma exigência cada vez maior das empresas num mundo competitivo. Só que eles repudiam a simples idéia de ser identificados com uma categoria de trabalhadores que põe a profissão acima de tudo, vistos como carreiristas. Neste cenário de recessão e com empregos em queda, muitos acabam formando uma terceira geração de workaholics. São eles que contribuem para o aumento das pessoas que excedem, ano após ano, a jornada de trabalho. Em 1985, 26,1% dos assalariados trabalhavam mais do que o exigido no contrato. Dez anos depois, esse número saltou para 41,4% e, no ano passado, ficou em 44,2%.
  ‘‘As pessoas estão apavoradas com a possibilidade de perder o emprego e isso faz com que trabalhem mais. É uma necessidade para quem não quer ser dispensado’’, analisa o presidente do Grupo Catho, Thomas Case. O analista de recursos humanos vê essa nova realidade como uma conseqüência do mundo moderno, onde a incorporação das novas tecnologias é a maior vilã.
  Como um workaholic assumido que trabalha de 12 a 14 horas por dia, Case garante que esse profissional dedicado volta a fazer sucesso nas empresas e é recompensado. Ao menos isso vale para executivos, já que uma pesquisa do grupo indica que entre eles quem trabalha mais recebe mais.
  O desemprego é o fantasma que ronda a vida dos brasileiros nos dias de hoje. Na região metropolitana de São Paulo, a última estimativa da Fundação Seade é a de que em cada dez pessoas, duas estão sem emprego. É o dobro do índice de 1990. E as perspectivas para elas são sombrias num mercado que vem sofrendo profundas transformações: os desempregados levarão, em média, um ano para encontrar uma nova colocação. No início dos anos 90, voltavam a se empregar em 15 semanas.
Produtividade Outra pressão que recai sobre os trabalhadores é a exigência crescente das empresas por aumento de produtividade. O economista Osmar de Carvalho Santos Junior, de 33 anos, é um bem-sucedido gerente de produtos de investimento do BankBoston. Para crescer profissionalmente, investiu num currículo que inclui um início no Ministério da Fazenda, passagens por bancos privados e um curso de MBA nos Estados Unidos. Admite que está solteiro ‘‘em função dos horários’’. Hoje, trabalha das 9 às 20 horas, mas há meses em que a jornada extrapola as 13 horas. Parte é acarretada pelo aumento de serviço. No ano passado, tinha de administrar 30 fundos de investimento. Agora, são 60.
  ‘‘Você acaba se adaptando a uma pressão cada vez maior, conseguindo desenvolver habilidades para se manter nessa estrutura’’, diz Santos Junior. Além de gostar do trabalho, sente-se responsável por produzir bastante, uma vez que recebe mais do que a média do mercado. ‘‘Nos momentos de maior tensão, você questiona essa situação, mas nunca senti que fosse algo insuportável. Se o empregado troca a empresa A por outra B, a pressão é a mesma.’’ O economista busca válvulas de escape como fazer ginástica duas vezes por semana e sair com os amigos, mas só aos sábados e domingos. Durante a semana, continua a investir na carreira, freqüentando um curso de direito.
  Especialistas de recursos humanos começam agora a investigar mais detidamente essa terceira geração de workaholics. Quando surgiram, nos anos 80, eram admirados como profissionais que vestiam a camisa da empresa, nunca faziam gol contra e eram vistos como um exemplo para os colegas. Em meados dos anos 90, caíram em descrédito. Eram inseguros, não sabiam dividir tarefas, atuar em equipe e tinham no trabalho a única fonte de prazer. Muitos acabavam estressados, viviam doentes e rendiam menos do que podiam. Hoje, as empresas querem que voltem a trabalhar tanto quanto nos primeiros momentos em que estavam em voga, mas sabendo administrar a pressão.
Paranóia ‘‘Vamos trabalhar mais? Vamos. Mas se não soubermos delegar tarefas ou definir prioridades, ficarmos com estresse por não cumprir o trabalho e vivermos com medo de perder o emprego, entramos num círculo vicioso’’, diz a presidente da Associação Brasileira de Qualidade de Vida, Cecília Cibella Shibuya. Na sua análise, o empregado em tempos de crise vive com a paranóia de perder o emprego e por esse motivo acaba trabalhando mais e mais. ‘‘Estamos num momento de insegurança e é hora de o empregado saber se proteger, porque senão ele terá um enfarte, vai morrer e o único trabalho da empresa será substitui-lo.’’
  O empresário Lionel Blanchet, de 37 anos, viveu momentos de tensão de 1996 a 2000. ‘‘Se a firma não alcançava os resultados esperados, era obrigado a cortar as despesas. A cada três meses era um enorme desgaste.’’ Ex-diretor-financeiro de uma multinacional alemã, tinha um salário de R$ 12 mil, um Audi A3, plano de saúde de primeira linha e a possibilidade de bônus anual de até R$ 100 mil se as metas fossem atingidas. Mesmo com tantos benefícios, não resistiu às pressões. Por trabalhar mais de 13 horas por dia, engordou 15 quilos, deixou de praticar esportes e contraiu uma úlcera.
  Numa das ordens por redução de custos, Blanchet pediu demissão. Decidiu, com a mulher, abrir uma loja de roupas femininas esportivas, a Acqua Piovana. Para se iniciar no ramo, aproveitou suas experiências profissional e acadêmica na Universidade de São Paulo. Trocou o Audi por um Fiat Uno. Mas está feliz, tendo de investir tudo no negócio e criando dez novos empregos, apesar da crise. Emagreceu 10 quilos, tem dia que não trabalha e está curado da úlcera. Já tem três lojas. ‘‘Estamos num mundo selvagem, onde a competição exige que você se destaque. Quando a economia dá uma folga, o trabalhador até pode procurar outras oportunidades. Mas num mercado recessivo, ele vira refém.’’ n

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