Meninos de rua precisam de respeito para se reintegrarem à comunidade
Meninos de rua precisam de respeito para se reintegrarem à comunidade
Carolina Avansini
Especial para Folha da Sexta
A puberdade não é apenas uma fase complicada de mudanças hormonais que marca a transição para a vida adulta. Para aqueles adolescentes cuja infância foi prejudicada por fatores econômicos e sociais, o período vivido entre os 10 e 20 anos significa uma segunda chance de desenvolvimento físico e psicológico, além de nova possibilidade de inserção na sociedade. Os chamados meninos de rua constituem parcela significativa desses jovens que precisam de uma nova oportunidade. Normalmente abertos ao resgate e à recuperação, eles também necessitam de respeito para se reintegrarem à comunidade.
A pediatra Evelyn Eisenstein professora associada da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e representante no Brasil da Organização Mundial de Saúde esteve em Londrina para falar sobre o tema. Em debate promovido pela Associação Médica de Londrina, ela falou sobre a importância de se oferecer alternativas para esta parcela da juventude.
Transição A OMS define a adolescência como uma época de transição marcada por intensas transformações corporais, emocionais e sociais. É um período crítico e vulnerável, durante o qual ocorre a construção de identidade e independência. Por essas características, é também um período que exige fatores protetores por parte da sociedade, que deve se unir para formar uma rede social capaz de oferecer segurança e potencial de desenvolvimento aos adolescentes. Saúde, educação, respeito, alimentação e cidadania são direito de todos, independente da classe social. É a falta dessa perspectiva que os coloca em situação de risco, levando-os para a rua ou colocando-os em contato com as drogas ou doenças.
Evelyn nunca usa o termo meninos de rua, por considerá-lo discriminatório. Quando falamos em meninos de rua, pressupomos que não são meninos da escola ou da família. Por isso prefiro classificá-los como crianças e adolescentes em situação de risco, afirma. Para ela, fatores de risco são aqueles elementos que podem desencadear doenças e até a morte. Desnutrição, depressão, abandono, distúrbios afetivos e violência são alguns dos inúmeros exemplos que costumam desequilibrar o curso normal de desenvolvimento.
Uma pesquisa realizada com 112 adolescentes aponta que o principal fator de impulsão para a rua foi a perda de uma figura familiar importante. De acordo com a pediatra, o fenômeno se explica pela necessidade de um modelo adulto durante este período de formação. Todo adolescente quer crescer, se ligar a um modelo saudável. Quando lhe oferecemos a possibilidade de desenvolvimento, eles são muito receptivos, é o que chamo de dar uma segunda chance. No Brasil, todos os programas envolvendo essa parcela da população trazem resultados positivos, independente da metodologia adotada, porque os adolescentes em situação de risco são extremamente predispostos a se envolverem, afirma.
Ela ressalta que a responsabilidade de oferecer uma alternativa para estes jovens não é apenas do estado ou das instituições. Cabe a nós formarmos essa rede de proteção necessária para o crescimento destas crianças. Quando prevenimos a desintegração familiar e todos os outros fatores de risco, estamos colaborando para o desenvolvimento do país e evitando a instalação do caos social. Prevenção é um grande investimento, finaliza.





