Medo na infância é coisa séria
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quinta-feira, 01 de agosto de 2013
Paula Barbosa Ocanha<br>Reportagem Local 
Bicho-papão, monstros no armário, Homem do Saco, Loira do Banheiro. Quem nunca teve medo de um desses seres imaginários, ou mesmo de situações "de perigo", como ficar sozinho, acidentes, morte, chuva, raios ou trovões? Segundo alguns estudos, o medo é inato, biológico e serve como instinto de proteção e perpetuação da espécie. No entanto, os temores que começam na infância, se não forem tratados, podem limitar crianças e até transformá-las em adultos inseguros. Especialistas alertam que situações de temor não devem ser ignoradas pela família e, às vezes, acompanhamento psicológico é recomendado.
Segundo Kellen Escaraboto Fernandes, supervisora clínica do Grupo de Estudos e Supervisão em Terapia Infantil do Instituto do Comportamento em Estudos e Psicoterapia (Iacep), no geral, até os 3 anos de idade, a criança pode apresentar medo do que é concreto. "Os pais falam que se ela colocar o dedo na tomada vai fazer dodói, ou que se subir muito alto no brinquedo vai cair, que ela pode se perder, que o cachorro vai morder. Tudo isso pode trazer medo à criança ou pela repetição da família, ou por ela acabar experimentando essas situações e temer repeti-las", diz.
Após os 4 ou 5 anos de idade, normalmente a criança pode começar também a temer situações criadas pelo raciocínio hipotético. "Crianças misturam realidade com fantasia. Tive um paciente que achava que um ladrão ia entrar no apartamento porque, como o Homem Aranha, o ladrão poderia escalar a parede. Então, medo do escuro, medo de ficar sozinho, de chuvas e raios, ou medo da morte, podem começar porque a criança começa a imaginar situações", ressalta.
A família deve tomar muito cuidado para não rotular e aceitar os filhos como "medrosos". "Os pais têm um papel fundamental. Se a criança reage chorando na frente de um palhaço ou de um Papai Noel, por exemplo, muitos já falam que ela tem medo e pronto. Às vezes, é só uma reação ao desconhecido e não medo. A família tem que cuidar com o que fala, com as frases usadas. Ensinar a criança a enfrentar a situação é melhor do que aceitar o medo dela", orienta Kellen.
Como agir
Se os filhos começam a temer algo, os pais podem tentar, no início, conversar. "Não devemos ignorar, mas levar a criança à realidade e não mentir. Se ela tem medo de chuva porque viu na televisão a notícia de uma enchente, os pais podem conversar e explicar que na rua que eles moram a possibilidade de isso acontecer é mínima. Explicar que nem todos os cachorros mordem, que nem sempre você cai e se machuca. Se ele tiver medo de escuro é só comprar um abajur para que ele se sinta melhor no quarto. É preciso avaliar o nível de entendimento do seu filho e com quais situações ele consegue lidar", avalia a psicóloga.
Se a criança tem medo de acidentes, morte ou ladrões, por exemplo, mentir que nada de ruim vai acontecer não é uma boa tática. "Se os pais falam que nunca vão se ausentar, que crianças não morrem ou que acidentes não acontecem, por exemplo, e o filho acaba passando por uma situação dessas na família ou com amigos, ele vai ficar com mais medo. O problema é que muitas vezes os pais mentem e superprotegem as crianças, os tornando dependentes e inseguras", alerta Kellen.
Mas se a ajuda dos pais não resolver o problema - se a criança passou por um trauma real ou se apresenta uma reação exagerada ao medo, como gritar desesperadamente, chorar compulsivamente, urinar na roupa ou mesmo voltar a urinar na cama e ter sintomas de estresse, como feridas na pele -, os pais precisam buscar ajuda de um psicólogo infantil. "Geralmente a terapia não serve somente para a criança, e sim para a família toda. Ensinamos os pais a lidarem com a situação, assim como os filhos". De acordo com Kellen, tudo precisa ser avaliado: o nível de comprometimento da criança com a situação traumática, o tipo de medo e o comportamento dos pais diante do temor do filho para que a terapia funcione e o tratamento comece a surtir o efeito desejado.

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